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Entrevista

PALAVRAS DE ARQUITETO
AO LANÇAR LIVRO COM COLETÂNEA DE CRÔNICAS, SERGIO TEPERMAN FALA A AU SOBRE AS ETERNAS QUESTÕES DA ARTE DE VIVER - E COMO SOBREVIVER COMO ARQUITETO

POR SIMONE SAYEGH FOTO MARCELO SCANDAROLI



aU VOCÊ CONSEGUIU BOLSAS DE ESTUDOS NA ITÁLIA, FRANÇA E DINAMARCA, ENTRE OUTRAS. ESSE ESFORÇO FOI PARA FUGIR DO TRABALHO?

TEPERMAN Sim, a verdade é uma só: eu não gostava era de trabalhar. As pessoas têm muita vergonha de dizer isso, mas eu não gostava e não gosto até hoje. Vim de família judia e na época só tinha três opções de carreira profissional: médico, engenheiro ou advogado. A FAU só existia há oito anos quando entrei. Meus pais eram muito cultos, e ainda assim achavam que arquitetura era uma coisa secundária. Mas eu pensava que, já que tinha de trabalhar, melhor fazer alguma coisa de que gostasse como arquitetura e jornalismo. Na verdade, a profissão que eu gostaria de ter tido era a de aventureiro. Hoje os exploradores são financiados por grandes multinacionais com direito até a programa de televisão. Eu teria ficado a vida inteira viajando assim, mas só fiquei seis anos.

aU TODO MUNDO GOSTA DE VIAJAR AINDA MAIS SE A VIAGEM FOR PAGA POR OUTRA PESSOA. MAS AFINAL, COMO CONSEGUIU FICAR TANTO TEMPO VIAJANDO PRATICAMENTE DE GRAÇA?

TEPERMAN Eu era tão vidrado nisso que deu certo para mim. Olha, se eu ganhasse uma bolsa para o Paraguai eu iria. Quando eu estava no terceiro ano da faculdade, depois de enviar cartas a todos os consulados descobri que só me dariam uma bolsa depois de formado. Lógico que quando me formei remeti todas as cartas de novo. Na época já falava inglês, fui estudar francês e me inscrevi em um curso de italiano só para ter a inscrição.

aU E FORAM ESSAS CARTAS QUE LHE ABRIRAM AS PORTAS PARA AS TÃO SONHADAS VIAGENS?

TEPERMAN Ainda não, mesmo com a ajuda das secretárias das embaixadas. Sério, descobri uma coisa bem óbvia: adidos culturais gostam de ir a vernissages e tomar vinho, quem trabalha mesmo são suas secretárias. Então, com 22 anos, convidei todas as secretárias dos adidos culturais para sair, tivessem elas 18 ou 80 anos. Algumas aceitaram, outras não, mas no fim daquele ano recebi uma bolsa da Olivetti para ir à Itália, mesmo sem sair com a secretária da embaixada. Foi a mãe do arquiteto Gabriel Bolaffi, que era amiga do adido cultural italiano, que pediu em meu nome. Mesmo sendo judia como eu, na época todo mundo era fascista. Ela ligou para o adido e disse "è uno dei nostri!", se referindo a mim como um fascista. Foi assim que ganhei minha primeira bolsa, depois de concorrer com requerentes de toda a América Latina.

aU O QUE VOCÊ ESTUDOU NA ITÁLIA?

TEPERMAN Desenho Industrial, uma coisa que detesto. Mas era na Faculdade de Florença, lugar belíssimo, e as aulas eram somente aos sábados, imagine só. O professor, superconceituado, faltava um sábado, eu faltava outro e assim passou um ano inteiro. Além disso, a Olivetti me levava para conhecer o arquiteto que quisesse, era só pedir. Eu pegava o mapa da Itália e escolhia arquitetos de vários lugares, eles mandavam as passagens, a reserva de hotel e o dinheiro e lá ia eu conhecer outra cidadezinha italiana...

aU DESSA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA VIERAM MUITAS OUTRAS...

TEPERMAN Da Itália fui à Inglaterra, fruto de um contato anterior no Brasil. Lá me mandaram projetar um bairro inteiro, e foi o que fiz. Depois ganhei uma bolsa em Paris. Tinha que fazer algumas visitas a departamentos franceses, mas era só isso. Na verdade, passei um ano bebendo vinho. Depois de Paris fui para a Finlândia encher o saco do Alvar Aalto. Tinha ganhado uma bolsa da Unesco e depois de dois meses me aceitaram no escritório dele. Nesse meio tempo passei férias na Espanha e Portugal pela fundação Calouste Gulbekian. Da Finlândia fui para a Dinamarca trabalhar nos projetos das embaixadas deles em Brasília e voltei de novo à Finlândia quando fui chamado para ser editor da revista de arquitetura norte-americana no Brasil. Imagine o choque térmico e cultural ao chegar aqui: saí da Finlândia com 28 graus negativos e desci no Rio com um calor de 30 graus. E fui para São Paulo, uma cidade de que não gosto até hoje.

aU COMO ARQUITETO O QUE VOCÊ APRENDEU COM TANTAS ANDANÇAS?

TEPERMAN Arquiteto aprende olhando. Eu aprendi muito na Europa, vendo e analisando como se faz uma praça, um espaço público. Estava educado por Le Corbusier e pelo exemplo de Brasília, passei a conhecer outras escalas, outra arquitetura. E aprendi sobre a vida também, o que é muito mais importante. Como já disse, essa primeira experiência em jornalismo me levou de volta à Finlândia, onde fiquei por mais um ano. Nesse meio tempo decidi que já era hora de investir em minha carreira de arquiteto e voltei definitivamente ao Brasil.

aU E COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA COMO PROFESSOR DA FAUUSP?

TEPERMAN Eu lecionei na FAU de 1973 a 1981. Na época eu tinha um motorista que ia me esperar no aeroporto para me levar direto para a FAU, pois vivia com pressa. Eu era muito exigente, um chato. Cobrava matérias, mas explicava direitinho como fazer um projeto executivo, com os símbolos e tudo o mais. Sempre achei minha formação uma porcaria e olha que tive duas aulas por semana com o Artigas, aulas com o Rino Levi e de concreto com o Figueiredo Ferraz. Ainda assim, achava que não era boa a formação. Na época ninguém estava interessado em projetos. Era uma época libertária, ninguém queria se adaptar.

aU NOS PRIMEIROS ANOS DE TRABALHO EFETIVO EM ARQUITETURA SEU ESCRITÓRIO JÁ ESTAVA ÀS VOLTAS COM UM NÚMERO ENORME DE PROJETOS DE TELECOMUNICAÇÕES. COMO CONSEGUIU ESSES PROJETOS MESMO DEPOIS DE PASSAR TANTO TEMPO FORA DO PAÍS?

TEPERMAN A Telesp precisava de edifícios para abrigar as salas de equipamentos desenhadas pela Ericsson. Eu tinha uma namorada da empresa que me apresentou ao seu chefe. Falei que tinha trabalhado na Noruega e Suécia, países avançadíssimos no segmento, e consegui os projetos. Na verdade nunca tinha visto nada sobre telefonia e na época descobri que telecomunicações rende uma fortuna e que, portanto, precisavam dos projetos para ontem. No espaço de um ano fiz quinze prédios. Depois veio o convite da Telebrás e concorri com a Hidroservice e a Promom com apenas quatro arquitetos no meu escritório. Quando ganhei a concorrência contratei pra caramba, porque estava sujeito a uma multa enorme por atraso. Eu tinha que começar no dia 0 e no dia 90 entregar quatro projetos completos que incluíssem elétrica, hidráulica, estrutura, concreto, orçamento, arquitetura, enfim, tudo. E no dia 120 tinha que entregar mais quatro e no dia 150, outros quatro. Todo mês o escritório produzia quatro anteprojetos, quatro pré-executivos e quatro executivos. Projetei para regiões completamente sem estrutura como Acre, Amapá, Piauí, e para chegar aos canteiros tinha que ir a cavalo, de teco-teco, jipe, etc. Tive que aprender e ensinar tudo e passei a fazer projetos ultradetalhados. Os engenheiros de obras me adoravam e os donos das construtoras me detestavam porque tudo era especificado com tanta precisão que não dava para gastar menos nem fazer nas coxas. Fiquei nessa pauleira por três anos.

aU É VERDADE QUE NASCERAM DENTRO DO SEU ESCRITÓRIO OS SÍMBOLOS HOJE PADRONIZADOS DE TRIÂNGULOS, QUADRADOS E CÍRCULOS DOS PROJETOS EXECUTIVOS?

TEPERMAN Pura verdade. Inventei uma metodologia para agilizar o processo de produção. O sistema de quadradinhos e bolinhas economizou tempo porque não precisávamos mais escrever com normógrafo todos os revestimentos e instalações de cada sala. O engraçado é que todo mundo pensa que esse sistema nasceu junto com a arquitetura.

aU COMO ERAM ESSES PRÉDIOS?

TEPERMAN Eu criei uma linguagem própria para os prédios, pois as fachadas não poderiam ter janelas. Mas também não fiz nenhum prédio de concreto aparente. Pilar e viga de concreto tudo bem, mas fazer uma parede de concreto eu nunca fiz e não faço mesmo. Apesar do valor do projeto ser ínfimo perto do valor do empreendimento, para o presidente da companhia, inaugurar o prédio era a grande jogada. Antes de qualquer desenho técnico ele queria ver a cara do prédio, então eu sempre mostrava uma perspectiva. Eu lidava com gente que assinava orçamentos de zilhões, mas queriam ver a cara de um prédio que valia quase nada.

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