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Brasil

A celebração da madeira
Restauro de um moinho e instalação de um museu contam a história da imigração italiana para o sul do Brasil. a transparência proposital da área de exposição aguça a curiosidade do público, que é estimulado a conhecer as instalações pela fluidez de comunicação entre os edifícios

POR MAURÍCIO HORTA FOTOS NELSON KON

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Ilópolis pode não ser a maior cidade do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul. Na verdade, é bem pequena, com apenas 4,5 mil habitantes. No entanto, foi a partir de lá que se deu o primeiro grande passo para estabelecer, nessa antiga região de colonos italianos, a rota turística e cultural à qual se chamou Caminho dos Moinhos. A partir de um levantamento minucioso conduzido pelo Iphan e pela Universidade de Caxias do Sul, Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz restauraram o Moinho Colognese, no Centro da cidade, e projetaram dois volumes de concreto com programas diferentes: o leve e transparente Museu do Pão e a grave e isolada Oficina de Panificação. Esse foi apenas o primeiro passo para o estabelecimento do novo roteiro.

Para dar vida ao Caminho dos Moinhos, é necessário o desenvolvimento de atividades de apoio que atraiam visitantes. A restauração do Moinho Colognese focou no caráter documental da construção, com alterações pontuais. Manteve-se o maquinário de madeira original, embora com uma produção pequena, demonstrativa para grupos de cerca de dez visitantes. Com essa mudança da produção, o espaço adjacente que servia de depósito de sacos ficou ocioso. A solução foi transformá-lo numa combinação de bodega, padaria e café, que deve dar vida ao edifício e integrá-lo à comunidade. Na parede que separa os dois ambientes, atrás do balcão da bodega, instalou-se um amplo vidro, através do qual se vêem as máquinas em funcionamento.

Dois novos volumes dão conta dos programas adicionais – o Museu do Pão e a Oficina de Panificação. Com uma escala respeitosa, eles não se impõem nem se anulam diante do moinho. Embora se identifiquem no uso de concreto aparente, os dois blocos exploram idéias opostas. O espaço expositivo é completamente transparente, fechado com panos de vidro e protegido da incidência solar por painéis de madeira corrediços externos. Assim como o moinho, o museu flutua sobre palafitas conforme o terreno segue em seu leve declive. Sua cobertura, que se afina conforme se aproxima das bordas, também flutua sobre três pilastras com delgados capitéis de madeira.

Por sua vez, o programa da oficina, que inclui uma cozinha-escola e banheiros, exige mais privacidade. Foi abrigado, portanto, em um bloco monolítico, impermeável, contundentemente cravado no terreno de brejo. À noite, com as aberturas quadradas do subsolo iluminadas, parece um navio encalhado na areia.

Boas soluções térmicas e de ventilação natural foram criadas para essa cozinha, que não pode receber ar-condicionado. A cobertura, ocupada por uma laje-jardim isolante sustentada por vigas transversais, não encontra as paredes longitudinais do prédio, formando, assim, dois longos vãos fechados por janelas basculantes por onde entra luz e se dissipa o ar quente. O ar frio, por sua vez, vem do úmido porão através de aberturas no piso.

Por coincidência, a tipologia das casas dos imigrantes italianos também traz dois volumes: o da cozinha, mais pesado, de pedra, onde é feito o fogo, e outro que é a casa propriamente dita, feito de madeira. "Quando o projeto já estava em obras, fui buscar umas imagens de arquitetura colonial da imigração italiana no Sul num livro do professor (Pietro Maria) Bardi e vi aquelas casas, com passadiço muito leve, de madeira, agarrado numa construção de pedra", comenta Ferraz. Essas casas tradicionais ainda podem ser vistas em Ilópolis.

Desde o momento em que o visitante deixa a calçada e entra no museu, até tomar um copo de vinho e comer pão na bodega do moinho, vai caminhar sempre no mesmo nível, apesar da declividade do terreno. Os dois volumes e o moinho mantêm a mesma quota de nível e são ligados por leves passadiços de madeira. Os passadiços, por sua vez, estendem-se contornando a oficina em suas faces sudoeste e noroeste. Assim, conectam o museu ao moinho sem que seja necessário entrar na oficina, que exige privacidade. Com o declive do terreno, essa passarela torna-se um "mirante" de onde se avista o córrego que passa na porção mais baixa do lote. Fanucci e Ferraz ainda canalizaram em duas canaletas ao longo do perímetro do terreno, até o córrego, o grosso fio d'água que nasce debaixo do moinho. Assim, um muro tornou-se desnecessário.

Apropriando-se do espaço
Trabalhar em uma comunidade pequena e conseguir que ela tomasse o projeto para si foi um dos desafios da dupla Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci, da Brasil Arquitetura. "Há projetos que inibem o visitante, que o faz pensar 'não vou entrar, aí não é uma coisa para mim'. Nossa preocupação foi criar um ambiente que não fosse hostil a nenhuma pessoa, desde um analfabeto até um professor universitário", diz Ferraz.

A transparência do museu atrai a curiosidade. A ausência de muros instiga as pessoas a descobrirem que cozinha é aquela, que filme está passando no auditório, o que há na bodega do moinho restaurado. O fato de o piso do museu ser uma extensão da calçada e manter a mesma quota de nível nos demais volumes, de o terreno não ser cercado e de ter um gramado convidativo estimula as pessoas a fruírem o espaço.

O porão aberto sob o moinho tem um pé-direito máximo de 2,2 m. Ao lado do gramado, ele forma uma área propícia para atividades como aulas ao ar livre. O auditório do museu, para 35 pessoas, já recebeu cópias de vários filmes, entre eles os maiores clássicos neo-realistas italianos. Deve se tornar o cinema da cidade, numa região cujo maior município, Arvorezinha, tem pouco mais de dez mil habitantes. A oficina-escola deve estar ligada à Universidade de Caxias do Sul e à Univates (universidade mantida pela Fuvates – Fundação Vale do Taquari de Educação e Desenvolvimento Social) para cursos universitários, infantis ou para cursos livres. "O futuro disso está em ser bem administrado. A gente espera que a Associação leve adiante com um programa bem diverso", espera Ferraz.

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FÓRUM FATO & OPINIÃO Lista de Fóruns Enviar Tema
Fernanda Miranda [04/04/2008 09:30]Mensagem imprópria? Clique aqui

Os autores do projeto me passaram o detalhe da interface entre os capitéis de madeira e a laje de concreto. Se alguém se interessar pode me enviar um email que retorno com o desenho. arquitetura@brsuper.com.br
Fernanda Miranda [26/03/2008 21:15]Mensagem imprópria? Clique aqui

Incrível realmente, excelente projeto, a leitura e interpretação do sítio, terreno e principalmente do tema. Soma-se a tudo isso a também excelente solução estrutural e espacial. Gostaria de saber detalhes da interface entre os capiteis de madeira com a laje de concreto, surpreendente, se alguém souber ou tiver algum detalhe e puder me enviar por email agradeceria bastante. arquitetura@brsuper.com.br amaralarquiteto@pop.com.br Muito obrigado!!!
João Henrique Rôvari [18/03/2008 07:46]Mensagem imprópria? Clique aqui

Olá , Parabéns essa casa fico realmente incrivél ! Sds. Rôvari / OC - Futuro Arquiteto e Urbanista
 
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