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Crônicas Agudas


Ensaio sobre a cegueira
BRAZILLAND? NO, BRASILSTAN!

Por Sergio Teperman



Asede do IAB de São Paulo era o grande centro de cultura arquitetônica e debate profissional da cidade quando me formei. Todos jovens íamos tietar os grandes da profissão, que dirigiam o Instituto e a quem tínhamos total acesso. O prestígio da arquitetura brasileira na época conferia ainda maior imagem ao Instituto, mesmo que os grandes nomes estivessem no Rio de Janeiro, que acabava de deixar de ser a capital oficial, mas era e ainda é a imagem do País.

Passaram-se décadas, ditaduras, democraduras, mulheres e políticos de vida fácil. A região se deteriorou e o IAB-SP perdeu parte do seu prestígio (até pela localização), mas também pelo seu afastamento dos temas da profissão. Foi fundado, dirigido e impulsionado pelo que se chamava "arquitetos de prancheta", o que era natural, porque, no início, a arquitetura era uma profissão liberal e não libertina.

A sociedade mudou, surgiram milhares de arquitetos, em centenas de localidades e realizando dezenas de atividades que não a de projetar. Tem havido uma natural dificuldade de adaptação da entidade a essa miríade de profissões arquitetônicas, todas corretas e necessárias, porém diversas da base inicial do IAB. Além disso, em um país enorme, há a dificuldade de atingir as centenas de municípios onde há arquitetos atuantes em qualquer área. Com o seu monumental orçamento, extraído de quem trabalha, o Confea incentiva e coopta as associações de engenheiros e arquitetos, dificultando ainda mais o desenvolvimento independente da profissão, espelhado pelo IAB.

Sinto-me com alguma dificuldade de criticar nosso órgão de classe. Para fazê-lo com propriedade teria de participar novamente do seu dia-a-dia, e escolhi trabalhar pela categoria na AsBEA e no Sinaenco. Mas me atinge uma tristeza enorme ao ver a desagregação atual do IAB. O Instituto foi, ainda é, e deverá sempre ser o órgão de todos os arquitetos, de todos nós. Não merece a situação atual, de tantos nós.

O lamentável nó da última eleição em São Paulo, sempre com os "dirty tricks" que a democracia permite, lembra os debates-barraco Obama Bin Laden x Hillary Clintoris. Mas a força da marca IAB ao longo do tempo superará esses incidentes de percurso, que existem em eleições de qualquer entidade profissional. Para isso é necessário enxergar que a posição e o fortalecimento do nosso Instituto estão acima de quaisquer vaidades pessoais, por mais sincera que seja a intenção dos que pretendem dirigi-lo.

Infinitamente mais grave foi o veto à criação do nosso conselho, assinado pela vanguarda do retardo e que condenará a mais anos de atraso o nosso desenvolvimento e independência como profissão – essa sim de vanguarda técnica e cultural da nação, vergonhosamente explorada economicamente, um pouco pela iniciativa privada e muito pelos próprios colegas de órgãos governamentais, que fixam os seus preços de serviços e leis de concorrência.

Surpreendo-me também pela omissão ou emcimadomurossão do Sinaenco, órgão que criei junto com colegas na área de arquitetura, e que deixou de lado o nosso futuro conselho. Ficamos sós diante das feras, tendo que enfrentar, como a história os chamou, as Raposas do Deserto, as Águias de Haia, os Leões de Judá, os Lobos dos Estepes, os Chacais do Congresso ou os Jiricos do Agreste.

Uma classe desunida que, por uma vez, aparentemente se uniu, infelizmente cantou derrota antes do tempo. Mais uma vez confiamos em políticos. Pior ainda, com a inocente imagem a nós vendida de que, apesar dos mensalões da vida et caterva, os políticos do PT seriam mais confiáveis, honestos e moralmente inatacáveis... Não acredito que o presidente do País soubesse o que estava vetando.

A presidência declarou que não somos uma república de bananas. Só de bananas, não. Somos uma república de bananas e laranjas. O culto à ignorância não permite distinguir a importância da arquitetura na sociedade, na cultura e economia do País. Agricultura, arquitetura, floricultura, cultura, é tudo a mesma coisa inútil.

Um exemplo da floricultura é plantar no jardim tombado do Palácio da Alvorada, projetado pelo maior paisagista de todos, Roberto Burle Marx, uma estrelinha vermelha que ficaria muito engraçadinha no fundo do quintal de uma casinha em São Bernardo do Campo. Mas, onde foi feita, parece mais coisa de regimes autoritários.

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