Publicidade
  Login:   Senha:   OK  
 
 
 
Envie para um amigo Imprimir
Interseção

RETROINOVAÇÃO
ENVERDECIMENTO URBANO: UMA ANTÍTESE AO AQUECIMENTO

POR JÖRG SPANGENBERG



O trinômio sOcioeconômico-ambiental urbano
As atuais transformações do tecido urbano de São Paulo trazem maciças contradições socioeconômico-ambientais. Há, por exemplo, uma alta densidade construída em contrapartida a uma diminuição crescente da população em regiões centrais, abandonadas por causa da perda de qualidade, embora, ao contrário da periferia, apresentem boa oferta de transporte público.

Se, por um lado, tem-se a degradação do ambiente público, por outro, se nota a sofisticação dos espaços restritos e privados (condomínios fechados e shopping centers), verdes ilhas com "clima de oásis", circundadas por mares aquecidos, espaços de passagem ressecados, empobrecidos, ameaçadores e cada vez mais próximos.

Outro ponto a ser ressaltado, a reforçar a degradação do espaço público, é a utilização privilegiada do transporte individual, conceito fundamental do Modernismo e restrito a cerca de 20% da população paulistana. Tudo leva a crer que a infra-estrutura sem o mínimo de planejamento não permite boa integração com o meio ambiente urbano.

No conceito tradicional de construção das cidades, a vegetação quase sempre foi percebida como desperdício de espaço, sem, portanto, nenhum valor econômico. Recentemente, essa noção começou a mudar. O verde está se tornando – talvez pela primeira vez na história da humanidade – elemento da moda e excelente argumento de venda, o que traz, não deixa se ser irônico, certos benefícios para a cidade inteira.

Integração da vegetação na arquitetura, como ação de interesse público e privado
Pequenos oásis de contemplação urbana, ligadas aos negócios, ao bem-estar e à qualidade climática em meio ao caos desordenado e asfaltado. É assim que deveríamos caminhar em direção a novos conceitos. Se abríssemos mão do isolamento em favor de uma planejada abertura para o bem público, a vida nas grandes cidades poderia se tornar um verdadeiro paraíso. A idéia não é totalmente nova e vários exemplos podem ser vistos em Cingapura, cidade tropical como muitas das metrópoles brasileiras.

Os edifícios e suas áreas livres, na era da sustentabilidade, não podem mais ser vistos simplesmente como objetos solitários, isolados e fechados. É importante enxergá-los integrados à cidade, à paisagem urbana (e ao meio ambiente urbano) e ao mundo. Interagindo com o planeta em relação recíproca, como partes de um mesmo organismo.

Para uma boa integração do privado e do público, a árvore deve ser vista não mais como objeto isolado, vazio e perdido no meio ambiente urbano, mas como elemento que pode melhorar e diminuir os impactos sócio-ambientais do edifício graças à sua sombra e ao seu entorno no mundo – e vice-versa. O desenho da fachada (envelope da edificação), como separação e interface entre o público e o privado, torna-se crucial para o desenvolvimento sustentável do espaço urbano.

Principalmente no exterior, a unissonância com a natureza e o lugar é considerada como uma das particularidades mais marcantes da arquitetura brasileira. No Brasil, existem de fato abordagens muito interessantes, mas poucas obras construídas nessa linha de pensamento, que busca a mais profunda integração da construção, da arte e da natureza, do público e do privado.

Niemeyer, mesmo aos 100 anos, ainda procura o natural nas formas arqueadas, femininas e montanhosas. Mas essa busca não se estende às matérias-primas que utiliza. Grande oportunidade para Burle Marx criar um estilo próprio de construção tropical, mundialmente reconhecido e fortemente interligado às obras de Niemeyer, no qual se vale de exuberante vegetação tropical.

Lina Bo Bardi também procurou a mais profunda integração da arquitetura com a natureza, à que chamou de "binômino", e percebeu a vegetação como uma das mais sutis substâncias na sua arquitetura. Lina Bo levou em conta as transformações naturais e suas inevitáveis conseqüências, seu próprio processo de envelhecimento corporal e estético. Vilanova Artigas desenvolveu em sua arquitetura aspectos associados à integração visual e climática com o meio circundante, criando prédios públicos sem portas, caso do próprio edifício da FAUUSP.

Hoje imperam na paisagem urbana paulistana as mais "novas" (embora vencidas) visões cristalizadas e importadas, principalmente dos Estados Unidos, sem nenhuma adaptação ao clima e à cultura brasileira. Em função da abundância de energia de baixo custo utilizada para resfriamento e de uma auto-imagem corporativa e globalizante, a arquitetura brasileira contemporânea tornou-se difusora do chamado conceito "Ice-T": o paradoxal princípio de aquecer um líquido para depois resfriá-lo. Revela-se, assim, no Brasil atual, o elo perdido entre o paisagismo público e a arquitetura privada, entre a natureza cuidada e o homem globalizado e urbanóide.

Recentemente, novos conceitos foram lançados por vários escritórios de arquitetura, entre esses Tryptique, Baptista, Haussmann & Spangenberg, e Kogan, os quais levam em consideração o "enverdecimento" dos edifícios como novo valor estético e benefício econômico. Esses projetos, ainda não construídos, alinham-se com clareza a conceitos desenvolvidos em todo o mundo: na Europa, por Piano, Foster, Rogers, Herzog & DeMeuron, Hundertwasser, Gaudí; na América do Norte, pelo site Arquitetos; pelos argentinos Ambasz e Wright, por Buckminster-Fuller; na Ásia por Yeang e na África por Michael Pearce.

Ainda há aqueles que acham que a arquitetura contemporânea (ainda moderna?) não deveria mudar à mercê da necessidade de causar menos impacto ambiental. E que fachadas e telhados verdes, placas fotovoltaicas e painéis para geração de água quente não poderiam ser considerados elementos do desenho arquitetônico. Estaremos com medo de mudanças?

Este texto tenta mostrar que é exatamente aqui, na mudança de paradigma do desenho, que se encontra uma oportunidade para a criação de uma nova arquitetura tropical que, sem ser nostálgica, leva em conta o que havia de verdadeiramente bom "nos bons e velhos tempos". Uma arquitetura que, talvez, poderá ser chamada de "retroinovação".

Jörg Spangenberg é arquiteto graduado na Alemanha com mestrado pela PUC-Rio. Fez estágio no escritório de Oscar Niemeyer, no Rio Janeiro, e está doutorando pela Bauhaus em convênio com a USP; subsidiado pela Holcim Foundation for Sustainable Construction. É consultor de projetos sustentáveis e tem trabalhos desenvolvidos no Brasil e no exterior.

PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2
 
 
Envie para um amigo Imprimir
 
 
Relacionados
 

PINIweb :: 06/01/09
CUB paulista atingiu alta de 10,96% em 2008

PINIweb :: 05/01/09
Portugal inaugura megacentral fotovoltaica

aU - Arquitetura e Urbanismo :: Fóruns :: ed 177 - Dezembro 2008
A lei de assistência técnica gratuita vai gerar mais oportunidades de trabalho?

aU - Arquitetura e Urbanismo :: Brasil :: ed 177 - Dezembro 2008
Vitrine bem-humorada

 
 
Publicidade


digital aU
 
 
 
     
 
Notícias  
 

08/01/2009
Unicamp anuncia concurso internacional para museu

08/01/2009
Conjunto urbanístico em São Bernardo do Campo é recuperado

07/01/2009
Oportunidades de investimentos em obras para a Copa de 2014 foram desperdiçadas

06/01/2009
CUB paulista atingiu alta de 10,96% em 2008

 
 
lojaPini
OK
 
TAGs
Entender TAG
Banco do Brasil Caixa caixa econômica federal CBIC crédito crise crise financeira fgts FGV financiamento IAB-SP índices investimentos materiais MP 443 prêmio sinduscon-sp sustentabilidade vencedores Vendas
 
 
Guia da Construção
 
 
 
 
piniweb Copyright © 2008 - Editora PINI Ltda. Todos os direitos reservados.
   
  OK
 
 
sites Pini  
     
   
  aU - Arquitetura & Urbanismo
Casa | Brasil | Internacional | Entrevista | Interseção | Crônicas Agudas | Exercício Profissional | Interiores
  NOTICIÁRIO
Arquitetura|Custos|Exercício Profissional e Entidades|Gestão|Habitação|Infra-estrutura|Legislação|Mercado Imobiliário|Sustentabilidade|Tecnologia & Materiais|Urbanismo
  REVISTAS
Construção Mercado | aU - Arquitetura & Urbanismo | Téchne | Equipe de Obra
  LIVROS & TCPO | SOFTWARES
  GUIA DA CONSTRUÇÃO
Guia de Fornecedores | Preços Pesquisados | Índices e Custos | Atualização Monetária | Como Especificar
  SERVIÇOS
Expediente | Fale Conosco | Cadastre-se | Suporte de Software | Representantes | FAQ Portal | Anuncie
   
 
 
by ContentStuff
aU