UNINDO UM HUMANISMO FILOSÓFICO A UM AMOR PELA VIDA NO CAMPO
E À TECNOLOGIA, WRIGHT CONSEGUIU CRIAR UMA NOVA EXPRESSÃO
ESTÉTICA PARA AS RESIDÊNCIAS norte-AMERICANAS, AS QUAIS
DOTOU DE LINHAS ALONGADAS, TELHADOS GRACIOSOS E EXCEPCIONAL INTEGRAÇÃO
COM O AMBIENTE NATURAL. DOMINANDO COMPLETAMENTE AS NOVAS TÉCNICAS
CONSTRUTIVAS DO CONCRETO E DO AÇO, O MAIOR ARQUITETO DOS ESTADOS
UNIDOS CRIOU ALGUNS DOS MAIS CÉLEBRES EDIFÍCIOS DA HISTÓRIA
DA ARQUITETURA MODERNA POR RODRIGO MARCONDES FERRAZ
Foi a mãe de Frank Lloyd Wright quem determinou a profissão
do mais importante arquiteto americano do século 20: desde que
o tinha no ventre, dizia que seu filho seria um grande arquiteto. O jovem
Frank cresceu rodeado de beleza natural, brincando com jogos educativos
de Friederich Froebel e com leituras de pensadores como Whitman, Thoreau
e Emerson, Lia Goethe, Shakespeare e vivia mergulhado em música
clássica, uma influência de seu pai, que tocava Bach no órgão
da igreja.
Quando viu que o crescente interesse do filho pelo desenho se tornava
o único, sua mãe decidiu enviá-lo para uma temporada
na fazenda de seu tio, onde viveu rodeado de agricultores, pastores, professores
e fazendeiros. Wright sempre se referiu a esses anos como os mais formativos
de sua vida. Foi quando desenvolveu o amor pela vida rural e aprendeu
a valorizar o ambiente natural na vida das pessoas.
Dois anos depois de se matricular na Universidade do Wisconsin, Wright
se muda para Chicago, em 1887, e, após um breve estágio
num escritório local, vai trabalhar com Adler e Sullivan. Sullivan
criou uma nova arquitetura para os Estados Unidos. Seus projetos não
seguiam mais os exemplos clássicos do passado, mas eram baseados
em princípios de engenharia e utilizavam novos materiais como as
estruturas metálicas e o concreto armado. Dessa maneira, Sullivan
deu uma expressão estética nunca antes vista para seus arranha-céus,
acentuando a sua verticalidade. Com importantes trabalhos e grandes encomendas,
os projetos residenciais do escritório ficavam a cargo do jovem
arquiteto Frank Lloyd Wright que, influenciado pelas idéias de
Sullivan e pela revolução industrial, criava uma nova arquitetura
para as residências, também só possível graças
aos novos métodos e materiais.
Os projetos residenciais predominaram na carreira de Wright, que acreditava
na família como o núcleo central e essencial de uma livre
democracia. Era sua missão criar um ambiente arquitetônico
que abrigasse, antes de tudo, a unidade familiar. Os primeiros anos da
carreira independente do arquiteto demonstram sua maturidade para criar
edifícios que mudaram a cara das residências norte-americanas.
Instalado em um subúrbio de Chicago conhecido como Oak Park, Wright
desenvolve a arquitetura que posteriormente viria a ser mundialmente conhecida
como "praire style". Nas casas da pradaria, o arquiteto busca
um desenho de linhas alongadas. Os telhados são graciosos e comportados,
os grandes embasamentos foram eliminados e longos e generosos blocos de
alvenaria abrigam as lareiras e deixam fluir o calor. Não havia
uma fórmula fechada, mas uma resposta individual para cada projeto.
Wright descreveu as idéias do praire style como sendo a destruição
da caixa na arquitetura. Os ambientes se ligam uns aos outros com a eliminação
das paredes desnecessárias e a luz e o ar podem entrar e circular
por generosos panos de vidro.
No projeto para o seu Oak Park Studio, num terreno comprado com dinheiro
emprestado por Sullivan, o desejo de criar espaços fluidos entre
os ambientes e o uso honesto dos materiais já são perceptíveis.
Vestíbulo, estar e jantar são agrupados. A madeira foi deixada
em sua cor e estado naturais e as paredes não são adornadas,
nem recebem papel de parede. O ponto focal do interior é a lareira,
o lugar em que a família se reúne e se aquece. As cadeiras
de espaldar alto, na sala de jantar, são um capítulo à
parte. Foram projetadas com o intuito de formar uma tela protetora para
a unidade familiar durante as refeições e se tornaram uma
marca registrada em seus projetos. Da luz natural é tirado o maior
proveito e recursos de iluminação artificial transformam
a casa à noite, num efeito que Wright chamava de moonlight.
Para Frederick Robie, o arquiteto projeta, em 1906, uma das mais interessantes
casas do primeiro período de sua carreira. O engenheiro Robie,
então presidente de uma fábrica de bicicletas, queria uma
casa à prova de incêndios, com espaços fluidos, de
concreto e aço e com amplas visuais protegidas por telhados com
grandes balanços. Robie queria ter a luz do sol pela manhã
e poder olhar os vizinhos que passavam pelas ruas, sem que estes atrapalhassem
sua privacidade. Queria uma casa com tudo o que a tecnologia de então
poderia lhe proporcionar.
Ao visitar vários arquitetos da região, Robie ouviu a mesma
resposta sempre: "eu sei o que o senhor quer: uma daquelas malditas
casas do Wright". Contratado, Wright proporcionou a Robie tudo isso
com formas elegantes que disfarçam as grandes dimensões
da residência. Foi a primeira casa dos Estados Unidos a contar com
três vagas de garagem cobertas, num período em que os poucos
carros ainda disputavam espaço nas ruas com as carroças.
Essa casa com térreo alto, grandes painéis de vidro, generosas
varandas e longos planos de telhado representou uma nova era para a arquitetura
residencial norte-americana. Por três vezes o arquiteto voltou pessoalmente
ao local para, com sucesso, impedir que a casa fosse demolida.
O primeiro edifício administrativo projetado por Wright que foi
efetivamente construído já demonstrava que algumas de suas
inovações nas residências também podiam ser
utilizadas nos locais de trabalho. O arquiteto contou aqui com o apoio
de um diretor da Larkin Company, um amigo que lhe proporcionou sete outros
projetos e que compartilhava das mesmas preocupações acerca
do novo edifício a ser projetado: os locais de trabalho deveriam
ser limpos, claros, ventilados e belos.
Devido à poluição do local, vizinho a uma ferrovia,
e à deterioração do entorno, Wright decide voltar
o edifício para si mesmo. O prédio se fecha para o exterior,
é iluminado por cima e o ar é insuflado de cima para baixo,
purificado e liberado no sentido contrário dentro do prédio,
limpo e na temperatura certa para aquecer os espaços no inverno
e resfriá-los no verão.
O grande átrio central para o qual se voltam os seis pavimentos
é a única área mecanicamente climatizada. A fluidez
espacial faz com que o restante do edifício se climatize naturalmente.
Outras inovações são o uso de mobiliário de
ferro, os pisos cimentícios, o ar-condicionado. Nas questões
programáticas, um restaurante no último piso, uma biblioteca
aberta para uso externo, uma enfermaria, lounges e salas de aula (os funcionários
eram encorajados a fazer cursos diversos) demonstram a importância
do edifício para a arquitetura e para a história das empresas
norte-americanas.
Em 1909, Wright abandona a mulher e os filhos em Oak Park, fecha seu
escritório e vai a Berlim em busca de desafios. Quando retorna
aos Estados Unidos, fixa-se em Chicago e inicia os primeiros estudos para
uma nova casa para sua mãe, no Wisconsin, o mesmo local onde crescera.
Percebendo a necessidade do filho por uma vida diferente, a mãe
deixa a casa para Wrigth. O arquiteto projeta acréscimos e transforma
a casa em um grande complexo de residência, estúdio e fazenda,
ao qual denominou Taliesin, palavra gaulesa que significa cume brilhante,
referência ao local em que está implantada.
Wright transformou esse local num mundo auto-suficiente voltado para
a arquitetura, a arte e a agricultura. É o primeiro projeto de
Wright num ambiente rural e ele tira total partido desse envoltório
natural em cada estação do ano. É o projeto de uma
nova fase em sua carreira.
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