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INTERNACIONAL
PATCHWORK DE VELAS
RENZO PIANO REAPROVEITA VELAS DE OUTRAS REGATAS PARA CONSTRUIR A BASE LUNA ROSSA EM VALÊNCIA

POR FRANCESCO SANTORO



Genial contribuição tecnológica e lúcida invenção poética é representada pelo projeto de Renzo Piano para a base operativa da equipe italina Luna Rossa, em Valência, Espanha, em que utilizou as velhas velas usadas pela embarcação nas precedentes regatas da America''s Cup como revestimento dos painéis externos.

A paixão pela vela é congênita em Piano. Desde os primeiros protótipos da vela projetados quando ainda jovem, até os cascos de ferro-concreto e os recentes em madeira com mastros de carbono, a atração pelo mar sempre constituiu para o arquiteto genovês uma fonte de inspiração constante e um fecundo exercício no projeto de arquitetura.

O interesse pelas experimentações com ferro-concreto nasce em Piano do estudo do protótipo de barco construído com essa técnica por Pier Luigi Nervi, em 1942. Segundo o próprio Piano, aquela pesquisa o levará à utilização das "folhas" de ferro-concreto na leve cobertura do Museu da Coleção Menil, em Houston, nos Estados Unidos.

A experimentação com projetos dos últimos anos condiciona Piano também em projetos recentes, como a sede do New York Times, cuja antena de carbono de 100 m de altura indica a direção do vento da mesma forma que no último barco projetado.

No caso da base Luna Rossa, a referência é explícita e a escolha dos materiais, diretamente retirados de embarcações, também se liga aos temas da reutilização e da sustentabilidade, caros para o mestre genovês.

Chi nu se straggia ninte: aqui nada é jogado fora, escrito à mão por Piano em dialeto genovês sobre uma das velas da fachada do prédio, sintetiza a pesquisa mais recente do arquiteto, com a sua atenção na sustentabilidade do processo projetual e construtivo, "única condição para recuperar uma ética já não separada do progresso e da modernidade".

Conforme definição do próprio Piano, as fachadas contínuas da base Luna Rossa são constituídas por um verdadeiro patchwork de velas grandes e genoas já utilizadas e que, assim, carregam as memórias dos membros da equipe. Cortadas, remontadas e coladas com bi-adesivo acrílico sobre painéis de policarbonato alveolar de 4 cm de espessura, as velas revestem uma estrutura regular de caixilhos retangulares.

Ao todo foram utilizadas 50 velas de Kevlar (uma fibra aramida, marca da Dupont) e fibra de carbono, doze velas grandes e 38 genoas para uma superfície total de 3.100 m². As velas foram pré-tensionadas e fazem os painéis mais elásticos e resistentes à dilatação térmica no contexto climático mediterrâneo de Valência.

A transparência das velas permite a entrada de uma luz natural difusa durante o dia, o que proporciona ótimas condições de trabalho. À noite, um sistema de retroiluminação transforma o pavilhão em uma grande e leve lanterna.

A construção, chamada contêiner porque contém as atividades da equipe, desenvolve-se em quatro pisos. O térreo, com 2.150 m², é ocupado pelo hangar das embarcações e acomoda oficinas, a veleria e os depósitos. O primeiro andar, com 1.140 m², foi destinado aos escritórios; enquanto o segundo andar, também com 1.140 m², foi ocupado com as cozinhas, o refeitório e o ginásio para os membros da equipe, além uma área de acesso público com uma loja da marca Prada, principal patrocinador da Luna Rossa. No último andar encontra-se o terraço para os convidados, em posição panorâmica sobre o porto da America''s Cup.

O perfil elegante e singelo da base Luna Rossa é o único do porto de Valência a transmitir a leveza e a espontaneidade de um pavilhão temporário, construído em ocasião do evento vélico, projetado com o mesmo cuidado aplicado para a construção de um protótipo artesanal feito à mão, como a jangada experimental Kontiki, utilizando materiais usados e novos remontados de uma forma original.

O compacto pavilhão diversifica as atividades internas da equipe no seu layout compositivo, com as bases das embarcações orientadas em direção ao porto, respeito aos espaços públicos com a loja do merchandising orientada em direção à cidade, enquanto a escada rolante de acesso coincide com a continuidade da fachada, entre os cortes calibrados das velas translúcidas de revestimento, inclinadas de acordo com os ângulos de adernamento e as diferentes curvas de estabilidade dos cascos na navegação de bolina.

A fachada com as imagens sobrepostas das embarcações em regata, os desenhos arquitetônicos e as cores vermelho e cinza dos logotipos são expressão de uma arquitetura-happening leve e instantânea, ligada ao evento e configurada em forma de gráfica e packaging, clara referência às instant-cities do grupo inglês Archigram, e referência evidente das suas influências na temporada criativa do Centre Georges Pompidou.

A base Luna Rossa de Renzo Piano reassume todos os elementos recentes da poética do mestre genovês, a importância da construção como processo criativo rigoroso, a exata rapidez nos tempos de execução, a reutilização e a sustentabilidade, a singeleza e a coerência dos detalhes construtivos, a leveza entendida de um ponto de vista prático e executivo, assim como de um ponto de vista filosófico e espiritual, constituindo um exemplo de espontaneidade projetual e de honesta criatividade no panorama eclético das arquiteturas do porto de Valência.

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