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| A história de Fábio Penteado se confunde
com a história da arquitetura paulista nos últimos 50
anos. Formado pelo Mackenzie em 1954, já lecionou, escreveu
sobre arquitetura e a praticou -- como na Estação de
Tratamento de Água de São Bernardo do Campo (à
esquerda), na Sociedade Harmonia de Tênis, em São Paulo
(centro) e no hotel Praia de Peró, em Cabo Frio (à direita) |
aU ALGUNS ANOS ANTES DO ADVENTO DE BRASÍLIA, O SENHOR
SE FORMAVA NO INSTITUTO MACKENZIE, EM SÃO PAULO, NO FIM DE 1953.
COMO AVALIA SEUS ANOS DE APRENDIZADO DE ARQUITETURA?
PENTEADO Na época só havia duas escolas de arquitetura
em São Paulo, e seis no Brasil todo. O Mackenzie tinha uma forma
de ser bem específica. O conceito era tão amarrado que era
proibido falar de Oscar Niemeyer e Le Corbusier, considerados comunistas.
Na FAUUSP, a cem metros dali, os professores já discutiam normalmente
sobre modernidade e suas implicações na arquitetura, mas
o diretor do Mackenzie, Cristiano Stockler das Neves, que representava
toda a maneira de pensar das pessoas que realmente mandavam em São
Paulo e na sua cultura, não aceitava novidades. No entanto, havia
um grupo de pessoas do Mackenzie que queria entrar em uma nova onda, conhecer
o modernismo. Faziam parte dele o Jorge Wilhein, o Carlos Millan, o Telésforo
Cristofano, o Paulo Mendes (da Rocha), o Pedro Paulo (de Melo Saraiva).
Nós formamos uma sala de discussão em pleno Mackenzie e
começamos a discutir novos conceitos a partir de informações
do próprio grupo. Em 1954, recém-formado, eu já tinha
montado escritório e contabilizava três projetos construídos.
Nossa pequena sala de discussão passou para o IAB, onde se encontravam,
em 1956, Icaro de Castro Mello, Eduardo Kneese de Mello e o Artigas. O
arquiteto não se forma só na escola, e sim da vontade e
curiosidade de experimentar, conhecer, ler e viajar. Enfim, do conhecimento
renovado.
aU O SENHOR SEMPRE PARTICIPOU DE CONCURSOS E SEUS PROJETOS SÃO
FRUTO DE GRANDES PARCERIAS. DENTRE ELES, PODERIA ELEGER SEUS PROJETOS
MAIS EMBLEMÁTICOS?
PENTEADO Do começo de minha carreira destaco a Estação
de Tratamento de Água para o ABC (em São Paulo), que ganhou
o prêmio Governador do Estado no 3o Salão Paulista de Arte
Moderna, em 1954. Há o Hotel Praia de Peró, em Cabo Frio,
ambos em parceria com Ringo Kubota, e o Fórum de Araras, no interior
de São Paulo, já em 1960. Esses projetos foram decisivos
para a formação de meu ideal de arquitetura. A sede da sociedade
Harmonia de Tênis, projeto de 1964 em parceria com Teru Tamaki e
Alfredo Paesani, talvez seja um dos mais polêmicos, pois enfrentou
reações contrárias de grupos dentro do próprio
clube, mesmo tendo sido eleito em um concurso.
aU ALÉM DO TRABALHO COMO ARQUITETO, SUA TRAJETÓRIA
PROFISSIONAL TAMBÉM É MARCADA PELA ATUAÇÃO
COMO JORNALISTA DE ARQUITETURA. COMO TUDO COMEÇOU?
PENTEADO Logo que me formei, fui editor de arquitetura da revista
Visão, publicação muito importante na época.
Tudo começou quando o diretor da revista, Nahum Sirotsky, foi visitar
o IAB. Já tinha meu escritório no sexto andar do prédio
e, quando desci ao restaurante, encontrei o Artigas e me sentei na mesma
mesa onde o Sirotsky expunha seus planos de criar para a revista um caderno
de arquitetura forte e verdadeiro, até na publicidade. Bom, na
hora não pensei muito e disparei com a maior inocência que
um forro que a revista veiculava como incombustível já tinha
pegado fogo algumas vezes. Ele ficou meio irritado, mas à tarde
me ligou e me convidou para ser seu editor do caderno de arquitetura.
Bom, respondi na maior sinceridade que não entendia nada nem de
arquitetura nem de jornalismo. Escrevi cerca de 150 artigos, entre 1956
e 1962.
aU O SENHOR VOLTOU A SE LIGAR A UMA PUBLICAÇÃO
EM 1975, NA FORMAÇÃO DA REVISTA PROJETO...
PENTEADO O Vicente Wissenbach precisava de um diretor que fosse
jornalista e arquiteto para seu jornal Arquiteto. Quando me chamou para
a empreitada, perguntei sobre as perdas e ganhos do trabalho e ele me
respondeu que eu não ganharia nada e ainda poderia ser preso. Disse
sim na hora. No começo o jornal atrasava muito, porque estava atrelado
ao IAB, que não entendia muito de datas e prazos. Então
criamos um caderno dentro do jornal chamado Projeto, livre do controle
do IAB, que foi captando muitos anúncios até se transformar
em revista, da qual fui diretor.
aU O SENHOR TEVE OPORTUNIDADE DE FAZER UMA CRÍTICA DE
ARQUITETURA?
PENTEADO Nunca houve crítica de arquitetura em meus artigos.
O crítico de arquitetura existe, mas ele não pode ser arquiteto.
Em geral é um calhorda, como o crítico de arte. Uma revista
de arquitetura não tem por função ser didática.
O que pode fazer é apresentar projetos e, o quanto possível,
mostrar processos construtivos que interessem.
aU O SENHOR FOI PROFESSOR DO MACKENZIE DE 1961 A 1964. COMO AVALIA
O ATUAL ENSINO DE ARQUITETURA?
PENTEADO Não sei como avaliar, porque em grande parte
o ensino é uma atitude que faz parte de um mero negócio.
Ser professor hoje, com muito poucas exceções, não
é fruto de vocação, mas de uma maneira de aumentar
a renda. Percebi que em vários lugares a universidade pública
não é bem-vista, tem confusão e greve o ano inteiro.
Em particular em São Paulo, acho que a FAUUSP abre muito as disciplinas.
Você pode ser cantor, designer, tudo o que quiser. Fui professor
no Mackenzie e alguns de meus alunos também são professores.
Dessa experiência, avalio que não existe mistério
nem milagre: se na sua formação pessoal havia alguém
que falava de cultura e de arte, ótimo para você, mas quando
você se depara com a massa brasileira que não teve nenhum
contato anterior com nada, é um choque muito grande. O volume de
arquitetos que saem com condição de fazer arquitetura é
de 3 a 5% do total. Fazer arquitetura é muito difícil, mas
de tempos em tempos surgem grupos de novos arquitetos muito competentes.
aU FAZER ARQUITETURA PODE SER DIFÍCIL, MAS O ENSINO VISTO
COMO MERO NEGÓCIO MULTIPLICOU AS ESCOLAS DE ARQUITETURA NO BRASIL...
PENTEADO Por um lado é bom que em qualquer lugar do Brasil
já tenha quem faça maquetes, plantas de hidráulica,
de elétrica etc. Mas o que pretendem os estudantes? Para Vitruvio,
o arquiteto tinha que conhecer tudo, ou quase tudo: saúde, salubridade,
sustentabilidade e arquitetura. Hoje, com a especulação
imobiliária, deve-se projetar e construir o mais rápido
possível. O setor privado tem pouca preocupação com
obras que marquem época, culturalmente importantes. A maior preocupação
é com a parte econômica e prática. Felizmente ainda
vejo bons exemplos de arquitetos jovens com projetos de muita qualidade,
sérios, corretos e competentes.
aU QUE ARQUITETO ESTRANGEIRO MERECE DESTAQUE?
PENTEADO Norman Foster faz uma arquitetura que não teria
sentido no Brasil. É boa, mas aqui não tem sentido. Assim
como não faria sentido lá fora uma obra que pesa meia tonelada
por metro quadrado, como fazemos aqui. Estruturas leves não fazem
parte de nossa arquitetura. O espanhol Santiago Calatrava tem obras interessantíssimas.
Já este Álvaro Siza, por exemplo, não vejo grande
coisa nele.
aU SE O PODER PÚBLICO É UM DOS GRANDES RESPONSÁVEIS
PELA DIFUSÃO DA ARQUITETURA DE QUALIDADE EM UM PAÍS, E A
ESCOLA DE ARQUITETURA DEVE FORMAR DESENVOLVEDORES, COMO ENXERGA A ARQUITETURA
BRASILEIRA HOJE?
PENTEADO Em primeiro lugar, acabou-se o tempo em que o arquiteto
era um herói ousado, que fazia uma obra experimentando formas e
materiais. Isso é impossível para projetos públicos
de grande porte. O conhecimento está cada vez mais especializado
e fechado em poucos grupos poderosos. Além disso, não tem
havido grande volume de obras públicas no Brasil, obras que mostrem
o grau de desenvolvimento e dêem um norteamento para o país.
As poucas que existem são contratadas sem o projeto executivo,
feito pelas grandes construtoras. É o fim da fiscalização
e da conseqüente qualidade. É tudo montado e esquematizado
com ministros e desembargadores. A famigerada lei 8.666 facilita esse
esquema. Ela até poderia funcionar se houvesse uma exigência
de mais eficiência, qualidade e principalmente dignidade.
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