Em 47 anos de carreira, Siegbert Zanettini já projetou mais
de 50 hospitais. O último deles, o Hospital e Maternidade São
Luiz – Unidade Anália Franco, recentemente inaugurado no
bairro do Tatuapé, zona Leste de São Paulo, reúne
conceitos arquitetônicos e técnicos anteriormente empregados
pelo arquiteto em projetos de mesmo tema. A volumetria e as fachadas do
edifício foram trabalhadas de forma a privilegiar a luz e a ventilação
naturais de maneira intensa, sobretudo nos setores de internação
do hospital geral e da maternidade, separados em prumadas distintas.
Com forma de um trapézio invertido e escalonado na base, a construção
é externamente revestida com granito lavado (fulget) e chapas brancas
de alumínio composto (ACM). O vão que recorta o volume arquitetônico
na parte superior central é vencido por passarelas metálicas
que ligam o setor de internação do hospital geral ao da
maternidade. Zanettini conta que, inicialmente, havia idealizado o edifício
todo em estrutura metálica, mas, a pedido do hospital, refez o
projeto em estrutura de concreto. Ainda assim, além da passarela,
o heliponto, marquises atirantadas de acesso e as coberturas externas
ao hospital são metálicos.
De acordo com Virgílio Ramos, calculista do projeto, a transformação
estrutural não alterou a volumetria do hospital, apesar de ter
tornado a estrutura mais robusta. Ele explica que o terceiro andar, o
pavimento técnico do hospital, exerce um papel estrutural importante
no prédio, pois sustenta as lajes dos demais pavimentos superiores
que descarregam todo o seu peso nele. "As lajes inferiores, por sua
vez, estão penduradas na laje do terceiro pavimento", afirma
Ramos.
O escalonamento na prumada que corresponde à maternidade permite
a entrada abundante de luz natural no hall, onde se destaca uma capela
ecumênica. Como uma grande praça, o hall conecta todo o térreo,
culminando na outra extremidade do edifício, onde foram implantados
o auditório e o restaurante. As extremidades do hospital, em duplo-balanço,
são sustentadas pelas "caixas" de concreto que abrigam
as escadas. Parte da carga vertical do volume em balanço é
absorvida pelas paredes laterais escalonadas de concreto (moldadas in
loco) que, por sua vez, transferem o peso para colunas de mesmo material,
dispostas no perímetro da construção. Um pátio
ajardinado com espelho d'água assinala a transição
entre os setores de internação, dispostos nos últimos
pavimentos, e a base do edifício, onde estão o centro cirúrgico,
UTI, central neonatal e o andar técnico.
No terceiro pavimento, o centro de distribuição de material
limpo e esterilizado – localizado, em planta, na projeção
do grande vão central – atende tanto ao centro cirúrgico,
situado na prumada do hospital geral, quanto ao centro obstétrico,
na prumada da maternidade. As salas cirúrgicas contam com algumas
inovações no que se refere ao piso condutivo que, em vez
de ocupar todo o cômodo, está localizado apenas sob o leito
cirúrgico. Cada sala dispõe de sistemas próprios
de ar-condicionado, de forma que, no caso de haver infecção,
o recinto em questão seja isolado dos demais, evitando que a contaminação
se espalhe. As áreas eventualmente contaminadas serão bloqueadas
e a manutenção será feita no pavimento superior ou
andar técnico.
Escalonamento e vãos centrais não foram todos os recursos
utilizados pelo projeto para iluminar o interior do prédio. No
pátio ajardinado, uma clarabóia rasga o piso e leva luz
zenital à área de conforto dos médicos e da enfermagem,
localizada no centro da planta do terceiro pavimento. A iluminação
natural está presente mesmo em locais costumeiramente fechados,
como nas escadas enclausuradas, cuja vedação em concreto
conta com frestas verticais de 25 cm de largura. Discretamente dispostas
nas fachadas cegas dos primeiros pavimentos, venezianas metálicas
contínuas ventilam e iluminam suavemente o pavimento técnico
e as UTIs adulta e pediátrica.
Por questões funcionais, o auditório, instalado sob a prumada
do hospital geral, é o único espaço em que a luz
não penetra. Bem ao lado fica o restaurante, configurado por uma
caixilharia de alumínio com desenho curvo que, em contrapartida,
permite a entrada plena de luz no espaço. "Os espaços
podem ser integrados, no caso de eventos", explica Zanettini, que
é autor de projetos como o Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha,
Ermelino Matarazzo e São Camilo (o novo bloco). "Reuni nesse
o que de melhor existe nos outros hospitais que já projetei",
afirma.
Tantas aberturas e transparências exigiam soluções
que evitassem a insolação excessiva dos ambientes. No hospital,
alguns elementos arquitetônicos assumem a função de
brise, caso do heliponto metálico que atua como anteparo para os
raios solares, protegendo as passarelas metálicas do vão
central da insolação excessiva, ou da malha estrutural de
concreto aparente que, juntamente com as varandas dos quartos, emoldura
e sombreia a caixilharia das fachadas.
Apesar de dar a impressão de ser plano, o terreno tem uma inclinação
no sentido leste que corresponde ao da prumada do hospital geral. Pela
Rua Antonio Camardo, onde a cota é mais baixa, acontece, exclusivamente,
o acesso dos pacientes externos ao pronto-socorro e pronto atendimento
do hospital, setores dimensionados para receber entre duas e três
mil pessoas por dia. "A separação de fluxos dos pacientes
internos e externos foi uma decisão projetual importante, pois
evitará o congestionamento de pessoas no hospital", afirma
Zanettini.
A predominância dos revestimentos claros na arquitetura de interiores
evidencia o intuito do projeto de valorizar a iluminação
natural. No hall central de 6 m de pé-direito, a luz que penetra
por todos os lados é refletida pelo piso de mármore travertino,
favorecendo a monumentalidade do espaço. O mesmo material foi empregado
nos halls dos pavimentos do setor de internação, adjacentes
ao vão central, cujo acesso é feito por elevadores panorâmicos.
"Claro e alegre, esse é um dos meus hospitais preferidos",
revela o arquiteto.
LIGHT FROM ALL SIDES
In his 47-year career, Siegbert Zanettini has already designed more
than 50 hospitals. The latest, Hospital e Maternidade São Luiz
– Unidade Anália Franco, unites architectural and technical
concepts previously used by the architect in similar projects. The volumes
and facades of the building were constructed in a way to foster natural
lighting and ventilation, especially in the general health and maternity
hospitalization, separated into distinct vertical lines. Shaped as an
inverted trapeze – with setbacks – the building is externally
coated with washed granite (fulget) and aluminum compound white sheets
(ACM). The span which separates the architectural volume at the central
top part is crossed by metallic walkways which connect the general hospitalization
sector to that of the maternity. Zanettini says that, initially, he
had idealized the entire building made of metallic structure, but that,
at the hospital's request, he reviewed the project in concrete structure.
"In addition to the walkway, also the heliport, trussed beam access
marquees and the hospital’s external roofs are metallic",
says the architect.
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