Todos temos na vida momentos mágicos: uns mais, outros menos,
mas se estatísticas valem alguma coisa, quanto mais movimentada,
agitada e variada a sua vida, mais momentos mágicos você
terá, se é que você os deseja e não leva o
dia a dia de uma maneira conformista. Esta frase é para auto-ajudar
os leitores. O que marca a arquitetura é que tanto pode representar
um momento mágico quanto ser maravilhosa o tempo todo.
Momento mágico: entrar na baia de Sydney e ver a Opera House.
Magia eterna: caminhar pela Alhambra de Granada e maravilhar-se a cada
passo e a cada visita, ainda que a impressão externa inicial não
seja tão impactante. Magia do dia a dia: exercer com prazer e com
amor a profissão de arquiteto. Na verdade isso deveria valer para
qualquer atividade, mas, falando sinceramente, qual é a graça
de ser bancário? Já banqueiro é outra coisa. Em princípio,
a diferença está em ganhar uma fortuna, mas existe um ponto
oculto, que é o risco de dar uma tacada errada, ou a satisfação
da aquisição de um concorrente, etc.
Já afirmei várias vezes que há muito, mas muito
mais coisas interessantes e agradáveis para fazer do que trabalhar.
Por exemplo: viajar, namorar, esportar (de dia e à noite), conversar,
jazzar e, então, arquitetar. E a seguir escrevar, guiar, dançar,
mandar, etc. Mas como, infelizmente, sem ser milionário a gente
tem de trabalhar, é melhor exercer uma atividade de que se gosta.
Arquitetura é uma delas e, como certas mulheres, é fascinante
e enfeitiça. Fascínio e feitiço.
Quando pergunto no escritório qual é a nossa finalidade
e respondem que é fazer arquitetura, discordo totalmente. A nossa
finalidade é ganhar a vida honestamente. A segunda também
não é arquitetura: é prestar um bom serviço.
A terceira (está esquentando), é coordenar e administrar
tecnicamente um projeto de arquitetura e engenharia. O meu número
mágico matematicamente é o 4, e esse é, sim, arquitetar,
fazer um bom, se possível um excelente projeto. Não é
necessário ser genial: a sociedade não precisa de milhares
de gênios, precisa de bons arquitetos participantes do desenvolvimento
do País.
Quando você vai a um médico, você espera que ele
te cure, não que faça uma tese com a sua doença.
Então, já que temos de trabalhar, que a humanidade inventou
esse fardo eterno, é melhor fazer algo de que gostamos -
ou melhor, adoramos. Mesmo para mim, que prefiro mil vezes as atividades
que citei no terceiro parágrafo, a profissão de arquiteto
é uma alegria. A atividade de elaborar e coordenar um projeto de
edificação (e ganhar a vida com isso) é, no mínimo,
muito interessante.
É como já li em uma entrevista de Anthony Hopkins, feita
em uma das suas viagens para um filme. Ele dizia não entender por
que "nos pagam uma fortuna para fazer um trabalho que eu faria de
graça, ou até pagaria para fazer"! Mas nós amamos
a nossa profissão mais do que Anthony Hopkins ama o cinema, porque
pensamos, discutimos, miramos, sonhamos e vivemos arquitetura mesmo ganhando
uma merreca e sendo vergonhosamente explorados. É como casar contra
a vontade dos pais. Justificativa: mas eu gosto dela!
Outros profissionais como médicos, advogados ou decoradores ao
atingirem status profissional equivalente ao de arquitetos reconhecidos
ganham muitíssimo mais. Mas o que faz a diferença nos que
amam a profissão é o seu empenho em fazer o melhor do melhor.
Um exemplo típico seria um projeto cujos módulos de pilares,
por razões que não vêm ao caso, sejam de 5 m em 5
m. Contudo, o último vão ficou com 5,50 m. Qualquer arquiteto
que goste de arquitetura passará dias até achar uma forma
de tornar os vãos todos iguais mesmo que funcionalmente, economicamente
e construtivamente isso não faça a mínima diferença.
Está nesses detalhes uma diferença marcante entre as profissões
de arquiteto e engenheiro. Como dizia o querido Roberto Claudio dos Santos
Aflalo, não basta resolver tudo tecnicamente, construtivamente,
funcionalmente, etc. Para nós ainda tem de ficar... bonitinho!
E aí vai o custo envolvido. Essas horas insones, mesmo e principalmente
fora do escritório, aos sábados e domingos, apenas pensando
como obter uma solução melhor, mesmo que o cliente já
esteja totalmente satisfeito com o que foi apresentado, não têm
explicação. Ou melhor, têm sim: é o amor pela
profissão, é o interesse de resolver um problema intelectual
e estético, às vezes extremamente abstrato, como raciocinam
um físico ou um matemático.
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