O veículo particular é amado pela liberdade e independência
que oferece, até em um congestionamento. As condições
atuais da economia brasileira, em especial quanto às oportunidades
de financiamento, permitem que um número enorme de pessoas compre
o sonho de sua vida: um Fiat Mille com dez anos de uso (a preocupação
na hora da compra é o valor da prestação, não
o preço final do veículo). É justo quando por milagre
conseguem realizar esse sonho agir de maneira elitista e proibir de adquiri-lo?
As cidades brasileiras decidiram erradamente há décadas
pelo automóvel e o país, pelas rodovias. Com a deterioração
geral de nossos meios de transporte, somos agora levados de um lugar a
outro (exceto em estradas com concessões) por rodovelhas, ferrovelhas
e com o apagão aéreo, aerovelhas.
Por questões de viabilidade financeira e de tempo, não
vejo como alterar essa opção pelo metrô. O que podemos
fazer é nos adaptar a essa situação da maneira menos
ruim possível e abandonar a fantasia de que dezenas de milhares
de ônibus resolverão o problema... Em São Paulo seriam
necessários uns 50 anos para termos um metrô como o de Londres,
mesmo que se decidisse não pagar os custos das desapropriações,
como faz o MST, ou no Pantanal, os MSA (sem água).
Sempre se pode retirar todos os carros das ruas e deixar os ônibus
circularem livremente. O resultado será que, sem uma rede extensa,
integrada e eficiente de transporte subterrâneo, ninguém
chegará na hora em lugar nenhum se tiver um trabalho ou compromissos
que exijam deslocamentos durante o dia, e não simplesmente o ire
e bire. Simplesmente não dá.
As cidades brasileiras (todas) não terão jamais os recursos
para construir linhas completas de metrô. Se fôssemos realistas
entenderíamos que providências diretas ajudariam a mitigar
os problemas. Millôr Fernandes já sugeriu fechar todas as
saídas de túneis do Rio de Janeiro e retirar a iluminação,
como forma de reduzir o número de veículos em circulação...
Deveríamos parar de discutir "a indústria das multas"
e impedir o estacionamento em toda e qualquer área que impeça
a fluidez. Os estacionamentos particulares ficariam ricos? Taxação
violenta neles e uso dos recursos para sinalização, pavimentação,
fiscalização, educação e repressão.
E o resto para estacionamentos subterrâneos.
Caminhões de lixo, de entregas, de mudanças e de bebidas
(esses são os piores), só à noite. Custa caro? Claro,
mas é o preço de se morar nas cidades e se ampliaria o número
de empregos.
É inacreditável que se permita recolher lixo de maneira
improvisada com caminhões imundos andando a 10 km por hora para
não quebrar, ou pobres carroceiros tentando ganhar a vida com reciclagem
– quando são eles que deveriam ser reciclados e ganhar um
emprego decente –, ou que lixo e entulho fiquem por semanas em perigosíssimas
caçambas estacionadas.
Sem considerar os milhares de caminhões, inclusive com cargas
perigosas, que atravancam e envenenam as cidades porque os ambientalistas
não querem a construção de rodovias de contorno para
não atropelar os gatos-leão dourados. Ou que haja bêbados
bebuns pinguços bebendo bebidas alcoólicas, dirigindo alcoolizados
possantes veículos a álcool na contramão em estradas,
pontes e túneis, uisquecendo as regras de trânsito.
Há ainda a última praga do Egito: os motoboys, que devastam
as ruas como gafanhotos. Um bando de delinqüentes tentando ganhar
a vida honestamente. Como não podemos impedi-los de se suicidar
no trânsito (um por dia no mínimo em São Paulo), poderíamos
impedir o concerto de motos acidentadas (com c mesmo, é ruído),
reduzindo, assim, de maneira um tanto intempestiva o número de
motos, de mortos e até de acidentes. É outro processo Millôr
Fernandes. A (i)moral da história talvez seja a seguinte: somos
uma (in)civilização americana e não européia
(infelizmente).
Não temos recursos para construir metrôs na velocidade necessária,
nem para cobrir o atraso e muito menos planejar o futuro. Ônibus
não resolvem, portanto poderíamos aceitar dos males o maior:
a ilusória, porém agradável, liberdade de movimento
proporcionada pelos automóveis. E não se desesperar no meio
do congestionamento. Se você tiver uma boa companhia e passar por
uma pracinha, um parque, estacione (se puder) tranqüilamente, esqueça
o atraso no compromisso que tiver, corrija outro atraso e transe em terra.
Continua (o artigo, não a transa, infelizmente), porque o problema
que agora envenena São Paulo vai atingir todas as grandes cidades
brasileiras. Cem artigos não serão nem suficientes, nem
úteis. O problema não é o trânsito, é
o planejamento urbano. Mas com políticos subdesenvolvidos (ou seja,
todos os de países idem), se torna insolúvel.
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