O trabalho (ou diversão) de um projeto tem enorme similaridade
com o jogo de xadrez. Nas duas atividades, o movimento de uma peça
influencia todo o conjunto e exige repensar todo o trabalho, mas com uma
diferença: da arquitetura resulta uma construção
útil, enquanto do xadrez... Bem, o xadrez é um jogo que
desenvolve extraordinariamente a qualidade intelectual para... jogar xadrez.
Todas essas horas movendo peças, é evidente, ninguém
paga de imediato, mas a dedicação proporciona um resultado
profissional a partir do resultado arquitetônico. Dá origem
a obras melhores e, além da satisfação pessoal, às
vezes pode até rolar um reconhecimento com a contratação
de novos serviços. Nem sempre, porque a fidelidade de cliente é
como a das namoradas: depende das circunstâncias.
Quando trabalhei em jornalismo, e ganhava muitíssimo bem (milagre!)
fazendo algo de que eu gostava muito, ouvi do proprietário da revista
a seguinte frase: sabe por que os jornalistas ganham pouco? Porque gostam
muito do que fazem. A frase se aplica perfeitamente aos arquitetos.
Naturalmente, como em todas as profissões, existem profissionais
que não são lá essas coisas em termos de técnica,
de criatividade, ou das duas coisas. Mas ainda assim gostam do que fazem
- ou pensam fazer - e se orgulham do resultado. Há
também os que só pensam no vil metal e entre esses, de novo
como em todas as profissões, há até alguns que são
bons arquitetos.
Enfim, alguns dos arquitetos que projetam os esteticamente terríveis
prédios de apartamentos de São Paulo (modernos ou "de
estilo", não importa) têm a satisfação
justíssima de ganhar dinheiro com a profissão. Não
colaboram estética e culturalmente com a cidade, mas atendem às
solicitações de seus clientes. Insisto no assunto remuneração
não por mesquinhez, mas por saber que em sociedades cultas ou tecnologicamente
avançadas (o que está longe de ser o nosso caso), o valor
da remuneração reflete a importância de uma profissão.
Mas há inúmeras outras alegrias na arquitetura. A satisfação
de ver um edifício construído (e não relatórios
ou papel pintado) me traz à mente o contentamento de um obstetra
pela alegria que proporcionou aos pais da criança. Recordo-me da
satisfação indescritível que sentia ao ver as inaugurações
dos nossos edifícios de estações telefônicas,
e a alegria da população em locais onde pela primeira vez
se falava ao telefone.
Aos que com demagogia e sem sinceridade citam "o papel social do
arquiteto", aí está um papel mais do que social: um
papel efetivo, concreto, construído. Ao citar a construção,
sublinho que nada seríamos sem os excelentes engenheiros que conosco
colaboram nos projetos e que planejam e executam obras extraordinariamente
complexas como túneis, pontes, barragens e edifícios.
Não podemos mudar o mundo com arquitetura, como pretendiam Corbusier
e Gropius. Mas podemos mudar a arquitetura, frase que escrevi e que vi
o amigo Mario Botta pronunciar em uma palestra. Podemos torná-lo
mais bonito se ambientalistas, patrimonialistas e aprovadores de projetos
deixarem. E mais do que tudo, nossa profissão deixa marcas por
séculos, daí a nossa imensa responsabilidade e também
orgulho, realização pessoal e profissional. Elas ultrapassam
de longe a nossa vida. Tamerlão ou Timur para os íntimos,
um arrasador guerreiro, tinha como lema "se duvidais da nossa potência,
olhai nossa arquitetura". E se olharmos para Haja Sofia, para a mesquita
Azul ou para as catedrais góticas, veremos a magia que transforma
a fé em arquitetura. Ainda que eu seja um ateu e um cético
total.
Dia 10 de abril é o lançamento do meu livro As cidades vivas,
viva as cidades, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em que muito
do que penso sobre a arquitetura, a profissão e a sua magia estão
expostas.
Como sou um arquiteto de edificações e não um teórico
ou autor de teses realmente brilhantes (estes em geral publicam muito),
lançar um livro é algo extraordinário. Lembra-me
a frase que um brilhante publicitário norte-americano preparou
para Neil Armstrong (Armstrong the astronaut, not the jazzman, stupid!)
ao descer na lua: "É um pequeno passo para o homem, mas um
grande passo para a humanidade". Aldrin, que desceu a seguir, tinha
um publicitário ainda mais sagaz e disse: "Pode ser um pequeno
passo para ele, mas é um grande passo para mim".
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