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Entrevista

PALAVRAS DE ARQUITETO
AO LANÇAR LIVRO COM COLETÂNEA DE CRÔNICAS, SERGIO TEPERMAN FALA A AU SOBRE AS ETERNAS QUESTÕES DA ARTE DE VIVER - E COMO SOBREVIVER COMO ARQUITETO

POR SIMONE SAYEGH FOTO MARCELO SCANDAROLI

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Sergio Teperman é um arquiteto talentoso e bem-sucedido. Mas não sonhava com arquitetura desde criança - queria ser diplomata, para poder viajar muito, conhecer o mundo. Sua mãe o desencorajou: "ninguém vai querer um embaixador judeu", disse.

Em vista disso, o jovem Teperman optou pela arquitetura e foi estudar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em 1956. Mas não deixou por menos e, tão logo se formou, tratou de viajar. Conseguiu bolsas de estudo para ficar pela Europa por bons seis anos e ao voltar, em 1966, teve oportunidade de se dedicar a outra de suas atividades favoritas: escrever. Não parou mais. Participou da formação do jornal Arquiteto, junto com Fábio Penteado, e mais tarde passou a colaborar regularmente com as revistas Projeto e AU. Hoje mantém em AU a coluna Crônicas Agudas, em que reflete sobre o fazer arquitetura e o ser arquiteto, com muito conhecimento de causa, algumas doses de humor e, às vezes, de acidez e de amargura. Seus textos deixam antever uma autocrítica que vai além dos corretos dogmas preestabelecidos. "Sou arquitetonicamente incorreto", declara.

Quando não havia mais bolsas de estudo disponíveis, Teperman resolveu, por fim, dedicar-se à arquitetura. Foi então que pôde aplicar de fato tudo o que viu, viveu e aprendeu nos anos que passou fora do País. Seu escritório tornou-se uma máquina de idéias, de onde saíam quatro projetos executivos por mês, todos voltados para o setor de telecomunicações. Depois desse tempo trabalhando loucamente, "era uma pauleira", como diz, Teperman expandiu seu horizontes e projetou edifícios marcantes como o do Centro Cultural Alumni, a sede do Conselho Regional de Química, em São Paulo, edifícios para a rede Sesc (de São Carlos e Sorocaba, no interior paulista), um cyberdata para a Brasil Telecom e a sede da Sistel em Brasília, este último premiado como a melhor obra de arquitetura de Brasília dos últimos dez anos.

Por ocasião do lançamento de seu livro de crônicas, Sergio Teperman recebeu a reportagem da AU em seu escritório, para uma conversa sobre jornalismo, arquitetura, e como ele sempre diz, "mais importante que tudo", sobre a vida.

aU VOCÊ ESTÁ LANÇANDO UM LIVRO QUE COMPILA CRÔNICAS SOBRE ARQUITETURA ESCRITAS AO LONGO DE MUITOS ANOS. COMO É O LIVRO? O QUE SE PODE ESPERAR DELE?

SERGIO TEPERMAN São crônicas que tratam de cidades, os cenários onde tudo se desenrola, e em geral do ponto de vista da arquitetura. Quando pensei sobre esse projeto me deparei com algumas questões: as crônicas são datadas e os assuntos um pouco repetitivos. Depois entendi que a arquitetura e seus assuntos são eternos, ultrapassam datas, mesmo sendo relativamente limitados. A resposta às minhas inquietações veio do resultado de duas pesquisas idênticas do American Institute of Architects, realizadas na época de sua fundação e no seu centenário. Nas duas edições o Instituto queria saber qual era o grande problema profissional que os arquitetos enfrentavam. E as respostas, com um intervalo de cem anos, eram idênticas: nos pagam pouco, nos dão pouco tempo para o trabalho e ninguém realmente sabe o que a gente faz. Aí eu me convenci de que, em arquitetura, nem as crônicas são datadas, nem os artigos são repetitivos.

aU O QUE O LEVA A ESCREVER? QUAL O IMPULSO?

TEPERMAN Acredito que escrever sobre arquitetura também é uma colaboração com essa profissão tão individualista, uma atitude de classe - muita ou pouca classe, dependendo de quem o faz. Os problemas universais da profissão não mudaram, mas aumentaram de tamanho, de complexidade e de freqüência, e precisam ser continuamente tratados. E não penso como alguns jornalistas, que sentem que escrevem nas costas dos anúncios.

aU COMO COMEÇOU ESSA GRANDE VIAGEM AO MUNDO DO JORNALISMO?

TEPERMAN Eu sempre gostei de escrever, mas a primeira chance foi quando voltei ao Brasil em 66, depois de anos viajando pela Europa. Uma editora norte-americana me chamou para fazer uma revista aqui. Eu ganhava muito bem, mas depois de um ano e meio encerraram a publicação e me pagaram para entrevistar arquitetos norte-americanos fora do Brasil. Aproveitei e voltei para a Finlândia por mais um ano. Depois que cheguei ao Brasil em definitivo, o Alfredo Paesani criou o sindicato dos arquitetos e resolveu editar um jornal. Para isso chamou o Vicente (Wissenbach), seu cunhado, e lembraram que eu tinha feito a revista. Foi assim que eu comecei a conhecer política de entidades e a editar o jornal Arquiteto. Mas vez por outra eu escrevia sobre assuntos que me incomodavam. Obviamente fui colaborador da revista Projeto, a partir de sua formação em 1978. Já em 1985 me chamaram para colaborar em AU, onde entre idas e vindas continuo até hoje.

aU EXISTE CRÍTICA POSSÍVEL EM ARQUITETURA?

TEPERMAN Eu faço crônicas, mas sou capaz de fazer crítica. Eu acredito que se possa fazer crítica de cinema e de pintura, sem ser um cineasta ou pintor atuante. Porém, para se fazer crítica de arquitetura é necessário não só conhecer a história da arquitetura mas principalmente ser um arquiteto atuante no mercado. Só assim se conhece os meandros e os porquês da profissão. Ao contrário dos que as pessoas pensam, eu não escrevo para criar polêmica. Escrevo o que penso, portanto não sou arquitetonicamente correto. Os arquitetos não têm coragem de falar a metade do que pensam. Escrevi um artigo sobre condomínios fechados, que são considerados um transtorno para a cidade, assim como os shoppings fechados, porque bloqueiam áreas da cidade. Mas me diga uma coisa: se você pudesse não viveria em um condomínio fechado? Você não vai aos shoppings? Se ninguém gostasse de shopping e de condomínio fechado ninguém construiria. A questão é essa.

aU JÁ TEVE DESAFETOS?

TEPERMAN Uma vez uma arquiteta mandou uma mensagem reclamando do que eu havia escrito sobre o governo atual em um artigo de AU. A revista publicou a carta e eu respondi agradecendo a leitora e citei Voltaire: "Posso não concordar com uma palavra do que dizeis, porém defenderei até a morte seu direito de dizê-lo". Outra vez encontrei alguém que também escrevia para a AU e que me disse adorava escrever pois tinha feito muitos amigos. Respondi que talvez seus artigos fossem melhores dos que os meus.

aU COMO FOI SUA FORMAÇÃO NOS FINS DA DÉCADA DE 50 NA FAUUSP, ÉPOCA EM QUE O ARQUITETO E SEU PROFESSOR, VILANOVA ARTIGAS, JÁ COMEÇAVAM A PROJETAR E CONSTRUIR EM CONCRETO APARENTE?

TEPERMAN Entrei na FAU em 1956 e sai em 1960. Quando eu estava no terceiro ou quarto ano apareceram as primeiras casas famosas do Artigas. Quando eu as vi pela primeira vez fiquei chocado, parecia que a casa não estava terminada, era instintivo não gostar. Veja bem, eu adorava o Artigas, os espaços dele eram fantásticos, mas ele era muito melhor como professor. Depois de formado veio a moda do concreto aparente e junto com ela razões mais teóricas e práticas sustentaram a minha posição de desafeto: o pessoal fazia uma tremenda viga de concreto e compartimentava tudo lá dentro. Logo depois de formado já comecei a trabalhar em projetos de escolas, prédio de apartamentos, etc. Naquela época havia poucos arquitetos e a profissão estava sendo bastante divulgada por causa de Brasília. Eu tinha bastante serviço, mas quando surgiu a primeira bolsa de estudos fora do Brasil, larguei tudo e fui embora.

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