
É FREQÜENTE OUVIR QUE NO BRASIL NÃO SE FAZ CRÍTICA
DE ARQUITETURA. EM ENTREVISTA À AU PUBLICADA EM JANEIRO DE 2008,
O CRÍTICO ESPANHOL JOSEP MARIA MONTANER DIZ, ENTRE OUTROS TEMAS,
QUE "HÁ MUITOS ARQUITETOS BONS NO BRASIL E MUITOS BONS CRÍTICOS,
MAS NENHUM SE ATREVE A DAR UM SALTO E FAZER UM TRABALHO MAIS AMPLO,
MAIS AMBICIOSO E MAIS GERAL". OS TEXTOS PUBLICADOS NAS REVISTAS
NÃO SÃO CONSIDERADOS CRÍTICAS POR MUITOS PROFISSIONAIS
- ARQUITETOS E, ATÉ, PELOS PRÓPRIOS CRÍTICOS.
AFINAL, O QUE É CRÍTICA DE ARQUITETURA?
Todos
os jornais do Brasil têm suplemento semanal de crítica sobre
diferentes manifestações artísticas, com exceção
da arquitetura - é sintomática sua ausência
como expressão cultural da vida cotidiana da comunidade, em relação
aos prédios ruins onde habita a maioria das pessoas, e aos graves
problemas urbanísticos de nossas cidades. A arquitetura só
marca presença nos panegíricos aos grandes Mestres feitos
em ocasiões comemorativas. A função da crítica
de arquitetura é justamente criar a consciência social do
valor que a nossa disciplina tem como expressão cultural. Então
é um erro do colega Josep Maria Montaner quando questiona os principais
críticos brasileiros pelo fato de não escreverem livros.
E também quando valoriza como críticos as pessoas que se
destacam como bons acadêmicos ou como bons arquitetos, mas não
como críticos. Na Argentina, o citado Cláudio Caveri é
um arquiteto atuante e combativo, porém, não é um
crítico que incide nas mídias, como é, por exemplo,
Fernando Diez, que escreve no jornal La Nación e dirige a revista
Summa. No Brasil, Montaner reitera a importância dos críticos
tradicionais, mas não compreende que é maior a transcendência
de jovens como Otávio Leonidio quando escreve na revista Mais!;
ou Fernando Serapião, com suas inéditas revelações
publicadas na revista Piauí; além da fina ironia crítica
do Blog de Alencastro. São eles os que formam a opinião
na cultura social arquitetônica e não os livros especializados.
Não podemos nos esquecer do papel incentivador da crítica.
O grande acadêmico e arquiteto italiano Bruno Zevi ficou famoso
pelos seus ácidos artigos semanais no L´Espresso de Roma.
Isso é o que necessitamos ter no Brasil.
Roberto Segre, arquiteto e professor do Prourb da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ (Universidade Federal do
Rio de Janeiro)
A
cada tanto, as revistas insistem no tema da crítica, ou da ausência
de crítica, e pedem respostas breves - crítica e
reflexão pelo jeito não podem morar juntas. É como
se o assunto começasse de novo e sempre do vazio, como se tudo
o que já foi realizado até aquele instante nada valesse.
Segue-se confundindo crítica de arquitetura com juízo
de gosto; qualquer tentativa séria de compreender a arquitetura
na sua complexidade e profundidade não é entendida como
crítica; apenas a fofoca anônima e a maledicência
gratuita parecem ser aceitas como tal. Se assim for, é complicado
perguntar sobre a crítica, já que não adianta oferecer
respostas com qualidade e seriedade, enquanto o que se espera é
a leviandade das opiniões apressadas mas espertinhas. Talvez
por isso a crítica conseqüente tenha, infelizmente, se refugiado
nas academias e perdido espaço nos periódicos comerciais:
porque o ar do lado de fora está se tornando de péssima
qualidade.
Ruth Verde Zein, arquiteta, professora e pesquisadora
PPI da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e pesquisadora voluntária
do Propar-UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Crítica
de arquitetura é toda reflexão informada que visa a esclarecer
relações internas e externas de um artefato arquitetônico
que não possam ser apreendidas sem mediação, assim
como a sua relevância profissional e cultural. Para que seja conseqüente,
a crítica de arquitetura deve ser exercida por quem tenha profundo
envolvimento com a matéria, idealmente um arquiteto. O que passa
por crítica atualmente são, na sua maioria, descrições
e análises superficiais as quais, embora bem-intencionadas, são
inconseqüentes no que se refere ao desenvolvimento profissional e
a um melhor entendimento da arquitetura pelos seus usuários.
Edson Mahfuz, arquiteto e professor titular do departamento
de arquitetura da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Crítica,
segundo o dicionário, é avaliação. Nessa
perspectiva, todo juízo sobre uma obra de arquitetura é
crítica, positiva ou negativa, justificada ou não, enunciada
na mesa de bar como publicada em boletim de supermercado, revista especializada
de grande difusão ou livro da mais sofisticada coleção
de editora prestigiosa. Óbvio, independentemente do veículo,
o que interessa é a crítica fundamentada, baseada em argumentação
plausível, implicando conhecimento da obra e seu contexto, amor
à arte e um mínimo de cultura disciplinar. Tem gente fazendo
isso no Brasil, sim. Talvez não apareçam como autores
de livros individuais, mas amplitude, ambição e generalidade
da argumentação não são privilégios
de um único meio de divulgação.
Carlos Eduardo Comas, arquiteto e professor titular
do departamento de arquitetura da UFRGS (Universidade Federal do Rio
Grande do Sul)
A
crítica, de modo geral, constitui elemento norteador, capaz de
discernir valores, gerar debate, avaliar significados e indicar caminhos.
Carecemos de uma tradição crítica, comum em países
de nível cultural mais desenvolvido. A crítica de arquitetura
raramente comparece nos órgãos de imprensa voltados para
o grande público, ao contrário das artes plásticas,
literatura, música e cinema. Resulta, assim, restrita ao universo
dos arquitetos, por revistas especializadas. No entanto, o enfoque por
elas dado é raramente crítico, desprezando-se esse instrumento
fundamental para qualquer atividade artística. Reagimos a ela de
modo provinciano; quando empreendida por arquiteto, é tomada pelo
criticado como ofensa e pelo crítico como risco de ressentimentos
e até inimizades. Daí a cautela e, às vezes, o próprio
silêncio.
Alberto Xavier, arquiteto e professor do Centro Universitário
Belas Artes e da Universidade São Judas Tadeu
