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Edição 168 | Março/2008
Brasil
A celebração da madeira Restauro de um moinho e instalação de um museu contam a história da imigração italiana para o sul do Brasil. a transparência proposital da área de exposição aguça a curiosidade do público, que é estimulado a conhecer as instalações pela fluidez de comunicação entre os edifícios
Os arquitetos, de fato, têm mais planos para o Caminho dos Moinhos.
Estagiários e voluntários estão fazendo levantamentos
em cinco outros moinhos, que devem ser restaurados e receber estrutura
de apoio para a exploração de seus potenciais turísticos.
"Vamos projetar uma pousadinha para os moleiros terem um rendimento,
um restaurante, recuperar o que está quase caindo, botar o moinho
para funcionar", diz Ferraz.
Entre tradição e invenção, entre museografia
e arquitetura, a madeira deve continuar a ser celebrada, saindo da prancha
para a vida das pessoas.
CONTRA A MIMESE BARATA
A arquitetura de Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz
é dialética, de sucessivas sínteses, de movimento
entre tradição e invenção. Isso é
marcante não apenas em seu repertório de recuperação
de edifícios e ampliação para novos usos, caso
do Museu Rodin de Salvador, premiado pela 7ª Bienal Internacional
de Arquitetura de São Paulo. Essa dialética também
dá base a projetos relacionados aos movimentos migratórios
que compuseram a complexa e dinâmica matriz étnica
brasileira, como o Museu Judaico do Templo Beth-El, a reforma do
Museu Afro Brasil e o conjunto KKKK.
Feito o levantamento de restauração do Moinho Colognese,
o primeiro passo ao projetar o museu e a escola de padeiros foi
fugir de criar um filhote do moinho. Replicar o passado no presente
não seria sincero. Seria transformar o passado no que Roland
Barthes caracteriza como mito – ou seja, naturalizar, eternizar
e reproduzir por meio de uma forma algo que, na verdade, é
circunstancial, histórico.
Tal como fazem os parques temáticos, a publicidade e o "estilo".
Para a dupla, a cultura brasileira é resultado dessa dialética
constante entre tradição e invenção.
Em vez de desfigurar o presente imitando o passado, criou-se um
ponto de observação contemporâneo para ver em
retrospectiva o histórico.
Os caminhos dessa invenção foram definidos num grau
sutil, contudo profundo, de mimese. "O projeto está
mais espiritualmente mimetizado do que formalmente", diz Ferraz.
"A melhor definição para nós foi a do
(Álvaro) Sisa. Ele viu o projeto todo, as fotos, e, no final,
falou assim 'esse projeto é a celebração da
madeira'".
Ferraz ficou até assustado quando ouviu isso, afinal, trata-se
de um projeto de concreto. Mas, ao servir de fôrma, a tábua
de araucária deixou seus veios impressos no concreto. Com
a ação do tempo, a madeira ficará cinza como
o concreto, a ponto de os painéis corrediços externos
que servem de brise no museu confundirem-se com a parede do pequeno
auditório.
O elogio à madeira foi concluído pelos capitéis
das colunas do museu, ao realizarem uma transição
do concreto para a madeira e, novamente, da madeira para o concreto.
"A intromissão de um material no meio de outro conferiu
um corte, uma leveza, como se o pilar parasse e a laje flutuasse",
comenta Fanucci. Álvaro Sisa realmente matou a charada.
Outro diálogo estabelecido por Fanucci e Ferraz foi entre
arquitetura e museografia. As duas nascem juntas, com a escolha
por materiais da região, referências da cultura imigrante
e soluções técnicas consagradas. Com sua transparência
radical, o museu trouxe para si o antigo moinho de araucária
e seu entorno como parte da museografia.
THE CELEBRATION OF WOOD
Starting with a survey conducted by Iphan (Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional) and by the Universidade
de Caxias do Sul, architects Francisco Fanucci and Marcelo Ferraz, from
the Brasil Arquitetura practice, restored the Moinho Colognese (Colognese
Mill), located in the Ilópolis, RS, downtown area. Besides the
restoration, the architects designed two concrete volumes with different
programs: the light and transparent Bread Museum and the sober and isolated
Bakery Workshop. This was the first step in establishing a new tourism
and cultural route, named Caminho dos Moinhos (Mills Road).
Even though they identify themselves in the
use of apparent concrete, the two new blocks explore opposing ideas.
The museum is transparent, glazed structure protected from sunlight
by external sliding wood panels. Meanwhile, the workshop program, which
includes a kitchen-school and bathrooms, requires more privacy and was,
therefore, sheltered in a monolithic and impermeable block.
The first step in designing the museum and the
baking school was to avoid creating a smaller mill: instead of disfiguring
the present and imitating the past, a contemporaneous point of view
was created so as to look at the historical in retrospective. "The
project is spiritually, rather than formally, mimicked", says Ferraz.
"The best definition for us was Sisa's (Álvaro). He saw
the complete project, the pictures, and, in the end, stated 'this project
is a celebration of wood'".
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