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Um arquiteto no exílio
POR ANAT FALBEL

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NASCIDO NA POLÔNIA, LUCJAN KORNGOLD PÔDE, DESDE O INÍCIO DE SUA FORMAÇÃO, DESENVOLVER QUASE TODOS OS GRANDES TEMAS DA ARQUITETURA MODERNA, DOS PROTÓTIPOS DA HABITAÇÃO PRÉ-FABRICADA AO DESIGN DE OBJETOS, DOS EDIFÍCIOS ALTOS AOS COMPLEXOS INDUSTRIAIS. SUA HISTÓRA É, ASSIM COMO A DE TANTOS OUTROS DE SUA GERAÇÃO - IMIGRANTES EXILADOS NAS AMÉRICAS POR CONTA DOS FACISMOS EUROPEUS -, FASCINANTE E ENCAPUZADA DE OUTRAS HISTÓRIAS PARTICULARES

Os estudos sobre o impacto das migrações, imigrações e exílios surgiram na esteira da crise da "grande narrativa", conforme expressão de Jean François Lyotard, e a decadência dos projetos nacionais de modernização. Particularmente, a contribuição dos exilados europeus na América no período do entre-guerras, assim como o seu papel de agentes no processo de construção da modernidade dos países latino-americanos, vem sendo discutida a partir de novas chaves - não mais interdisciplinares, mas transdisciplinares - nos mais diversos campos da expressão artística, das artes e da literatura, compreendendo ainda a sua participação no empresariado industrial e a sua inserção na esfera pública através da política.

As perspectivas multiculturais que concorreram para esse despertar que alcançou também a contribuição dos arquitetos imigrantes na transformação da paisagem dos grandes centros urbanos da América Latina e especificamente no Brasil, justificam-se a partir dos conceitos de hibridismo e alteridade, formulações instrumentais para o entendimento do processo heterogêneo de intercâmbio cultural, bem como da coexistência de outras dimensões multiculturais na aparente homogeneidade da idéia de cultura nacional.

As mesmas formulações também abriram espaço para a discussão das razões e das formas pelas quais certas produções foram incluídas, marginalizadas ou excluídas, porque não correspondiam a um ideal cultural preconcebido, comprometido na formação de uma narrativa nacional, conforme nos mostram as reavaliações da historiografia da arquitetura moderna no Brasil e seus mais importantes proponentes, entre os quais não podemos deixar de mencionar Lucio Costa, responsável pela elaboração de uma relação figural entre o nosso passado colonial e a modernidade arquitetônica.

Lucjan Korngold: o arquiteto imigrante
O objeto desse ensaio é um arquiteto imigrante de origem polonesa, Lucjan Korngold (1897-1963). Korngold nasceu em Varsóvia, no seio de uma elite judaica cosmopolita e polonizada, cuja problemática inserção na sociedade polonesa do período do entre-guerras poderia ser expressa pela mesma definição sugerida por Lyotard para os intelectuais alemães que representaram "os objetos do não-lugar".

Parafraseando o filósofo francês, poderíamos afirmar que poloneses, mas não-poloneses; judeus, mas não-judeus, essa intelligentsia da qual fazia parte o poeta Julian Tuwin, amigo de Korngold, carregava, de certa forma, a consciência da desesperança de qualquer possível integração na sociedade mais ampla. Desesperança que, de certo modo, se confirma na solidão do exílio sem retorno de nosso arquiteto, conforme procuramos mostrar.

Korngold iniciou seus estudos em 1917, na recém-criada Faculdade de Arquitetura da Escola Politécnica de Varsóvia (1915), apesar das restrições impostas ao ingresso da minoria judaica nas universidades polonesas pelos numerus clausus.

Nessa mesma escola, ele se formou entre 1921 e 1922, com aqueles que iriam compor a vanguarda mais atuante da arquitetura polonesa durante as décadas de 20 e 30, entre os quais Szymon (1893-1964) e Helena (1900-1982) Syrkus, representantes poloneses no Ciam entre 1928 e 1959.

Reunidos inicialmente em torno do grupo Blok e a seguir do Praesens, essa segunda geração de arquitetos poloneses amadureceu junto à vaga da "revolução arquitetônica" que, atravessando a Europa, foi responsável pela criação de um bloco fundado nas relações tecidas no interior do Ciam, nas primeiras exposições e concursos de arquitetura moderna na Europa e nas Américas, nos contatos pessoais mantidos por correspondências, viagens e emigrações entre um país e outro, ou ainda na infinidade de publicações especializadas que circulavam pelo continente promovendo a arquitetura moderna - incluindo a produção polonesa - como as italianas Casabella e Architettura, e a francesa L'Architecture d'Aujourd'hui que, em seu primeiro número, já incluía um texto de S. Syrkus (1930).

Mesmo sem o engajamento dos arquitetos progressistas na sua associação da modernidade nas artes e na arquitetura com um projeto de transformação social e política, Korngold integrou essa vanguarda. Esteve, por exemplo, presente nos encontros internacionais junto à delegação polonesa na 5ª Trienal de Milão (1933), e na Exposição Internacional de Paris (1937). Ao mesmo tempo, seus projetos eram publicados não apenas nas revistas estrangeiras já citadas, mas, em especial, nas revistas polonesas como a Architektura i Budownictwo e Arcady.

Também é importante destacar que esse período, que coincidiu com a afirmação do estilo internacional na Polônia, também coincidiu com a emancipação do país (1918) depois de 120 anos de dominação estrangeira. Nesse contexto, o projeto de uma modernidade cultural polonesa acompanhou o projeto de uma modernidade do estado em seu fervor nacionalista. Um processo que encontra certos paralelos no Brasil do entre-guerras, incluso na adoção de um modelo autoritário, de modo que a busca por uma linguagem nacional moderna tanto na arquitetura quanto nas demais artes foi permeada por referências da tradição vernacular.

Algumas das obras do período polonês de Korngold foram marcadas por essa atmosfera cultural, sem dúvida filtrada pelas vivências do arquiteto a partir de sua posição singular, seja na variedade de texturas e riqueza dos materiais, características da arquitetura polonesa, mas especialmente na apropriação de elementos compositivos da arquitetura vernacular incorporados como claras citações de uma tradição construtiva - prática que parece ter sido importada para duas dentre suas primeiras obras brasileiras: a residência H. Pikielny (1941), e a residência Z. Leirner (1945), construídas para comitentes de origem polonesa.

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