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Interseção

A ÚLTIMA DE LE CORBUSIER
CONCLUÍDA MAIS DE 40 ANOS APÓS SUA MORTE, A IGREJA SAINT-PIERRE FINALIZA UM CONJUNTO URBANO DESENHADO POR LE CORBUSIER EM 1954 PARA A CIDADE DE FIRMINY, NA FRANÇA

POR ADRIANA FREIRE



A estrutura, definida pelos doze pilares (três em cada face), determina uma trama estrutural ordenando a sobreposição dos planos. Esta distribuição clara da estrutura e jogo dinâmico de planos são elementos essenciais dos projetos de Le Corbusier.

A planta está ordenada por dois eixos que são determinantes para a distribuição do programa no edifício: um que se desenvolve desde o acesso ao presbitério até a fachada oposta e outro, que parte no sentido norte-sul, determinando os espaços da sala paroquial, da sacristia e das salas de catecismo. Esses eixos revelam a pretensão do arquiteto por um dimensionamento proporcional dos espaços (2/3 e 1/3). Esse tratamento com as proporções é bastante utilizado por Le Corbusier em arranjos espaciais que evidenciam a composição formal das plantas. Como exemplo disso, podemos citar a casa Cook (1926), onde o arquiteto utiliza-se da disposição da escada como elemento ordenador de todo o projeto.

No primeiro pavimento, identificamos os mesmos eixos determinantes. Esses dois pavimentos são conectados por uma rampa permitindo uma leitura única de todos os espaços relativos às atividades restritas à igreja. No segundo e terceiro pavimentos, esses eixos determinantes encontram-se no centro da planta. No eixo central do segundo pavimento, localizam-se a entrada principal e o altar.

Essa fluidez espacial continua pelo piso oblíquo que circunda a sala principal e ascende progressivamente em espiral, resultando num mezanino. A capela encontra naturalmente seu lugar, espaço delimitado pela projeção da tribuna do terceiro pavimento. Podemos concluir que a organização planimétrica do edifício e sua volumetria caracterizam-se pela partição vertical do edifício segundo o esquema base/corpo, distinguindo claramente a diferença entre as duas funções da igreja.

A simplicidade aparente das plantas dissimula uma interessante organização do espaço. A forma como o edifício deve ser percorrido é bastante intencional e programada. O acesso à igreja se dá por uma rampa externa que vem procurar o visitante ao nível do terreno natural e inicia um movimento ascendente, que prossegue dentro da igreja, e culmina nas tribunas.

Todas as fachadas da base do edifício são cercadas por enormes panos de vidro, reforçando a diferença entre estrutura e fechamentos. Aqui existe uma diferença notável entre os outros projetos de Firminy realizados por Le Corbusier. Ao contrário da Casa da Cultura, onde o arquiteto utiliza superfícies de vidro fragmentadas de acordo com notas musicais, no edifício da igreja opta por planos inteiramente transparentes. Esta decisão projetual implica outras relações formais entre a base e o corpo do edifício: a base adquire certa leveza graças às transparências, enquanto o corpo revela-se mais maciço.

O projeto também é modificado com os objetivos de reduzir os custos e responder às exigências funcionais da liturgia. Essas modificações implicam outras soluções formais. É o caso da redução considerável do tronco de pirâmide, observada entre os projetos de 1962 e 1964. É também o caso do altar principal, que deveria estar em contato direto com a terra e jamais no terceiro pavimento. Para solucionar o problema, Le Corbusier decide criar uma coluna que funciona como suporte do altar.

Sob o altar encontra-se um vazio e, na laje abaixo, um outro vazio, até chegar à laje do térreo, permitindo que a coluna de concreto seja fixada profundamente na terra, criando a relação entre a terra e o céu exigida ao arquiteto. Essa coluna é um elemento simbólico, uma coluna de luz. Observa-se abaixo do altar uma superfície em vidro que permite a iluminação do bloco de concreto, conferindo-lhe certa leveza. Trata-se de um elemento escultural que coincide com um dos eixos determinantes do projeto.

Com o desaparecimento da tribuna do coral e, conseqüentemente, de sua escada exterior, fica reduzida consideravelmente a importância do campanário.

Le Corbusier falece em agosto de 1965. A construção, iniciada apenas em 1970, logo é interrompida, sendo concluída somente a base do edifício. A terceira fase do projeto inicia-se em dezembro de 1993 com a entrega de um novo projeto na prefeitura de Firminy, sendo concluída em novembro de 2006.

Em 1996, a base da construção, ruína moderna inacabada, é classificada como monumento histórico. Como edifício destinado à cultura e ao patrimônio, o projeto deve fazer uma ponte entre o Museu de Arte Moderna de Saint-Étienne, transformando os dois primeiros pavimentos, inicialmente destinados às atividades paroquiais, em salas de exposição.

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