Em terreno arborizado de 75 mil m² do antigo campo de Araçá,
atual bairro de Pinheiros, o edifício da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo, construído em estilo Tudor,
tendência que predominava nas tradicionais escolas da Inglaterra
e Estados Unidos, foi construído pelo Escritório Ramos de
Azevedo, em 1928. O projeto da escola foi elaborado por professores da
Faculdade que, a convite da Fundação Rockfeller, responsável
por sua concretização, visitaram instituições
de ensino de medicina e cirurgia na Europa e Estados Unidos. Inaugurado
em 1931 o campus vinha exigindo intervenções urgentes.
Em 1998, o IAB, em conjunto com o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio
Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico)
e a Fundação Faculdade de Medicina, realizou um concurso
para o plano diretor de restauração e ampliação
da Faculdade, incluindo espaços novos para atender as demandas
atuais assim como as futuras. Como o edifício original foi se descaracterizando
com acréscimos ao longo desses anos, o Conselho não permitiu
nenhuma nova construção até que houvesse um planejamento
e demolição dos anexos. O concurso previa a criação
de novos volumes com área de até 6 mil m², desde que
implantados de forma harmoniosa. Vale lembrar dois aspectos importantes:
a edificação original era modulada, com estruturas em concreto
independentes das paredes.
Os arquitetos Vinicius Andrade e Marcelo Morettin, titulares do escritório
Andrade Morettin, em parceria com os arquitetos José Alves e Lua Nitsche
venceram o concurso em que participaram 85 equipes. São todos formados na
FAUUSP entre 1997 e 1991. O Plano Diretor e todas as instalações novas,
incluindo a requalificação do teatro, ficou a cargo dos jovens arquitetos.
Para o restauro propriamente dito, o então diretor da Faculdade,
professor Flávio Fava de Moraes, convidou o arquiteto e professor
Júlio Katinsky, que se associou às arquitetas Helena Ayoub
Silva e Thereza Katinsky, antiga colaboradora do DPH (Departamento do
Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo). Embora
já constasse no plano de ampliação da Faculdade uma
nova biblioteca, a direção da escola optou, numa primeira
fase, pela recuperação e modernização da já
existente, tarefa que ficou a cargo do escritório Paulo Bruna Associados.
Trabalhando separadamente, mas em pleno acordo, a preocupação
maior das três equipes foi recuperar o esplendor do prédio
de 1922.
Os espaços novos e suas relações com o existente
No ano de 2004 iniciaram-se as obras que, de acordo com o plano diretor,
abrangiam três segmentos: urbanização da área,
edificações novas e restauro e modernização.
Além da nova biblioteca (semi-enterrada, segundo a proposta), os
arquitetos haviam proposto também um estacionamento subterrâneo,
no lado direito do terreno, em edifício contínuo ao conjunto
existente. Essas obras, no entanto, não têm previsão
de execução.
Todas as intervenções ocorreram com a Faculdade em pleno
funcionamento, sem prejuízo do ensino e pesquisa ali realizados.
Por meio de um procedimento interdisciplinar envolvendo a administração
da escola e as diferentes equipes de trabalho, a primeira ação
foi retirar tudo o que obstruía o prédio. Móveis
em desuso e antigos equipamentos que se acumulavam nas salas e corredores
foram levados para um outro espaço fora do edifício.
Com a demolição dos anexos que cercavam o prédio,
algumas funções passaram para o interior da sede -
caso do grêmio dos funcionários -, e outras foram transferidas
para três novas construções: a Central de Utilidades,
o edifício de Áreas Técnicas e o Pavilhão
de Serviços. O primeiro, que abriga o comando de ar-condicionado,
materiais inflamáveis, gases e outras substâncias, é
composto de um volume envidraçado ao lado da sede, protegido por
alambrado. O edifício de Áreas Técnicas, implantado
no limite do terreno do lado esquerdo, abriga administração,
agência bancária, almoxarifado e as dependências para
a empresa terceirizada de limpeza e salas dos vigias. Por fim, o Pavilhão
de Serviços está situado na divisão posterior do
terreno.
Explica Vinicius Andrade que nas novas edificações os arquitetos
não procuraram mimetizar o edifício histórico, mas,
sim, manter um diálogo entre o velho e o novo por meio de estruturas
leves de aço e vidro, evitando a alvenaria. Nessa linguagem contemporânea,
além das áreas de suporte e serviços, seguem as duas
novas portarias de acesso geral da faculdade e, principalmente, a reestruturação
do teatro/auditório.
Várias intervenções dentro do edifício deram
mais dinamismo às funções realizadas nos antigos
espaços. Como exemplo, o projeto de uma nova circulação
longitudinal abaixo do piso térreo em toda a extensão da
sede. Esse caminho inicia-se no teatro, passa pelo centro acadêmico
e café situados nessa cota, terminando no final do prédio
em um acesso independente, atendendo tanto o setor dos alunos, quanto
o auditório. Na realidade, esse corredor decorre do declive do
terreno: com a reforma e aprofundamento do solo desfez-se o antigo porão.
Foram escavados 4,5 cm para nivelar o piso antigo com o pátio externo,
obtendo-se altura necessária para a circulação e
setor de alunos, possibilitando aberturas para o jardim posterior, anteriormente
sem acesso interno.
Nos corredores dos três pavimentos do edifício-sede passava
a fiação elétrica, instalada de maneira precária
durante as décadas após a inauguração do prédio.
O novo projeto propôs uma passagem de dutos pelo forro dos corredores,
concentrando nela a instalação vital. Essas "pontes
de instalação", fechadas com placas intermitentes de
iluminação, ligam-se a seis shafts verticais permitindo,
além de acessibilidade aos condutores, sua conexão com os
laboratórios. A matriz se encontra na subestação
elétrica, situada no Pavilhão de Serviços, junto
com as estações de fluidos vitais (gases medicinais), gerador
e outros equipamentos.
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