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Brasil

Poliedros regulares
O projeto da vila da barca busca se afastar da idéia do bloco de apartamentos padronizado e repetido. suas unidades são individualizadas, mas se articulam de maneira a formar o conjunto

POR ÉRIDE MOURA FOTOS OCTAVIO CARDOSO

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Símbolo da resistência urbana à expansão da privatização das orlas da Baía do Guajará e do rio Guamá, em Belém, a comunidade formada pelas 400 famílias moradoras das palafitas da Vila da Barca foi recompensada em dezembro de 2007 com a inauguração da primeira fase de um ambicioso projeto de habitação social para a área. Desde a década de 1970, os habitantes recusavam-se a ceder o terreno ocupado às margens da baía para as empresas que constituíram, aos poucos, a grande barreira física que isola Belém de suas águas. Em 2003, a Sehab (Secretaria de Habitação de Belém) desenvolveu junto aos moradores e com apoio de entidades municipais e federais um amplo projeto socioambiental para proporcionar a inclusão social da comunidade. A Vila da Barca já está sendo identificada como uma forte referência para a área do "habitat" ribeirinho na Amazônia urbana.

A precariedade do assentamento original de Vila da Barca, sobre palafitas, desaconselhava um projeto de urbanização nos moldes tradicionais. A solução apontada pela prefeitura, após estudos e levantamentos de campo, consistiu no aterramento da área e na construção de um conjunto habitacional. Um cronograma de ações foi elaborado para permitir a execução dos trabalhos em fases sucessivas, de modo que o remanejamento da população para moradias provisórias fosse feito por etapas, com o reassentamento imediato após a conclusão.

Na organização e arranjo das quadras e das edificações, o projeto do arquiteto Luiz Fernando de Almeida Freitas introduziu elementos conhecidos da arquitetura urbana, mas procurou respeitar as características da área. Assim, as edificações e os espaços abertos do conjunto reinterpretam os paradigmas preexistentes, com um desenho de alta densidade, mas de baixa altura, o que permite a manutenção da conexão com a terra e com a vizinhança.

A implantação das edificações foi pensada em consonância com os espaços públicos de convivência e lazer, de comércio e serviços, os institucionais, e os destinados à prática de esportes. Além de três grandes praças centrais, foram previstos pequenos largos incorporados aos blocos habitacionais e fazem a ligação e o acesso entre as moradias. O traçado procurou privilegiar a mobilidade no interior do conjunto - antes muito precária, por conta das palafitas - e propiciar um acesso fácil aos bairros vizinhos.

A escolha da tipologia das 624 unidades habitacionais do conjunto recaiu sobre moradias com dois pavimentos, cada uma com 65 m², dois quartos, sala, banheiro e área de serviço. Foram projetadas três alternativas de habitação, combinadas em sete blocos diferentes. A superposição, sobreposição e geminação das unidades geram blocos de dois e três pavimentos envolvidos por passagens e ruas que contornam praças e largos.

Na primeira etapa, inaugurada no final de 2007, foram entregues 18 blocos com 136 unidades habitacionais e a primeira das três grandes praças, com tratamento paisagístico específico, estação de tratamento de esgoto sanitário, além da infra-estrutura urbana. A próxima etapa será entregue em dezembro de 2008, e a terceira e última, até dezembro de 2009.

Unidade na diversidade
As unidades habitacionais configuram poliedros regulares gerados por operações de adição e subtração a partir da forma-base do cubo. De acordo com Freitas, "a forma pura e monolítica do cubo-caixa foi seccionada e repartida em pequenas caixinhas, reagrupadas em novos arranjos formais, gerando objetos multifacetados pela junção de partes menores". Ele explica que os recuos e projeções introduzidos na forma-base, tanto no plano horizontal quanto no vertical, produzem um grau de complexidade geométrica que permite, mesmo com as repetições sucessivas das unidades, configurações espaciais sempre distintas. O aparente desalinhamento de suas edificações, sugerido pelos avanços e recuos das fachadas, contribui para amenizar a regularidade geométrica do traçado das ruas.

Na cobertura, o uso de lajes inclinadas pré-moldadas de concreto e recobertas por telhas cerâmicas permitiu alternar a inclinação dos panos de telhado, acentuando ainda mais a diversidade morfológica do conjunto.

O jogo de alternâncias na inclinação dos panos de cobertura, associado à movimentação dos planos que compõem a forma-base das unidades habitacionais, propiciou a criação de um tecido urbano rico e heterogêneo.

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