aU E VOCÊ TINHA LIBERDADE DE PROPOR
SOLUÇÕES E REVESTIMENTOS?
TEPERMAN Gozado, tinha
bastante. Eles confiavam no arquiteto, diferente do povo de São Paulo.
O projeto não custava nada, nem a obra. Mas eles queriam demonstrar poder
e realmente aceitavam o que a gente queria.
aU TANTO TRABALHO EM UMA MESMA ÁREA
PODE LEVAR A SOLUÇÕES VICIADAS OU VINCULAR PERIGOSAMENTE A IMAGEM DO ARQUITETO
A DETERMINADO SEGMENTO DE PROJETO. VOCÊ ACHA QUE FICOU ESTIGMATIZADO?
TEPERMAN Sim. Mas nunca
me incomodou ficar estigmatizado por outros arquitetos, e sim pelos clientes.
Eu tinha um volume muito grande de trabalho desenvolvido com muito profissionalismo,
mas mesmo assim ia atrás de outras oportunidades. O problema é que sempre
ouvia as pessoas dizendo que eu tinha muito serviço, que eu não ia dar
atenção, que eu era uma estrela, coisa que definitivamente eu não sou,
mas não sou mesmo. Arquitetura é uma profissão como outra qualquer.
aU VOCÊ CONSIDERA SUA ARQUITETURA
HUMANA?
TEPERMAN Eu tento fazer
isso, mas não necessariamente consigo. Isso é uma influência do Alvar
Aalto. Eu não sou uma pessoa de ligar tanto para os detalhes, mas o escritório
liga. O Paulo Mendes da Rocha, por exemplo, faz espaços fantásticos, mas
os detalhes se perdem. Isso é uma coisa da arquitetura brasileira, que
liga muito para os espaços, que são bárbaros, e se esquece dos detalhes.
Na época do brutalismo só faltava deixar o prego aparecendo. Mas também
tem uma grande diferença com a Europa: os arquitetos europeus têm tempo
para fazer essas coisas, não estão correndo contra os prazos.
aU AO ANALISAR O CONJUNTO DE SUA
OBRA, SALTA AOS OLHOS A FALTA DE UM ESTILO PRÓPRIO...
TEPERMAN Portanto, não
dá para saber quais são os prédios que projetamos. Isso é por opção nossa.
Não quer dizer que não gosto das obras que faço, simplesmente não tenho
a vaidade de criar uma grife. As obras do finlandês Eeron Saarinen são
todas diferentes. Não tem um prédio igual ao outro. E não é porque se
quer inventar algo novo, o que se quer, sim, é interpretar exatamente
o espírito de cada cliente, com suas necessidades específicas.
aU VOCÊ NUNCA FOI CRITICADO POR
ISSO?
TEPERMAN Olha, nunca ninguém
me falou na cara, mas tenho uma tremenda autocrítica e sei que tenho alguns
bons projetos. O prédio da Sistel, que fizemos em Brasília, ganhou o primeiro
lugar na avaliação de dez anos de obras na cidade. Eu nunca fui censurado
abertamente, mas também nunca tinha sido convidado para uma exposição
de arquitetura até a chegada do post modern no Brasil e as pessoas se
darem conta de que era possível fazer outra coisa que não concreto aparente
e modernismo.
aU VOCÊ REALMENTE NÃO SIMPATIZA
COM O CONCRETO APARENTE...
TEPERMAN Uma vez, em um
concurso para um pavilhão brasileiro, ganhou um projeto com uma viga de
concreto com vão de 80 m. Uma loucura, porque para um pavilhão de exposições
temporário se supõe a rápida montagem e desmontagem. Há algum tempo fui
visitar o prédio do Crea. Entrei na sala do presidente, bem escura, e
ele me perguntou o que achava da sala. Falei que era horrível. Então ele
lançou uma comparação interessante: as mulheres se arrumam para impressionar
outras mulheres, e não os homens, e com os arquitetos era o mesmo. Eles
faziam concreto aparente para impressionar outros arquitetos, e não os
usuários ou os clientes.
aU QUAL SUA POSIÇÃO SOBRE A CRIAÇÃO
DO CONSELHO DE ARQUITETURA?
TEPERMAN Quando era presidente
da AsBEA, junto com o Aflalo (Roberto), o Botti (Alberto) e o Roberto
de Castro Mello resolvemos fazer com que a arquitetura entrasse no Sinenco,
o Sindicato das Empresas de Engenharia Consultiva, para termos voz oficial.
Daí virou Sinaenco, Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia
Consultiva. Mesmo assim, os arquitetos do Sinaenco participam pouco. Não
basta criar o conselho, o arquiteto tem que participar e agüentar outros
burocratas. De qualquer maneira, se tem alguém contra o Crea, sou eu.
E não escrevo mais forte contra porque tenho medo de um processo. É o
Crau, como brinco. O Crea já teve valor, só que a vida mudou, as coisas
mudaram. Como um órgão pode tomar conta de trezentas profissões? O segundo
ponto é que, além de não tomarem conta, não temos representação oficial
que tenha poder de dialogar com o governo. Isso para a arquitetura não
serve. O Crea arrecada uma barbaridade, mas não investe nada. Eu tenho
reservas com relação ao conselho próprio, mas para falar com o governo
de igual para igual, precisamos dele.
aU COMO VÊ O DESENVOLVIMENTO DA
ARQUITETURA FORA DO BRASIL EM COMPARAÇÃO À BRASILEIRA?
TEPERMAN É fácil falar
sobre arquitetura no exterior. Eles têm recursos, tecnologia e consciência
histórica da imagem que a arquitetura representa. Na inauguração de uma
obra bacana de recuperação, em uma cidadezinha da Espanha, o prefeito
falou que não precisava de Foster ou Calatrava, pois valorizava os arquitetos
da cidade. Se o prefeitinho de uma cidadezinha do interior sabe do impacto
da arquitetura em um lugar, imagine como os megaempresários tratam o assunto,
cientes que estão da força da marca, da imagem. A China quer essa imagem,
mas está importando arquitetura internacional como novos ricos: às vezes
compra coisas boas, e às vezes não tão boas.
aU O QUE TEMOS DE BOM POR AQUI?
TEPERMAN Sou fã da arquitetura
brasileira dos anos 40 e 50, da arquitetura carioca do escritório MMRoberto
(os irmãos Marcelo e Milton Roberto). Depois veio o tal do brutalismo
e o post modern, que como arquitetura era uma porcaria, mas serviu para
libertar a mente das pessoas. Também sou fã do Aflalo & Gasperini, mas
tem vários jovens, como Andrade Morettin, Zainar Mendonça, o grupo Una,
Mauricio Queiroz, etc. que estão fazendo uma arquitetura diferenciada.
Se jovens estão fazendo boa arquitetura já é um alento.
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