De certa maneira, Rafael Iglesia, arquiteto argentino radicado na
cidade de Rosário, justifica seu procedimento em relação
ao projeto estrutural do edifício por influência do pensamento
de Sol Lewit, artista plástico norte-americano e um dos expoentes
da arte contemporânea. Lewit diz que "Em um objeto lógico,
cada parte depende daquela que a precede. Estabelece certa seqüência
de acordo com a lógica. Sem dúvida, um objeto racional é
algo em que, a cada momento, é necessário se tomar uma decisão
lógica... é algo como fazer uma reflexão. Em uma
seqüência lógica não existe reflexão.É
um modo de não pensar. É irracional".
Iglesia é um contestador. Embora afirme que o Movimento Moderno
não legou apenas uma estética, mas, principalmente, uma
ética, gosta de desafiar as regras desse movimento assim como gosta
de pôr em dúvida muitos procedimentos arquitetônicos
atuais. Identificado pelos críticos como minimalista, e o Altamira
comprova isso, para ele o edifício é estrutura e apenas
estrutura.
O arquiteto destaca nesta obra dois aspectos do seu projetar: questiona
o que significa uma residência e como se dá seu funcionamento,
ou seja, o programa. Em segundo lugar, preocupa-se com a resolução
estrutural, a forma que sustenta o edifício, o modo como as cargas
chegam ao solo, ou seja, a linguagem da obra.
Iglesia se inspira na interpretação do filósofo
francês Gilles Deleuze a respeito de dois jogos lúdicos com
funções opostas, Xadrez e Go, para explicar os dois caminhos
que existem para projetar. Em uma arquitetura codificada, afirma Iglesia,
todos os elementos funcionam como as peças de xadrez: eles possuem
uma natureza ou propriedades intrínsecas que os fazem como são.
"Uma janela é sempre uma janela, uma porta é uma porta,
uma viga é uma viga e assim acontece com os outros componentes;
todos têm um papel definido. No Altamira busquei o contrário",
diz o arquiteto, enfatizando sua intenção de tratar as vigas
apenas como simples unidades, com funções anônimas
e coletivas como são as peças do Go. Demonstra que as vigas,
neste caso, não têm propriedades próprias, tanto podem
ser parede, janela ou porta e eventualmente trabalham como sustentação,
pois "seus papéis dependem do lugar que ocupam no espaço".
A viga pode ser "o herói ou o mordomo", aparecendo ou
desaparecendo conforme a necessidade.
Rafael Iglesia inicia o processo arquitetônico do prédio
de 12 pavimentos, situado em terreno estreito e profundo, projetando as
estruturas, totalmente de concreto, como um objeto resultante de uma disposição
das vigas. A intenção foi esconder a circulação
vertical, situando-a na parte posterior do prédio. A entrada para
os apartamentos sai do interior da planta para se transformar em uma surpresa,
tal como ocorre em uma casa térrea. Para obter esse efeito foi
necessário defasar certas vigas a fim de que se pudessem chegar
à altura necessária para permitir o acesso ao interior dos
espaços. Como a operação produziu um acomodamento
da estrutura, o funcionamento do sistema estrutural não fica claro
visto dos ambientes internos.
Como se pode observar, a linguagem está circunscrita apenas à
estrutura, isto é, à disposição das vigas.
O edifício não possui aberturas tradicionais. A janela nele
significa apenas "uma entrada de luz". Por outro lado, o vazio
assume a forma de um pórtico, apresentando-se como se fosse estrutura
de sustentação. Os acessos, por sua vez, rompem o que seria
uma seqüência habitual transformando a circulação
pública em pátio privado. Os quebra-sóis afastados
dos vidros protegem a varanda e dão uma outra expressão
à fachada.
Quanto ao programa, Iglesia também o interpreta de forma singular
e descreve ironicamente a relação de uma habitação
comum e de suas funções - é comum identificar
nas plantas um dormitório destinado aos pais ("cuja função
é a procriação") e dois para os filhos, "se
forem de sexo diferente", exemplifica. Iglesia questiona a padronização
das funções e alega que o núcleo familiar não
é mais o mesmo e, portanto, impõe outra ética e outro
planejamento. Assim, a planta se apresenta bastante flexível e
contemporânea.
Todos os apartamentos são revestidos por um piso único
de madeira e se voltam para uma grande varanda protegida na qual estão
o elevador e o acesso ao apartamento. Daí tem-se uma visão
privilegiada do rio Paraná, que banha a cidade.
Há total liberdade quanto às funções: o dormitório
pode ser separado ou não; na cozinha, conjugada com a sala de estar
onde a mesa é a grande protagonista, pode-se cozinhar e comer:
as duas funções são superpostas. A altura da bancada
desse ambiente foi planejada para medir 90 cm, onde fica a pia. Já
onde se cozinha, come-se e se passa roupa, são 78 cm de altura,
medidas diferentes dos padrões comuns. O arquiteto se inspirou
na atração do homem primitivo em se reunir ao redor da fogueira,
relacionando a cozinha a um lugar instintivo, "um grande fogo".
O projeto levou o Prêmio Internacional de Desenho Arquitetônico,
da 15ª Bienal de Quito de 2006.
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