A
história da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(FMUSP) começa no final do século 19. O edifício, ainda
hoje em uso e localizado no bairro de Pinheiros, só foi inaugurado
em 1931. Embora o escritório de Ramos de Azevedo tenha sido responsável
pela execução da obra, o projeto da escola ficou a cargo de
uma comissão de professores da própria faculdade, que contaram
com o auxílio de um arquiteto, João Serato. Desenvolvido,
portanto, quando Frank Lloyd Wright já tinha criado a primeira Taliesin
(1911-1925), no Wisconsin, e Le Corbusier a Villa Savoye (1928), o projeto
da escola foi elaborado com inspiração no estilo Tudor, o
mais observado pelas escolas tradicionais da Inglaterra e dos Estados Unidos.
A opção talvez seja uma indicação do controverso
apego ao historicismo e à cópia caricata de modelos estrangeiros,
algo observado com freqüência entre a elite paulistana. Mas essa
é uma outra história. Publicamos neste número de AU
o resultado do projeto de restauro e requalificação
da FMUSP, tombada em 1981 pelo Condephaat (Conselho de Defesa
do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico
e Turístico do Estado de São Paulo) e objeto de concurso em
1998, vencido pelo escritório Andrade Morettin. Além de demolir
todos os anexos construídos ao longo de quase 70 anos de operação,
os arquitetos decidiram implantar novas instalações, mais
discretas e contemporâneas, feitas de aço e vidro, que procuram
dialogar com o prédio histórico, que foi meticulosamente restaurado
pela equipe de Julio Katinsky – o arquiteto e professor recebeu um
convite da antiga direção da FMUSP para participar dos trabalhos
de recuperação. O teatro e a biblioteca, ainda que instalados
no edifício histórico, passaram por intervenções
mais contundentes. No teatro, foram retirados todos os ornamentos e a argamassa
preexistente, expondo a alvenaria. As novas estruturas são metálicas
e aparentes, diferenciando-se da original. A biblioteca, trabalhada pela
equipe do arquiteto Paulo Bruna, ganhou paredes de vidro que permitem a
integração visual com as áreas de circulação
interna do prédio. Pode-se dizer que a intervenção
na FMUSP se encerra em um momento histórico no qual a discussão
sobre a preservação, a conservação e o restauro
dos bens culturais ganha cada vez mais espaço na sociedade. Evidencia
também, por outro lado, que o investimento em obras do gênero
constitui oportunidade rara de implantar algo cuja expressão arquitetônica
seja marco de desenvolvimento e contemporaneidade.