Ilópolis pode não ser a maior cidade do Vale do Taquari,
no Rio Grande do Sul. Na verdade, é bem pequena, com apenas 4,5
mil habitantes. No entanto, foi a partir de lá que se deu o primeiro
grande passo para estabelecer, nessa antiga região de colonos italianos,
a rota turística e cultural à qual se chamou Caminho dos
Moinhos. A partir de um levantamento minucioso conduzido pelo Iphan e
pela Universidade de Caxias do Sul, Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz
restauraram o Moinho Colognese, no Centro da cidade, e projetaram dois
volumes de concreto com programas diferentes: o leve e transparente Museu
do Pão e a grave e isolada Oficina de Panificação.
Esse foi apenas o primeiro passo para o estabelecimento do novo roteiro.
Para dar vida ao Caminho dos Moinhos, é necessário o desenvolvimento
de atividades de apoio que atraiam visitantes. A restauração
do Moinho Colognese focou no caráter documental da construção,
com alterações pontuais. Manteve-se o maquinário
de madeira original, embora com uma produção pequena, demonstrativa
para grupos de cerca de dez visitantes. Com essa mudança da produção,
o espaço adjacente que servia de depósito de sacos ficou
ocioso. A solução foi transformá-lo numa combinação
de bodega, padaria e café, que deve dar vida ao edifício
e integrá-lo à comunidade. Na parede que separa os dois
ambientes, atrás do balcão da bodega, instalou-se um amplo
vidro, através do qual se vêem as máquinas em funcionamento.
Dois novos volumes dão conta dos programas adicionais –
o Museu do Pão e a Oficina de Panificação. Com uma
escala respeitosa, eles não se impõem nem se anulam diante
do moinho. Embora se identifiquem no uso de concreto aparente, os dois
blocos exploram idéias opostas. O espaço expositivo é
completamente transparente, fechado com panos de vidro e protegido da
incidência solar por painéis de madeira corrediços
externos. Assim como o moinho, o museu flutua sobre palafitas conforme
o terreno segue em seu leve declive. Sua cobertura, que se afina conforme
se aproxima das bordas, também flutua sobre três pilastras
com delgados capitéis de madeira.
Por sua vez, o programa da oficina, que inclui uma cozinha-escola e banheiros,
exige mais privacidade. Foi abrigado, portanto, em um bloco monolítico,
impermeável, contundentemente cravado no terreno de brejo. À
noite, com as aberturas quadradas do subsolo iluminadas, parece um navio
encalhado na areia.
Boas soluções térmicas e de ventilação
natural foram criadas para essa cozinha, que não pode receber ar-condicionado.
A cobertura, ocupada por uma laje-jardim isolante sustentada por vigas
transversais, não encontra as paredes longitudinais do prédio,
formando, assim, dois longos vãos fechados por janelas basculantes
por onde entra luz e se dissipa o ar quente. O ar frio, por sua vez, vem
do úmido porão através de aberturas no piso.
Por coincidência, a tipologia das casas dos imigrantes italianos
também traz dois volumes: o da cozinha, mais pesado, de pedra,
onde é feito o fogo, e outro que é a casa propriamente dita,
feito de madeira. "Quando o projeto já estava em obras, fui
buscar umas imagens de arquitetura colonial da imigração
italiana no Sul num livro do professor (Pietro Maria) Bardi e vi aquelas
casas, com passadiço muito leve, de madeira, agarrado numa construção
de pedra", comenta Ferraz. Essas casas tradicionais ainda podem ser
vistas em Ilópolis.
Desde o momento em que o visitante deixa a calçada e entra no
museu, até tomar um copo de vinho e comer pão na bodega
do moinho, vai caminhar sempre no mesmo nível, apesar da declividade
do terreno. Os dois volumes e o moinho mantêm a mesma quota de nível
e são ligados por leves passadiços de madeira. Os passadiços,
por sua vez, estendem-se contornando a oficina em suas faces sudoeste
e noroeste. Assim, conectam o museu ao moinho sem que seja necessário
entrar na oficina, que exige privacidade. Com o declive do terreno, essa
passarela torna-se um "mirante" de onde se avista o córrego
que passa na porção mais baixa do lote. Fanucci e Ferraz
ainda canalizaram em duas canaletas ao longo do perímetro do terreno,
até o córrego, o grosso fio d'água que nasce debaixo
do moinho. Assim, um muro tornou-se desnecessário.
Apropriando-se do espaço
Trabalhar em uma comunidade pequena e conseguir que ela tomasse o projeto
para si foi um dos desafios da dupla Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci,
da Brasil Arquitetura. "Há projetos que inibem o visitante,
que o faz pensar 'não vou entrar, aí não é
uma coisa para mim'. Nossa preocupação foi criar um ambiente
que não fosse hostil a nenhuma pessoa, desde um analfabeto até
um professor universitário", diz Ferraz.
A transparência do museu atrai a curiosidade. A ausência
de muros instiga as pessoas a descobrirem que cozinha é aquela,
que filme está passando no auditório, o que há na
bodega do moinho restaurado. O fato de o piso do museu ser uma extensão
da calçada e manter a mesma quota de nível nos demais volumes,
de o terreno não ser cercado e de ter um gramado convidativo estimula
as pessoas a fruírem o espaço.
O porão aberto sob o moinho tem um pé-direito máximo
de 2,2 m. Ao lado do gramado, ele forma uma área propícia
para atividades como aulas ao ar livre. O auditório do museu, para
35 pessoas, já recebeu cópias de vários filmes, entre
eles os maiores clássicos neo-realistas italianos. Deve se tornar
o cinema da cidade, numa região cujo maior município, Arvorezinha,
tem pouco mais de dez mil habitantes. A oficina-escola deve estar ligada
à Universidade de Caxias do Sul e à Univates (universidade
mantida pela Fuvates – Fundação Vale do Taquari de
Educação e Desenvolvimento Social) para cursos universitários,
infantis ou para cursos livres. "O futuro disso está em ser
bem administrado. A gente espera que a Associação leve adiante
com um programa bem diverso", espera Ferraz.
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