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Crônicas Agudas

CIRCULAR: VERBO INTRANSITIVO
TERRA EM TRÂNSITO, SEM RETORNO ABAIXO

POR SERGIO TEPERMAN

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Pode ser covardia utilizar a cidade de São Paulo, "o maior acampamento do mundo", segundo o urbanista Padre Lebret, como exemplo para um artigo sobre trânsito. A questão afeta todas as grandes cidades brasileiras só que, ao contrário de Camus, para quem o inferno são os outros, para São Paulo, o inferno é aqui mesmo.

Atualmente a questão do trânsito nas nossas cidades atingiu proporções catastróficas e não há maneira de resolvê-la por décadas. Todas as autoridades – e principalmente as pseudo-autoridades – dizem que a solução para o trânsito é o transporte coletivo.

Mas se esquecem de completar: para as cidades de países ricos ou para as cidades de países pobres que, por milagre, já têm uma rede completa de metrô, subway, underground, tube ou qualquer outra coisa do gênero – coisa raríssima. Porque, hoje, é mais fácil e barato construir uma Apollo 100 tripulada e ir a Júpiter do que construir um metrô – exceto para a China, que em chinês se chama adequadamente Império do Meio, cuja economia é "democraticamente" planejada, e onde a grana agora rola.

Um sistema de ônibus pode servir para uma aldeia organizada e arrumadinha como Curitiba, mas para qualquer cidade de grande porte é um atraso de vida.

Literalmente. Você jamais chegará na hora se não sair um tempo enorme antes do seu compromisso.

Nas grandes cidades, como Londres e Nova York, os que usam os ônibus são pessoas que fazem pequenos trajetos ou aposentados e ricos que podem se dar ao luxo de apreciar calmamente a paisagem da cidade, sem previsão de tempo. O resto da população usa metrô (o tempo normal para cruzar Londres de carro varia de seis a oito horas, imagine de ônibus). Em Paris o metrô também é ótimo, porém a tradicional higiene francesa desaconselha seu uso por pessoas de olfato razoável.

Além do tradicional prato de Paris, "la baguette au sovac".

Sempre me pergunto se os entendidos que dizem que a solução para São Paulo é o transporte coletivo (entenda-se ônibus, porque na velocidade de construção do metrô, ele não existe), quantas vezes por ano esses profetas andam de ônibus? Aí veriam uma fila ininterrupta de monstros, uns lotados, outros vazios, todos indo para um mesmo lugar em trajetos superdiretos.

Você seria processado pela Sociedade Protetora dos Animais se dissesse que os usuários de ônibus são transportados como gado. Nenhum boi é transportado com esse desconforto.

Os passageiros que estão na região sul e se dirigem a sudeste fazem o lógico trajeto Sul/ Oeste/Norte/Leste/Sudeste gastando três horas e passando pelas avenidas mais congestionadas para cobrir um trecho que não demandaria mais do que 15 minutos – de carro. Além disso, entrarão por um degrau alto, ao lado de um motor fervendo, para ficar de pé em cima de uma estrutura de chassis de caminhão, alta, tremelicante, barulhenta, suja, atulhada de gente, luz faltando, radinhos e celulares falando do jogo do Corinthians e com bancos confortáveis como alguns premiados em concursos de design.

Colin Buchanan, maior autoridade mundial em trânsito (e que morreu atropelado!) dizia que as pessoas só abandonarão seus carros quando dispuserem de um sistema rápido, disseminado, confiável e confortável como o metrô de Londres ou exagerando, o de Moscou, cidade cujas estações de metrô pareciam hotéis de luxo e os hotéis de luxo pareciam estações de metrô, principalmente pelo serviço.

Buchanan afirmava que a questão do trânsito se trata com EEE, de Engineering, Enforcement, Education. Aqui necessitamos PPP: planejamento, polícia, paciência.

Em algumas questões não estamos sozinhos. Em Calcutá ou Mumbai, exemplos supremos da bagunça, crianças podem ser atropeladas, mas não vacas. E na Itália é terminantemente proibido atropelar as pessoas em cima da faixa.

Maneiras seguras de se atravessar uma rua:
- em Nova York: com uma criança
- em Paris: com uma mulher bonita
- em Berlim: com um cachorro.

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