A construção é retomada em 2003 sob a responsabilidade
de José Oubrerie, um dos antigos colaboradores de Le Corbusier,
que havia acompanhado o projeto desde sua fase de concepção,
participando igualmente da sua primeira fase de construção.
Nessa fase, o projeto passa ainda por algumas modificações.
Observando o projeto final, podemos concluir que ele respeita as idéias
e princípios que fundamentaram sua concepção, marcado,
porém, por algumas modificações importantes. A análise
comparativa revela vários níveis de intervenção
resultantes de origens diversas: adaptação às normas
atuais (acesso à deficiente físico) e o tratamento de soluções
não abordadas no anteprojeto. Porém, a evolução
mais importante está no fato de o edifício ter sido destinado
a um novo uso. Estas variáveis, quanto à disposição
dos espaços e funções, são determinantes para
o sistema de ordem espacial que, uma vez alterado, resulta numa nova reestruturação
de todo o projeto.
Assim, a planta baixa e o primeiro pavimento unem-se em um único
volume através de bancadas. Um caminho circular, à meia-altura,
permite percorrer todas as salas e descobrir o jogo de volumes dos diferentes
espaços. Aqui, a totalidade da experiência espacial foi alterada.
A configuração em cruz dos eixos determinantes permanece,
mas a maneira como o visitante deve percorrer esses espaços dá-se
de forma contínua, pelas extremidades de cada ambiente.
Outros caminhos também são oferecidos aos visitantes.
A partir do hall de entrada, longas escadas os conduzem a um nível
rebaixado que se divide em duas partes distintas: salas de exposição
com pé-direito duplo e espaços técnicos situados
sob o hall de entrada e não visíveis em fachada. Nesse nível,
no ângulo sudeste, inicia uma escada de dupla evolução
permitindo acesso a todos os outros pavimentos. O acesso ao primeiro pavimento
também pode ser feito por uma escada localizada no eixo da entrada
e que se prolonga por uma passarela.
Fica claro que o exercício constante de adequação
forma-função faz parte do raciocínio que encontra
a forma em constituir-se.
Outros detalhes foram solucionados somente nessa fase do projeto. Na
fachada leste, uma marquise autoportante foi introduzida para proteger
a entrada do museu. Na fachada oeste, uma estrutura em pórtico
intercepta o volume da base do edifício, funcionando como suporte
da rampa exterior. A grande porta que determina o acesso principal foi
realizada seguindo os modelos de Romchamp e la Tourette (metálica,
esmaltada na superfície e pivotante num eixo vertical). Um estudo
de cores foi realizado com o objetivo de transformar a entrada principal
num grande painel de fundo. O mobiliário da igreja (altar principal
e sua coluna estrutural, altar menor, púlpito, bancos) foi realizado
em concreto branco, destacando esses elementos na composição.
Jogo de luz
Um interessante estudo foi realizado para a disposição da
luz no edifício. Nos primeiros croquis de Le Corbusier, há
na fachada leste uma abertura em forma de rosácea, como designado
pelo próprio arquiteto em suas anotações. Essa solução
permanece até a segunda fase do projeto. Com a retomada da construção
em 2003, a idéia é abandonada, pois comprometeria a estrutura
do tronco de pirâmide. Como solução de iluminação,
pequenos orifícios são introduzidos na fachada leste, desenhando
a constelação de Orion e atuando como pano de fundo do altar
principal.
Outros estudos são realizados objetivando destacar os grandes
momentos da liturgia. Algumas anotações revelam que o óculo,
localizado na fachada oeste, está orientado de maneira a iluminar
o altar principal nas manhãs de Páscoa.
A sobriedade do volume da igreja é modelada por canhões
de luz e múltiplas aberturas que revelam formas nos espaços
interiores. Esse invólucro constitui uma verdadeira cena permitindo
um jogo de luz bastante interessante.
Uma fresta que circunda todo o volume em movimento ascendente, sempre
localizada a 1,83 m de altura em relação ao piso oblíquo
da igreja, revela-se como filtro de luz natural. Vista do exterior, aparece
apenas como um rasgo quase imperceptível. No interior, porém,
alarga-se, difundindo uma luz colorida e irradiada como um projetor. Essas
aberturas são protegidas por calhas de concreto que recuperam as
águas pluviais, integrando água e luz num mesmo elemento
arquitetônico, recombinando dois arquétipos da arquitetura
religiosa: vitrais e gárgulas.
Esses contrastes de cores, luz e sombra completam a volumetria dos espaços
interiores. Essa é uma virtude do arquiteto. Le Corbusier domina
os meios de construção objetivando fins plásticos.
Ele controla os efeitos de relações volumétricas
e aquelas produzidas pela variação de intensidade de luz.
A igreja torna-se um objeto de contemplação, entre a escultura
modelada dos volumes e a pintura abstrata produzida por essas aberturas.
Bibliografia
BOESIGER, Willy. Le Corbusier, Ouvres complètes, 1957-1965.
Zürich: Editions Girsberger-les éditions de l'architecture,
1965.
BOESIGER, Willy. Le Corbusier, Ouvres complètes, Volume
8, Les dernières ouvres. Zürich: Editions Girsberger-les
éditions de l'architecture Artemis, 1970.
BORY, Christophe. Le site Le Corbusier à Firminy. Firminy: Syndicat
d'Initiative de Firminy et Environs, 1995.
COCAGNAC, A.M. Un projet d'église paroissiale de Le Corbusier.
Revista L'Art Sacrée, no 3-4, 1964.
FRANCLIEU, Françoise De. LE CORBUSIER, Carnets, volume 4, 1957-1964.
Paris: Herscher, 1982.
RAGOT, Gilles; DION, Mathilde. Le Corbusier en France. Réalisations
et projets. Paris: Ed.: Electra Moniteur, 1987.
Service Architectural et Culturel de la ville de Firminy. Firminy, Le
Patrimoine Le Corbusier. Firminy: Ed.: imprimerie Daurel, 1995.
Adriana Freire é arquiteta formada pela UFPE (Universidade
Federal de Pernambuco), possui Diploma de Estudos Aprofundados pela UPC
(Universidade Politécnica da Catalunha) na área de Projetos
Arquitetônicos - Forma Moderna. Atualmente é doutoranda
na Universidade Paris 1 - Sorbonne.
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