É até possível imaginar que, com as pressões
de quem não quer largar o osso, tenha sido combinado que o projeto
seria aprovado no congresso e o presidente o vetaria depois. Macchiavelli
podia entender muitíssimo de política e do ser humano, mas
de gatunocracia ninguém bate os nossos políticos. E isso
feito às escondidas no dia 31 de dezembro.
Surpreendeu a muitos o fato de que há um grupo não tão
significativo, porém politicamente importante, de arquitetos que
preferem o Confea, seja por vantagens, posição, acomodação
ou até por princípio, ainda que errado. Unanimidade mesmo
só entre os "arquitetos de prancheta", que sentem na
pele, na carne, no cérebro e no bolso o que a ordem atual lhes
impõe.
A nossa ingenuidade chegou a ponto de imaginar que o presidente iria
assinar a carta de alforria no dia do aniversário do grande Oscar
Niemeyer, o maior representante do nosso melhor patrimônio cultural,
a arquitetura brasileira, mesmo que atualmente defasada. Que ilusão!
A ironia é que nosso mais importante arquiteto, assim como muitos
outros colegas, é um entusiasmado e generoso eleitor do partido
do presidente! Como, tenho que confessar, eu também teria sido.
Há 50 anos.
Este artigo pode ser até mais forte do que as minhas críticas
usuais e meu jeito de ser. Mas não há outra forma de expressar
o que, muito mais do que decepção é uma revolta por
ver um admirador da cegueira reerguer os obstáculos que havíamos
ultrapassado. E o pior cego é o que não quer ver, como o
autor do Ensaio sobre a cegueira.
Talvez eu devesse lembrar do maior filósofo de todos os tempos,
o famoso Murphy da Samotrácia e a sua frase, "De quem não
se espera nada, é que não sai nada mesmo". Ou o brilhante
Sr. Mangabeira Sealopra, que declarou, "este é o governo mais
corrupto da história deste país", e depois, oba, foi
fazer parte dele!. Bem que poderia criar uma lei de cotas nas universidades
com créditos prefixados para políticos ignorantes, com direito
a uso de cartão de descrédito.
Em resumo caros colegas, outra vez, Crau! (Conselho Regional de Arquitetura
e Urbanismo), ou melhor crawl – nadando e nos arrastando, fomos
morrer na praia. E aqui vai o que publiquei em PS de um artigo aqui em
AU, em outubro de 1994:
P.S.: Fora do assunto, mas importante: as associações
de medicina, de direito e até de arquitetura têm nas suas
sedes quadros e fotos de profissionais que muito fizeram pela classe,
como Eduardo Kneese de Melo, Mindlin, irmãos Roberto, por exemplo.
Sugiro que a partir de agora tenham também umas lápides
negras, com letras de cor marrom, do tom usado dentro das latinhas que
se enviam aos laboratórios de análises, com os nomes dos
desconhecidos que impediram a separação dos arquitetos do
Crea (não sei quem foram esses barlegos e penabés, não
quero saber, tenho raiva de quem sabe). Em toda história da arquitetura
do Brasil, foram as pessoas que causaram o maior dano à nossa profissão.
Por isso, muito justos esses monumentos, que em Lusitânia se chamariam
"monumento à mãe do arquiteto desconhecido".
Como se vê, ao longo tempo nada mudou, exceto o fato de que
o extraordinário povo brasileiro conseguiu, em dois mandatos sucessivos,
eleger, primeiro, um presidente para a Suécia e, depois, outro
para Uganda. Infelizmente em termos de cultura e desenvolvimento estamos
cada vez mais longe dos países desenvolvidos da premier e da Ivy
League (Deutschland, Finland, Nederland, New Zealand, Scotland, Switzerland,
Poland, Ireland, Gröenland, Iceland), e cada vez mais perto da quinta
divisão (Afganistan, Kazakhstan, Kirghistan, Baluchistan, Tadjikistan,
Turkhomenistan, Usbekhistan, Wazhiristan, Pakistan, Irakistan, Iranistan).
O mais perto que conseguimos chegar do "land" foi na Vila Brasilândia.
P.S.: Infelizmente, às vezes é impossível nos
afastarmos da vergonhosa atividade da política que em nosso país
se chama politicagem. Mas deveríamos, para o bem da juventude,
proibir a divulgação da política nacional na TV antes
das 22 horas e só publicar questões políticas em
jornais e revistas envelopadas com tarja preta de proteção.
Ou de luto.
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