Pode ser covardia utilizar a cidade de São Paulo, "o maior
acampamento do mundo", segundo o urbanista Padre Lebret, como exemplo
para um artigo sobre trânsito. A questão afeta todas as grandes
cidades brasileiras só que, ao contrário de Camus, para
quem o inferno são os outros, para São Paulo, o inferno
é aqui mesmo.
Atualmente a questão do trânsito nas nossas cidades atingiu
proporções catastróficas e não há maneira
de resolvê-la por décadas. Todas as autoridades – e
principalmente as pseudo-autoridades – dizem que a solução
para o trânsito é o transporte coletivo.
Mas se esquecem de completar: para as cidades de países ricos
ou para as cidades de países pobres que, por milagre, já
têm uma rede completa de metrô, subway, underground, tube
ou qualquer outra coisa do gênero – coisa raríssima.
Porque, hoje, é mais fácil e barato construir uma Apollo
100 tripulada e ir a Júpiter do que construir um metrô –
exceto para a China, que em chinês se chama adequadamente Império
do Meio, cuja economia é "democraticamente" planejada,
e onde a grana agora rola.
Um sistema de ônibus pode servir para uma aldeia organizada e arrumadinha
como Curitiba, mas para qualquer cidade de grande porte é um atraso
de vida.
Literalmente. Você jamais chegará na hora se não
sair um tempo enorme antes do seu compromisso.
Nas grandes cidades, como Londres e Nova York, os que usam os ônibus
são pessoas que fazem pequenos trajetos ou aposentados e ricos
que podem se dar ao luxo de apreciar calmamente a paisagem da cidade,
sem previsão de tempo. O resto da população usa metrô
(o tempo normal para cruzar Londres de carro varia de seis a oito horas,
imagine de ônibus). Em Paris o metrô também é
ótimo, porém a tradicional higiene francesa desaconselha
seu uso por pessoas de olfato razoável.
Além do tradicional prato de Paris, "la baguette au sovac".
Sempre me pergunto se os entendidos que dizem que a solução
para São Paulo é o transporte coletivo (entenda-se ônibus,
porque na velocidade de construção do metrô, ele não
existe), quantas vezes por ano esses profetas andam de ônibus? Aí
veriam uma fila ininterrupta de monstros, uns lotados, outros vazios,
todos indo para um mesmo lugar em trajetos superdiretos.
Você seria processado pela Sociedade Protetora dos Animais se dissesse
que os usuários de ônibus são transportados como gado.
Nenhum boi é transportado com esse desconforto.
Os passageiros que estão na região sul e se dirigem a sudeste
fazem o lógico trajeto Sul/ Oeste/Norte/Leste/Sudeste gastando
três horas e passando pelas avenidas mais congestionadas para cobrir
um trecho que não demandaria mais do que 15 minutos – de
carro. Além disso, entrarão por um degrau alto, ao lado
de um motor fervendo, para ficar de pé em cima de uma estrutura
de chassis de caminhão, alta, tremelicante, barulhenta, suja, atulhada
de gente, luz faltando, radinhos e celulares falando do jogo do Corinthians
e com bancos confortáveis como alguns premiados em concursos de
design.
Colin Buchanan, maior autoridade mundial em trânsito (e que morreu
atropelado!) dizia que as pessoas só abandonarão seus carros
quando dispuserem de um sistema rápido, disseminado, confiável
e confortável como o metrô de Londres ou exagerando, o de
Moscou, cidade cujas estações de metrô pareciam hotéis
de luxo e os hotéis de luxo pareciam estações de
metrô, principalmente pelo serviço.
Buchanan afirmava que a questão do trânsito se trata com
EEE, de Engineering, Enforcement, Education. Aqui necessitamos PPP: planejamento,
polícia, paciência.
Em algumas questões não estamos sozinhos. Em Calcutá
ou Mumbai, exemplos supremos da bagunça, crianças podem
ser atropeladas, mas não vacas. E na Itália é terminantemente
proibido atropelar as pessoas em cima da faixa.
Maneiras seguras de se atravessar uma rua:
- em Nova York: com uma criança
- em Paris: com uma mulher bonita
- em Berlim: com um cachorro.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>