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Internacional

OBJETO ILÓGICO
NESTE EDIFÍCIO, COMPOSTO BASICAMENTE PELO JOGO DAS VIGAS QUE VÃO ALÉM DE FUNÇÕES ESTRUTURAIS E ESTÉTICAS, RAFAEL IGLESIA FAZ UMA SÍNTESE DE SEU PENSAMENTO ARQUITETÔNICO

POR HAIFA Y. SABBAG FOTOS GUSTAVO FRITTEGOTTO

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De certa maneira, Rafael Iglesia, arquiteto argentino radicado na cidade de Rosário, justifica seu procedimento em relação ao projeto estrutural do edifício por influência do pensamento de Sol Lewit, artista plástico norte-americano e um dos expoentes da arte contemporânea. Lewit diz que "Em um objeto lógico, cada parte depende daquela que a precede. Estabelece certa seqüência de acordo com a lógica. Sem dúvida, um objeto racional é algo em que, a cada momento, é necessário se tomar uma decisão lógica... é algo como fazer uma reflexão. Em uma seqüência lógica não existe reflexão.É um modo de não pensar. É irracional".

Iglesia é um contestador. Embora afirme que o Movimento Moderno não legou apenas uma estética, mas, principalmente, uma ética, gosta de desafiar as regras desse movimento assim como gosta de pôr em dúvida muitos procedimentos arquitetônicos atuais. Identificado pelos críticos como minimalista, e o Altamira comprova isso, para ele o edifício é estrutura e apenas estrutura.

O arquiteto destaca nesta obra dois aspectos do seu projetar: questiona o que significa uma residência e como se dá seu funcionamento, ou seja, o programa. Em segundo lugar, preocupa-se com a resolução estrutural, a forma que sustenta o edifício, o modo como as cargas chegam ao solo, ou seja, a linguagem da obra.

Iglesia se inspira na interpretação do filósofo francês Gilles Deleuze a respeito de dois jogos lúdicos com funções opostas, Xadrez e Go, para explicar os dois caminhos que existem para projetar. Em uma arquitetura codificada, afirma Iglesia, todos os elementos funcionam como as peças de xadrez: eles possuem uma natureza ou propriedades intrínsecas que os fazem como são. "Uma janela é sempre uma janela, uma porta é uma porta, uma viga é uma viga e assim acontece com os outros componentes; todos têm um papel definido. No Altamira busquei o contrário", diz o arquiteto, enfatizando sua intenção de tratar as vigas apenas como simples unidades, com funções anônimas e coletivas como são as peças do Go. Demonstra que as vigas, neste caso, não têm propriedades próprias, tanto podem ser parede, janela ou porta e eventualmente trabalham como sustentação, pois "seus papéis dependem do lugar que ocupam no espaço". A viga pode ser "o herói ou o mordomo", aparecendo ou desaparecendo conforme a necessidade.

Rafael Iglesia inicia o processo arquitetônico do prédio de 12 pavimentos, situado em terreno estreito e profundo, projetando as estruturas, totalmente de concreto, como um objeto resultante de uma disposição das vigas. A intenção foi esconder a circulação vertical, situando-a na parte posterior do prédio. A entrada para os apartamentos sai do interior da planta para se transformar em uma surpresa, tal como ocorre em uma casa térrea. Para obter esse efeito foi necessário defasar certas vigas a fim de que se pudessem chegar à altura necessária para permitir o acesso ao interior dos espaços. Como a operação produziu um acomodamento da estrutura, o funcionamento do sistema estrutural não fica claro visto dos ambientes internos.

Como se pode observar, a linguagem está circunscrita apenas à estrutura, isto é, à disposição das vigas. O edifício não possui aberturas tradicionais. A janela nele significa apenas "uma entrada de luz". Por outro lado, o vazio assume a forma de um pórtico, apresentando-se como se fosse estrutura de sustentação. Os acessos, por sua vez, rompem o que seria uma seqüência habitual transformando a circulação pública em pátio privado. Os quebra-sóis afastados dos vidros protegem a varanda e dão uma outra expressão à fachada.

Quanto ao programa, Iglesia também o interpreta de forma singular e descreve ironicamente a relação de uma habitação comum e de suas funções - é comum identificar nas plantas um dormitório destinado aos pais ("cuja função é a procriação") e dois para os filhos, "se forem de sexo diferente", exemplifica. Iglesia questiona a padronização das funções e alega que o núcleo familiar não é mais o mesmo e, portanto, impõe outra ética e outro planejamento. Assim, a planta se apresenta bastante flexível e contemporânea.

Todos os apartamentos são revestidos por um piso único de madeira e se voltam para uma grande varanda protegida na qual estão o elevador e o acesso ao apartamento. Daí tem-se uma visão privilegiada do rio Paraná, que banha a cidade.

Há total liberdade quanto às funções: o dormitório pode ser separado ou não; na cozinha, conjugada com a sala de estar onde a mesa é a grande protagonista, pode-se cozinhar e comer: as duas funções são superpostas. A altura da bancada desse ambiente foi planejada para medir 90 cm, onde fica a pia. Já onde se cozinha, come-se e se passa roupa, são 78 cm de altura, medidas diferentes dos padrões comuns. O arquiteto se inspirou na atração do homem primitivo em se reunir ao redor da fogueira, relacionando a cozinha a um lugar instintivo, "um grande fogo". O projeto levou o Prêmio Internacional de Desenho Arquitetônico, da 15ª Bienal de Quito de 2006.

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