Asede do IAB de São Paulo era o grande centro de cultura arquitetônica
e debate profissional da cidade quando me formei. Todos jovens íamos
tietar os grandes da profissão, que dirigiam o Instituto e a quem
tínhamos total acesso. O prestígio da arquitetura brasileira
na época conferia ainda maior imagem ao Instituto, mesmo que os
grandes nomes estivessem no Rio de Janeiro, que acabava de deixar de ser
a capital oficial, mas era e ainda é a imagem do País.
Passaram-se décadas, ditaduras, democraduras, mulheres e políticos
de vida fácil. A região se deteriorou e o IAB-SP perdeu
parte do seu prestígio (até pela localização),
mas também pelo seu afastamento dos temas da profissão.
Foi fundado, dirigido e impulsionado pelo que se chamava "arquitetos
de prancheta", o que era natural, porque, no início, a arquitetura
era uma profissão liberal e não libertina.
A sociedade mudou, surgiram milhares de arquitetos, em centenas de localidades
e realizando dezenas de atividades que não a de projetar. Tem havido
uma natural dificuldade de adaptação da entidade a essa
miríade de profissões arquitetônicas, todas corretas
e necessárias, porém diversas da base inicial do IAB. Além
disso, em um país enorme, há a dificuldade de atingir as
centenas de municípios onde há arquitetos atuantes em qualquer
área. Com o seu monumental orçamento, extraído de
quem trabalha, o Confea incentiva e coopta as associações
de engenheiros e arquitetos, dificultando ainda mais o desenvolvimento
independente da profissão, espelhado pelo IAB.
Sinto-me com alguma dificuldade de criticar nosso órgão
de classe. Para fazê-lo com propriedade teria de participar novamente
do seu dia-a-dia, e escolhi trabalhar pela categoria na AsBEA e no Sinaenco.
Mas me atinge uma tristeza enorme ao ver a desagregação
atual do IAB. O Instituto foi, ainda é, e deverá sempre
ser o órgão de todos os arquitetos, de todos nós.
Não merece a situação atual, de tantos nós.
O lamentável nó da última eleição
em São Paulo, sempre com os "dirty tricks" que a democracia
permite, lembra os debates-barraco Obama Bin Laden x Hillary Clintoris.
Mas a força da marca IAB ao longo do tempo superará esses
incidentes de percurso, que existem em eleições de qualquer
entidade profissional. Para isso é necessário enxergar que
a posição e o fortalecimento do nosso Instituto estão
acima de quaisquer vaidades pessoais, por mais sincera que seja a intenção
dos que pretendem dirigi-lo.
Infinitamente mais grave foi o veto à criação do
nosso conselho, assinado pela vanguarda do retardo e que condenará
a mais anos de atraso o nosso desenvolvimento e independência como
profissão – essa sim de vanguarda técnica e cultural
da nação, vergonhosamente explorada economicamente, um pouco
pela iniciativa privada e muito pelos próprios colegas de órgãos
governamentais, que fixam os seus preços de serviços e leis
de concorrência.
Surpreendo-me também pela omissão ou emcimadomurossão
do Sinaenco, órgão que criei junto com colegas na área
de arquitetura, e que deixou de lado o nosso futuro conselho. Ficamos
sós diante das feras, tendo que enfrentar, como a história
os chamou, as Raposas do Deserto, as Águias de Haia, os Leões
de Judá, os Lobos dos Estepes, os Chacais do Congresso ou os Jiricos
do Agreste.
Uma classe desunida que, por uma vez, aparentemente se uniu, infelizmente
cantou derrota antes do tempo. Mais uma vez confiamos em políticos.
Pior ainda, com a inocente imagem a nós vendida de que, apesar
dos mensalões da vida et caterva, os políticos do PT seriam
mais confiáveis, honestos e moralmente inatacáveis... Não
acredito que o presidente do País soubesse o que estava vetando.
A presidência declarou que não somos uma república
de bananas. Só de bananas, não. Somos uma república
de bananas e laranjas. O culto à ignorância não permite
distinguir a importância da arquitetura na sociedade, na cultura
e economia do País. Agricultura, arquitetura, floricultura, cultura,
é tudo a mesma coisa inútil.
Um exemplo da floricultura é plantar no jardim tombado do Palácio
da Alvorada, projetado pelo maior paisagista de todos, Roberto Burle Marx,
uma estrelinha vermelha que ficaria muito engraçadinha no fundo
do quintal de uma casinha em São Bernardo do Campo. Mas, onde foi
feita, parece mais coisa de regimes autoritários.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>