aU VOCÊ CONSEGUIU BOLSAS DE ESTUDOS
NA ITÁLIA, FRANÇA E DINAMARCA, ENTRE OUTRAS. ESSE ESFORÇO FOI PARA FUGIR
DO TRABALHO?
TEPERMAN Sim, a verdade
é uma só: eu não gostava era de trabalhar. As pessoas têm muita vergonha
de dizer isso, mas eu não gostava e não gosto até hoje. Vim de família
judia e na época só tinha três opções de carreira profissional: médico,
engenheiro ou advogado. A FAU só existia há oito anos quando entrei. Meus
pais eram muito cultos, e ainda assim achavam que arquitetura era uma
coisa secundária. Mas eu pensava que, já que tinha de trabalhar, melhor
fazer alguma coisa de que gostasse como arquitetura e jornalismo. Na verdade,
a profissão que eu gostaria de ter tido era a de aventureiro. Hoje os
exploradores são financiados por grandes multinacionais com direito até
a programa de televisão. Eu teria ficado a vida inteira viajando assim,
mas só fiquei seis anos.
aU TODO MUNDO GOSTA DE VIAJAR AINDA
MAIS SE A VIAGEM FOR PAGA POR OUTRA PESSOA. MAS AFINAL, COMO CONSEGUIU
FICAR TANTO TEMPO VIAJANDO PRATICAMENTE DE GRAÇA?
TEPERMAN Eu era tão vidrado
nisso que deu certo para mim. Olha, se eu ganhasse uma bolsa para o Paraguai
eu iria. Quando eu estava no terceiro ano da faculdade, depois de enviar
cartas a todos os consulados descobri que só me dariam uma bolsa depois
de formado. Lógico que quando me formei remeti todas as cartas de novo.
Na época já falava inglês, fui estudar francês e me inscrevi em um curso
de italiano só para ter a inscrição.
aU E FORAM ESSAS CARTAS QUE LHE
ABRIRAM AS PORTAS PARA AS TÃO SONHADAS VIAGENS?
TEPERMAN Ainda não, mesmo
com a ajuda das secretárias das embaixadas. Sério, descobri uma coisa
bem óbvia: adidos culturais gostam de ir a vernissages e tomar vinho,
quem trabalha mesmo são suas secretárias. Então, com 22 anos, convidei
todas as secretárias dos adidos culturais para sair, tivessem elas 18
ou 80 anos. Algumas aceitaram, outras não, mas no fim daquele ano recebi
uma bolsa da Olivetti para ir à Itália, mesmo sem sair com a secretária
da embaixada. Foi a mãe do arquiteto Gabriel Bolaffi, que era amiga do
adido cultural italiano, que pediu em meu nome. Mesmo sendo judia como
eu, na época todo mundo era fascista. Ela ligou para o adido e disse "è
uno dei nostri!", se referindo a mim como um fascista. Foi assim que ganhei
minha primeira bolsa, depois de concorrer com requerentes de toda a América
Latina.
aU O QUE VOCÊ ESTUDOU NA ITÁLIA?
TEPERMAN Desenho Industrial,
uma coisa que detesto. Mas era na Faculdade de Florença, lugar belíssimo,
e as aulas eram somente aos sábados, imagine só. O professor, superconceituado,
faltava um sábado, eu faltava outro e assim passou um ano inteiro. Além
disso, a Olivetti me levava para conhecer o arquiteto que quisesse, era
só pedir. Eu pegava o mapa da Itália e escolhia arquitetos de vários lugares,
eles mandavam as passagens, a reserva de hotel e o dinheiro e lá ia eu
conhecer outra cidadezinha italiana...
aU DESSA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA VIERAM
MUITAS OUTRAS...
TEPERMAN Da Itália fui
à Inglaterra, fruto de um contato anterior no Brasil. Lá me mandaram projetar
um bairro inteiro, e foi o que fiz. Depois ganhei uma bolsa em Paris.
Tinha que fazer algumas visitas a departamentos franceses, mas era só
isso. Na verdade, passei um ano bebendo vinho. Depois de Paris fui para
a Finlândia encher o saco do Alvar Aalto. Tinha ganhado uma bolsa da Unesco
e depois de dois meses me aceitaram no escritório dele. Nesse meio tempo
passei férias na Espanha e Portugal pela fundação Calouste Gulbekian.
Da Finlândia fui para a Dinamarca trabalhar nos projetos das embaixadas
deles em Brasília e voltei de novo à Finlândia quando fui chamado para
ser editor da revista de arquitetura norte-americana no Brasil. Imagine
o choque térmico e cultural ao chegar aqui: saí da Finlândia com 28 graus
negativos e desci no Rio com um calor de 30 graus. E fui para São Paulo,
uma cidade de que não gosto até hoje.
aU COMO ARQUITETO O QUE VOCÊ APRENDEU
COM TANTAS ANDANÇAS?
TEPERMAN Arquiteto aprende
olhando. Eu aprendi muito na Europa, vendo e analisando como se faz uma
praça, um espaço público. Estava educado por Le Corbusier e pelo exemplo
de Brasília, passei a conhecer outras escalas, outra arquitetura. E aprendi
sobre a vida também, o que é muito mais importante. Como já disse, essa
primeira experiência em jornalismo me levou de volta à Finlândia, onde
fiquei por mais um ano. Nesse meio tempo decidi que já era hora de investir
em minha carreira de arquiteto e voltei definitivamente ao Brasil.
aU E COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA COMO
PROFESSOR DA FAUUSP?
TEPERMAN Eu lecionei na
FAU de 1973 a 1981. Na época eu tinha um motorista que ia me esperar no
aeroporto para me levar direto para a FAU, pois vivia com pressa. Eu era
muito exigente, um chato. Cobrava matérias, mas explicava direitinho como
fazer um projeto executivo, com os símbolos e tudo o mais. Sempre achei
minha formação uma porcaria e olha que tive duas aulas por semana com
o Artigas, aulas com o Rino Levi e de concreto com o Figueiredo Ferraz.
Ainda assim, achava que não era boa a formação. Na época ninguém estava
interessado em projetos. Era uma época libertária, ninguém queria se adaptar.
aU NOS PRIMEIROS ANOS DE TRABALHO
EFETIVO EM ARQUITETURA SEU ESCRITÓRIO JÁ ESTAVA ÀS VOLTAS COM UM NÚMERO
ENORME DE PROJETOS DE TELECOMUNICAÇÕES. COMO CONSEGUIU ESSES PROJETOS
MESMO DEPOIS DE PASSAR TANTO TEMPO FORA DO PAÍS?
TEPERMAN A Telesp precisava
de edifícios para abrigar as salas de equipamentos desenhadas pela Ericsson.
Eu tinha uma namorada da empresa que me apresentou ao seu chefe. Falei
que tinha trabalhado na Noruega e Suécia, países avançadíssimos no segmento,
e consegui os projetos. Na verdade nunca tinha visto nada sobre telefonia
e na época descobri que telecomunicações rende uma fortuna e que, portanto,
precisavam dos projetos para ontem. No espaço de um ano fiz quinze prédios.
Depois veio o convite da Telebrás e concorri com a Hidroservice e a Promom
com apenas quatro arquitetos no meu escritório. Quando ganhei a concorrência
contratei pra caramba, porque estava sujeito a uma multa enorme por atraso.
Eu tinha que começar no dia 0 e no dia 90 entregar quatro projetos completos
que incluíssem elétrica, hidráulica, estrutura, concreto, orçamento, arquitetura,
enfim, tudo. E no dia 120 tinha que entregar mais quatro e no dia 150,
outros quatro. Todo mês o escritório produzia quatro anteprojetos, quatro
pré-executivos e quatro executivos. Projetei para regiões completamente
sem estrutura como Acre, Amapá, Piauí, e para chegar aos canteiros tinha
que ir a cavalo, de teco-teco, jipe, etc. Tive que aprender e ensinar
tudo e passei a fazer projetos ultradetalhados. Os engenheiros de obras
me adoravam e os donos das construtoras me detestavam porque tudo era
especificado com tanta precisão que não dava para gastar menos nem fazer
nas coxas. Fiquei nessa pauleira por três anos.
aU É VERDADE QUE NASCERAM DENTRO
DO SEU ESCRITÓRIO OS SÍMBOLOS HOJE PADRONIZADOS DE TRIÂNGULOS, QUADRADOS
E CÍRCULOS DOS PROJETOS EXECUTIVOS?
TEPERMAN Pura verdade.
Inventei uma metodologia para agilizar o processo de produção. O sistema
de quadradinhos e bolinhas economizou tempo porque não precisávamos mais
escrever com normógrafo todos os revestimentos e instalações de cada sala.
O engraçado é que todo mundo pensa que esse sistema nasceu junto com a
arquitetura.
aU COMO ERAM ESSES PRÉDIOS?
TEPERMAN Eu criei uma
linguagem própria para os prédios, pois as fachadas não poderiam ter janelas.
Mas também não fiz nenhum prédio de concreto aparente. Pilar e viga de
concreto tudo bem, mas fazer uma parede de concreto eu nunca fiz e não
faço mesmo. Apesar do valor do projeto ser ínfimo perto do valor do empreendimento,
para o presidente da companhia, inaugurar o prédio era a grande jogada.
Antes de qualquer desenho técnico ele queria ver a cara do prédio, então
eu sempre mostrava uma perspectiva. Eu lidava com gente que assinava orçamentos
de zilhões, mas queriam ver a cara de um prédio que valia quase nada.
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