Longe
de qualquer consideração crítica, Le Corbusier e
sua arquitetura de cinco pontos continua forte no imaginário de
muitos arquitetos brasileiros. Sua Villa Savoye (1929/31), restaurada
e mantida pelo governo francês, exportou sua planta livre, suas
palafitas e suas janelas-fita para muitas casas modernistas no Brasil
e hoje, quase 80 anos depois, também desceram a serra paulista
e foram encontrar terreno na praia de Maresias, litoral Norte de São
Paulo.
O arquiteto George Mills conferiu ao projeto de uma casa "pé-na-areia"
algumas das características da emblemática casa do arquiteto
suíço, também projetada para veraneio. De acordo
com Mills, no entanto, a casa de 600 m² foi suspensa em oito pilotis
por motivos muito mais práticos do que a retórica da relação
entre exterior/interior e público/privado proposta por Corbusier.
A virada de 2005, ano do projeto, foi marcada pelo tsunami na Indonésia,
catástrofe que vitimou milhares de pessoas. Impressionado, o proprietário
pediu que a construção pairasse acima do solo, de maneira
a não oferecer resistência a uma eventual invasão
do mar no litoral do Brasil. "Naquele ano ficamos bastante assustados
com as imagens do tsunami na televisão, e levantar a casa nos pareceu
a melhor solução", explica Mills. Além disso,
como a casa foi implantada no limite posterior do terreno retangular de
1,5 mil m², perto de uma encosta de mata Atlântica, o afastamento
do solo ofereceu proteção contra a entrada de pequenos animais,
como cobras e insetos.
É sobre os pilotis de concreto que a simplicidade da perfeita
geometria ortogonal alinha quatro suítes, sala e cozinha, todas
voltadas para a fachada norte, onde são arrematados por um providencial
terraço que percorre toda a extensão frontal da casa, cerca
de 25 m. As empenas cegas laterais contêm o avanço da transparência
presente nas fachadas frontal e posterior, vedadas por panos de vidro,
com janelas e portas de correr que deixam entrar a brisa marítima.
"A liberdade do layout interno é decorrente da concentração
da estrutura em duas faixas paralelas e periféricas", explica
Mills, que buscou a planta livre proposta por Corbusier e, a seu modo,
imprimiu as transparências necessárias à construção.
As vigas soldadas e parafusadas que circundam toda a casa na altura das
lajes de piso e cobertura foram deixadas aparentes, como grandes anéis
acobreados. As empenas cegas são formadas por blocos de concreto
celular que barram a intensa carga térmica advinda da insolação
direta nas fachadas leste e oeste, enquanto as divisórias internas
seguiram o tradicional padrão dos tijolinhos baianos. Os pilares
de concreto, perfeitamente circulares, elevam-se sem tocar as divisórias
das varandas, medida preventiva contra fissuras, e mostram-se totalmente
aparentes nas paredes dos dormitórios e dentro dos banheiros.
A ligação com o terreno é feita por uma caixa central
envidraçada que acolhe uma escada, salão de jogos e a residência
do caseiro. Sob a laje abrigam-se ainda os carros da família, espaço
definido pelo mosaico português do piso. Na porção
posterior do terreno o arquiteto criou uma área livre em patamares
de pedra britada com uma função dupla: receber a água
de chuva (para isso tem drenos longitudinais enterrados) e formar um espaço
de segurança, de fácil visualização, entre
a mata virgem e a casa. Para complementar o lazer, uma piscina estende-se
junto à fachada frontal, em meio ao piso quase vitrificado de granilite
branco.
Apesar da pequena comparação inicial, uma das escolhas
de Mills foge totalmente de um dos preceitos de Corbusier, que preconizava
que todos os edifícios deveriam ser brancos: a casa é inteiramente
pintada de cores queimadas, no caso vinho e laranja, tons acobreados e
intensos como o sol da região.
Todas as esquadrias são de alumínio anodizado e especificadas
no mesmo tom acobreado, manchado e muitas vezes difuso da pátina
formada sobre a estrutura. "Algumas esquadrias apresentam um tom
rosado, outras são mais escuras, e, assim, casam perfeitamente
com esse tipo de aço", diz Mills. O conjunto ergue-se harmonioso
e enfrenta o sol, a chuva e o mar resoluto de sua contemporaneidade, que,
queira-se ou não, sempre bebe na fonte do passado.
PILLAS ON THE BEACH
The architect George Mills conferred to his project some of the characteristics
of Le Corbusier's emblematic Villa Savoye (1929/31). According
to Mills, however, the 600 sqm house was erected on eight pilotis for
much more practical reasons than the rhetoric relationship between exterior/interior
and public/private as proposed by Le Corbusier. The owner requested
that the building should float over the ground, so that it would not
offer any resistance to an eventual invasion by the sea. Implemented
in the back limit of the rectangular 1.5 thousand sqm lot, near a slope
in the Atlântica jungle, the spacing from the ground offered the
tenants protection against the invasion of small animals. The blind
side gables hold the progress of the front and back facades transparency,
where glasses are elevated from the floor to the slab, and windows and
sliding doors open out to the sea breeze. "The internal layout
freedom originates from the concentration of the structure in two parallel
and peripheral bands", explains Mills. In spite of the small initial
comparison, one of Mills' choices goes against one of Le Corbusier's
precepts, which preconized that all buildings should be white: the house
is entirely painted in burnt-looking colors, copper-like and intense
tones. The ensemble harmoniously rises and faces the sun, the rain and
the unwavering sea in its contemporariness, which, whether desired or
not, always drinks in the fountains of the past.
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