aU ATÉ O LULA GANHAR AS ELEIÇÕES
PARA A PRESIDÊNCIA E FORMAR O MINISTÉRIO DAS CIDADES...
ROLNIK Até o Lula
ganhar a eleição e convidar o Olívio Dutra para o
Ministério das Cidades. O Dutra, por sua vez, me convidou para
assumir a Secretaria Nacional de Programas Urbanos, num movimento que
era muito a idéia de uma secretaria para implementar o Estatuto
da Cidade, votado em 2000.
aU DO QUAL A SENHORA TINHA PARTICIPADO
ATIVAMENTE....
ROLNIK Sim, participei
intensamente do Estatuto da Cidade. Desde a primeira versão, da
emenda popular na Constituição, acompanhei as discussões
no Congresso, e depois a tramitação...
aU MAS O OLÍVIO CAIU E O
MÁRCIO FORTES ASSUMIU ...
ROLNIK Exato. Era 2005
e estávamos em plena campanha pela implantação dos
planos diretores participativos, que era o elemento fundamental para implementação
do Estatuto. Então, naquele momento, achei que era importante e
necessário terminar todo o trabalho e ficar até o prazo
marcado para a apresentação dos planos pelas cidades, que
era outubro de 2006. Fiquei até o final do ano, e só então
pedi para sair.
aU NÃO DAVA MAIS PARA CONTINUAR?
ROLNIK Saí por
duas razões. Desde que o Odílio Dutra e a Ermínia
Maricato saíram com suas equipes, já não era a mesma
coisa, claro. A nova equipe que assumiu estava ligada ao PP (Partido Popular)...
Enfim, são as contingências de um governo de coalizão,
de uma base governista... Mas, evidentemente, as prioridades e a linha
fundamental do Ministério deixaram de ser a agenda da reforma urbana
e da construção de uma nova forma de fazer política
urbana no País. A agenda passou a ser a da distribuição
de recursos para moradia e saneamento, que também é importante.
Mas não era o meu perfil. O meu é mais de despertar uma
política, de inovar na política, de discutir política
fundiária, de trabalhar a reforma urbana. Assim, me pareceu que
as condições políticas para que isso pudesse ser
feito estavam limitadas naquele momento e achei que era melhor voltar
para a Universidade, para a reflexão. Acho importante que o intelectual
ligado à política habitacional, à política
urbana, tenha uma prática de pensar, pesquisar, formular, experimentar,
trabalhando junto ao governo, assessorando o governo, mas também
ter a oportunidade de avaliar criticamente, para poder repensar. Durante
20 anos trabalhamos numa certa direção, implantamos muita
coisa, tivemos grandes avanços, mas também muitos problemas,
e acho que é hora de fazer um balanço disso tudo.
aU MAS NO FINAL, COMO AVALIA SUA
EXPERIÊNCIA NO MINISTÉRIO?
ROLNIK Apesar do pouco
tempo e dos poucos recursos de que dispúnhamos, conseguimos caminhar.
Claro que tem muita coisa ainda para caminhar, mas avançamos. Começamos
a formular uma política para o País, conseguimos avançar
muito na área do planejamento urbano. Tiramos o planejamento urbano
do limbo, o assunto voltou a ser debatido no País, agora comprometido
com uma gestão democrática e não com um governo tecnocrático.
Acho que se conseguiu colocar as políticas novamente de pé,
de saneamento básico, de habitação de interesse social.
Foi eleito um Conselho Nacional das Cidades que, junto com o Ministério,
tem suas políticas. Enfim, se estabeleceu um endereço de
referência para a política urbana em Brasília. Acho
que tivemos enormes avanços com o Ministério das Cidades
e, para mim, particularmente, embora a experiência tenha sido duríssima,
foi extremamente gratificante. Saí satisfeita com o que foi feito,
com o que deu para aprender, com tudo o que deu para conhecer do Brasil,
para entender o que não entendíamos...
aU FOI UM DESAFIO LIDAR COM AS NOSSAS
DIVERSIDADES?
ROLNIK Veja, apesar de
muita experiência paulistana, eu já tinha trabalhado como
consultora em vários pontos do País, como Belo Horizonte,
Salvador, Recife, Natal, Campo Grande, e achava que conhecia outras realidades.
Na verdade conhecia muito pouco, mas dava para ter uma idéia da
diversidade do Brasil. Mas a política urbana tradicional ignora
a diversidade e as diferenças, e trabalha com uma matriz única.
Acho que a experiência foi muito importante para aprender a entender
as diversidades... E agora vou ter que trabalhar com diversidades bem
maiores...
aU ENTÃO, EM CERTO SENTIDO,
A EXPERIÊNCIA NO MINISTÉRIO DAS CIDADES FOI UM AQUECIMENTO
PARA O TRABALHO NAS NAÇÕES UNIDAS...
ROLNIK Eu tenho trabalhado
em outros países como em El Salvador, Costa Rica, Equador. Dei
cursos e palestras para profissionais da área na Argentina, no
Uruguai, no Chile. Nesse campo específico, eu conheço razoavelmente
a América Latina. Também acompanhei os Fóruns Urbanos
Mundiais junto ao UN-Habitat, desde Istambul. Então já estou
exposta a uma visão mais internacional da questão, mas o
mundo asiático e o mundo árabe ainda são inteiramente
desconhecidos para mim...
aU E NO MOMENTO, MUITOS PAÍSES
EM VIAS DE DESENVOLVIMENTO ESTÃO PASSANDO POR UMA FORTE URBANIZAÇÃO...
ROLNIK Acho que as minhas
prioridades serão África e Ásia, que passam por um
processo muito rápido e violento de urbanização.
O que nós vivemos na América Latina nos anos 1950, com a
migração dos campos para as cidades, os países africanos
e asiáticos estão passando agora. Os países daqueles
continentes serão a prioridade da relatoria, pois a idéia
é tentar evitar que eles cometam os mesmos erros ocorridos na América
Latina. Mostraremos a nossa realidade, os resultados da falta de uma política
preventiva, para que eles evitem seguir pelo mesmo caminho. Porque no
Brasil, só hoje se pensa em política preventiva, nunca se
imaginou que nossas cidades se transformariam nessa loucura toda. Minha
prioridade será discutir quais as políticas urbanísticas
e de acesso ao solo urbano serão possíveis na Ásia
e na África para que se evite o caos nas grandes cidades.
aU EM ENTREVISTA PARA A GRANDE IMPRENSA
PAULISTA, A SENHORA CRITICOU A PROLIFERAÇÃO DE CONDOMÍNIOS
NAS CIDADES BRASILEIRAS. INFELIZMENTE, O PROBLEMA NÃO É
SÓ BRASILEIRO. COM O CRESCIMENTO DA VIOLÊNCIA, ESSE TIPO
DE MORADIA É ADOTADO HOJE EM VÁRIOS PAÍSES, TANTO
DA ÁFRICA QUANTO DO ORIENTE MÉDIO. ISSO TAMBÉM SERÁ
TEMA DE SUAS PREOCUPAÇÕES?
ROLNIK É uma epidemia!
Vou entrar com a minha militância anticondomínios! Acho que
não poderemos ter direito à moradia se não se fizer
cidades mais includentes e coesas. Esse modelo de apartação
social, de segregação, todo em gueto, com os ricos fechados
em fortaleza fortificada, só tem exacerbado a violência,
o mal-estar, o desequilíbrio econômico-social e ambiental
de nossa sociedade. Nós vamos ter de aprender a conviver e compartilhar
os espaços da cidade. Eu não vejo uma solução
que não passe por isso. E acredito que essa é uma utopia
possível, a humanidade tem que colocar isso como utopia. Da mesma
maneira que se quer colocar como utopia a salvação do planeta
de uma ruína ambiental, acho que deveríamos também
colocar a utopia de salvar o planeta da ruína sócio-político-territorial
para a qual estamos caminhando. Vivemos um momento de crise, e a crise
é sempre um excelente momento para se repensar o modelo de civilização.
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