Testemunha do nascimento do que se convencionou chamar de Escola Paulista,
Fábio Penteado foi parte integrante e ativa de um grupo de arquitetos
que buscava modernidade e novos ares em meio ao provincianismo da São
Paulo da década de 1950. Recém-formado pelo Instituto Mackenzie,
em 1954, passou a conviver, num mítico IAB, com grandes nomes da
arquitetura nacional, entre eles Icaro de Castro Mello, Eduardo Kneese
de Mello, Rino Levi, Paulo Mendes da Rocha e, em especial, Vilanova Artigas,
do qual foi parceiro de trabalho e grande amigo.
Dessa convivência nasceram oportunidades que o levaram a muitas
direções dentro do recente e intenso mundo da arquitetura
daquela época. Durante seis anos, Penteado foi editor de um caderno
de arquitetura dentro da revista Visão, para o qual escreveu cerca
de 150 artigos com a isenção necessária a um profissional
que fala de outro, "arquiteto não pode ser crítico
da arquitetura", costuma afirmar. Além do trabalho jornalístico,
Penteado volta ao Mackenzie dessa vez como professor, docência que
exerceu de 1961 a 1964, quando foi sumariamente "demitido" em
1964, por ocasião do golpe militar.
Em meio a tantas atividades paralelas, sua jornada dentro da profissão
desenvolve-se de maneira coerente ao seu pensamento de liberdade criativa
e uso apropriado dos materiais, assim como pregava seu mestre Artigas.
Participou de inúmeros concursos nacionais e internacionais, que
considera "a forma mais democrática de contratação,
além de possibilitar maior liberdade na relação arquiteto-cliente".
Logo no primeiro ano de formado, Fábio Penteado recebe o Prêmio
Governador do Estado pelo projeto da Estação de Tratamento
de Água do ABC (1954), feito em parceria com Ringo Kubota, e segue
com propostas em que preserva a movimentação do indivíduo
dentro do espírito coletivo da cidade. Participa de concursos com
parceiros fiéis como Alfredo Paesani, Teru Tamaki, José
Ribeiro, César Sampedro, Ubirajara Giglioli e Vilanova Artigas.
Foi em grupo que propôs planos em grande escala como as reurbanizações
do Novo Centro de São Paulo e dos Souks de Beirute, projetos de
parques e novos eixos urbanos, conjuntos habitacionais como o Parque Cecap
em Guarulhos, edifícios como a megatorre do Vale do Anhangabaú
e o Hospital-Escola Júlio de Mesquita Filho, destinado a ser a
Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Em paralelo ao crescimento de seu trabalho na prancheta, cresce também
uma militância que o levou a ser eleito presidente do IAB Nacional
no biênio 66/68, em que promoveu uma maior participação
de arquitetos de todos os estados, dissolvendo a forte política
centralizadora do eixo Rio-São Paulo. Sua participação
em defesa da classe continuou e o levou a ser membro atuante da União
Internacional de Arquitetos e a ser presidente da 2a Bienal Internacional
de Arquitetura, em 1993, e diretor da Fundação Bienal até
1995. Seus projetos, parcerias e amigos encontram-se sempre presentes
em sua sala do sexto andar do prédio do IAB, a mesma desde 1956.
Em entrevista a AU, Penteado conta uma parte de toda essa história
que compõe a própria história da arquitetura de São
Paulo.
aU A ESCOLA PAULISTA EXISTIU DE FATO COMO MOVIMENTO DE UMA GERAÇÃO
DE ARQUITETOS PAULISTANOS, OU SE RESTRINGIU A POUCOS REALIZADORES, COMO
ARTIGAS E SUA ARQUITETURA CHEIA DE MODERNIDADE E TECNOLOGIA?
FÁBIO PENTEADO Alguns projetos de (Vilanova) Artigas do
início da década de 1960 amarraram tão bem arte e
tecnologia que o resultado foi surpreendente. Esses projetos despertaram
seguidores em uma época em que a arquitetura estava no auge, com
espaço diário na mídia. Mas não foi um processo
nascido genuinamente em São Paulo. Arquitetos cariocas como Sergio
Bernardes, Jorge Moreira e principalmente Affonso Eduardo Reidy contribuíram
decisivamente para as idéias paulistanas, e desse encontro nasceram
conceitos que influenciaram gerações de profissionais, mesmo
que na época, início da década de 1960, não
tivessem efetivamente representado o pensamento da maioria dos arquitetos
da cidade.
aU O SENHOR COSTUMA AFIRMAR QUE SÃO PAULO, EM COMPARAÇÃO
COM O RIO DE JANEIRO, SEMPRE FOI CARENTE DE ESPAÇOS PÚBLICOS
REPRESENTATIVOS. O RIO FOI CAPITAL DO PAÍS DURANTE UM BOM TEMPO.
SÃO PAULO NÃO SE INFLUENCIOU PELO DESENVOLVIMENTO DA ARQUITETURA
NA CAPITAL?
PENTEADO Em relação ao restante do mundo, o Brasil
nunca teve um histórico muito brilhante, mas tinha sempre o Rio
de Janeiro, a casa do rei. Com ele vieram a biblioteca e uma porção
de coisas de Portugal, pois aqui não tinha nada. Quando o Rio se
tornou capital, construíram-se ali alguns edifícios, mas
o marco mais importante da arquitetura foi o Ministério da Educação
e Saúde (projeto de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, com colaboração
de Le Corbusier), construído a partir de 1936. O mais interessante
é que não houve repercussão desse projeto nem em
São Paulo e nem no Rio: ao lado do MES foi construído o
Ministério da Fazenda, de uma arquitetura horrorosa. Mesmo com
o impacto cultural da semana de 22, anos antes, São Paulo efetivamente
teve pouca mudança na arquitetura. Se mexesse na arquitetura tinha
que mexer em tudo, então a modernidade era muito temida. São
Paulo era caipira, essa era a mentalidade da elite. No entanto, quando
a capital mudou para Brasília, o Rio ficou a zero e sua arquitetura
ficou congelada.
aU QUANDO SÃO PAULO DESPERTOU PARA A ARQUITETURA?
PENTEADO Nos pós-guerra, o maior esforço dos profissionais
não era a difusão de uma nova ordem cultural, mas, sim,
vender papel, vender projeto. A coisa só começou a mudar
em São Paulo por força do plano de ação do
então governador Carvalho Pinto (1959/1963), que contratou mais
de 400 projetos em uma época quando, por incrível que pareça,
ninguém nunca tinha ouvido falar em obra pública. Esse plano
gerou uma massa de projetos que, com todos os problemas e dificuldades,
saíram do papel. Um pouco antes, em 1954, na ocasião do
quarto centenário da cidade, foi projetado o Complexo do Ibirapuera,
uma obra fantástica e de grande porte, mas que ninguém sabia
ao certo para o que servia. Quem pedisse ganhava um espaço. Foi
assim com a sede do exército, com a Assembléia Legislativa,
com o Detran e com alguns outros prédios que ninguém sabia
como ocupar, como toda obra pública paulistana. Veja só,
a sede do governo foi em tudo quanto é lugar, assim como a prefeitura.
São Paulo nunca teve uma visão de espaço público
representativo e que marcasse culturalmente uma época.
aU MESMO COM ESSA FALTA DE PLANEJAMENTO E UNIDADE, DEPOIS DO
PLANO DO GOVERNADOR CARVALHO PINTO A ARQUITETURA DE SÃO PAULO PÔDE,
ENFIM, MOSTRAR SUA CARA?
PENTEADO Com o advento de Brasília, o plano de ação
do Carvalho Pinto pendeu para a aceitação de uma linha de
arquitetura modernista. Assim, depois de Brasília, começou
em São Paulo a história do concreto aparente, que virou
moda. Nos concursos públicos o concreto era um dogma. Se o projeto
não tivesse concreto aparente era descartado na certa. Em um certo
momento, até a dificuldade de se fazer um concreto aparente bem-feito
teve um efeito extraordinário, pois quando a superfície
saía malfeita, virava brutalismo. Mas a verdade é que muitas
vezes se fazia uma estrutura cheia de buracos, com má qualidade,
resultado de um jeito caipira de entender o material e suas potencialidades.
E muita gente reagia mal, não entendia, criticava – de certa
maneira, com razão.
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