O trinômio sOcioeconômico-ambiental urbano
As atuais transformações do tecido urbano de São
Paulo trazem maciças contradições socioeconômico-ambientais.
Há, por exemplo, uma alta densidade construída em contrapartida
a uma diminuição crescente da população em
regiões centrais, abandonadas por causa da perda de qualidade,
embora, ao contrário da periferia, apresentem boa oferta de transporte
público.
Se, por um lado, tem-se a degradação do ambiente público,
por outro, se nota a sofisticação dos espaços restritos
e privados (condomínios fechados e shopping centers), verdes ilhas
com "clima de oásis", circundadas por mares aquecidos,
espaços de passagem ressecados, empobrecidos, ameaçadores
e cada vez mais próximos.
Outro ponto a ser ressaltado, a reforçar a degradação
do espaço público, é a utilização privilegiada
do transporte individual, conceito fundamental do Modernismo e restrito
a cerca de 20% da população paulistana. Tudo leva a crer
que a infra-estrutura sem o mínimo de planejamento não permite
boa integração com o meio ambiente urbano.
No conceito tradicional de construção das cidades, a vegetação
quase sempre foi percebida como desperdício de espaço, sem,
portanto, nenhum valor econômico. Recentemente, essa noção
começou a mudar. O verde está se tornando – talvez
pela primeira vez na história da humanidade – elemento da
moda e excelente argumento de venda, o que traz, não deixa se ser
irônico, certos benefícios para a cidade inteira.
Integração da vegetação na arquitetura, como
ação de interesse público e privado
Pequenos oásis de contemplação urbana, ligadas aos
negócios, ao bem-estar e à qualidade climática em
meio ao caos desordenado e asfaltado. É assim que deveríamos
caminhar em direção a novos conceitos. Se abríssemos
mão do isolamento em favor de uma planejada abertura para o bem
público, a vida nas grandes cidades poderia se tornar um verdadeiro
paraíso. A idéia não é totalmente nova e vários
exemplos podem ser vistos em Cingapura, cidade tropical como muitas das
metrópoles brasileiras.
Os edifícios e suas áreas livres, na era da sustentabilidade,
não podem mais ser vistos simplesmente como objetos solitários,
isolados e fechados. É importante enxergá-los integrados
à cidade, à paisagem urbana (e ao meio ambiente urbano)
e ao mundo. Interagindo com o planeta em relação recíproca,
como partes de um mesmo organismo.
Para uma boa integração do privado e do público,
a árvore deve ser vista não mais como objeto isolado, vazio
e perdido no meio ambiente urbano, mas como elemento que pode melhorar
e diminuir os impactos sócio-ambientais do edifício graças
à sua sombra e ao seu entorno no mundo – e vice-versa. O
desenho da fachada (envelope da edificação), como separação
e interface entre o público e o privado, torna-se crucial para
o desenvolvimento sustentável do espaço urbano.
Principalmente no exterior, a unissonância com a natureza e o
lugar é considerada como uma das particularidades mais marcantes
da arquitetura brasileira. No Brasil, existem de fato abordagens muito
interessantes, mas poucas obras construídas nessa linha de pensamento,
que busca a mais profunda integração da construção,
da arte e da natureza, do público e do privado.
Niemeyer, mesmo aos 100 anos, ainda procura o natural nas formas arqueadas,
femininas e montanhosas. Mas essa busca não se estende às
matérias-primas que utiliza. Grande oportunidade para Burle Marx
criar um estilo próprio de construção tropical, mundialmente
reconhecido e fortemente interligado às obras de Niemeyer, no qual
se vale de exuberante vegetação tropical.
Lina Bo Bardi também procurou a mais profunda integração
da arquitetura com a natureza, à que chamou de "binômino",
e percebeu a vegetação como uma das mais sutis substâncias
na sua arquitetura. Lina Bo levou em conta as transformações
naturais e suas inevitáveis conseqüências, seu próprio
processo de envelhecimento corporal e estético. Vilanova Artigas
desenvolveu em sua arquitetura aspectos associados à integração
visual e climática com o meio circundante, criando prédios
públicos sem portas, caso do próprio edifício da
FAUUSP.
Hoje imperam na paisagem urbana paulistana as mais "novas"
(embora vencidas) visões cristalizadas e importadas, principalmente
dos Estados Unidos, sem nenhuma adaptação ao clima e à
cultura brasileira. Em função da abundância de energia
de baixo custo utilizada para resfriamento e de uma auto-imagem corporativa
e globalizante, a arquitetura brasileira contemporânea tornou-se
difusora do chamado conceito "Ice-T": o paradoxal princípio
de aquecer um líquido para depois resfriá-lo. Revela-se,
assim, no Brasil atual, o elo perdido entre o paisagismo público
e a arquitetura privada, entre a natureza cuidada e o homem globalizado
e urbanóide.
Recentemente, novos conceitos foram lançados por vários
escritórios de arquitetura, entre esses Tryptique, Baptista, Haussmann
& Spangenberg, e Kogan, os quais levam em consideração
o "enverdecimento" dos edifícios como novo valor estético
e benefício econômico. Esses projetos, ainda não construídos,
alinham-se com clareza a conceitos desenvolvidos em todo o mundo: na Europa,
por Piano, Foster, Rogers, Herzog & DeMeuron, Hundertwasser, Gaudí;
na América do Norte, pelo site Arquitetos; pelos argentinos Ambasz
e Wright, por Buckminster-Fuller; na Ásia por Yeang e na África
por Michael Pearce.
Ainda há aqueles que acham que a arquitetura contemporânea
(ainda moderna?) não deveria mudar à mercê da necessidade
de causar menos impacto ambiental. E que fachadas e telhados verdes, placas
fotovoltaicas e painéis para geração de água
quente não poderiam ser considerados elementos do desenho arquitetônico.
Estaremos com medo de mudanças?
Este texto tenta mostrar que é exatamente aqui, na mudança
de paradigma do desenho, que se encontra uma oportunidade para a criação
de uma nova arquitetura tropical que, sem ser nostálgica, leva
em conta o que havia de verdadeiramente bom "nos bons e velhos tempos".
Uma arquitetura que, talvez, poderá ser chamada de "retroinovação".
Jörg Spangenberg é arquiteto graduado na Alemanha com
mestrado pela PUC-Rio. Fez estágio no escritório de Oscar
Niemeyer, no Rio Janeiro, e está doutorando pela Bauhaus em convênio
com a USP; subsidiado pela Holcim Foundation for Sustainable Construction.
É consultor de projetos sustentáveis e tem trabalhos desenvolvidos
no Brasil e no exterior.
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