Genial contribuição tecnológica e lúcida
invenção poética é representada pelo projeto
de Renzo Piano para a base operativa da equipe italina Luna Rossa, em
Valência, Espanha, em que utilizou as velhas velas usadas pela embarcação
nas precedentes regatas da America''s Cup como revestimento dos painéis
externos.
A paixão pela vela é congênita em Piano. Desde os
primeiros protótipos da vela projetados quando ainda jovem, até
os cascos de ferro-concreto e os recentes em madeira com mastros de carbono,
a atração pelo mar sempre constituiu para o arquiteto genovês
uma fonte de inspiração constante e um fecundo exercício
no projeto de arquitetura.
O interesse pelas experimentações com ferro-concreto nasce
em Piano do estudo do protótipo de barco construído com
essa técnica por Pier Luigi Nervi, em 1942. Segundo o próprio
Piano, aquela pesquisa o levará à utilização
das "folhas" de ferro-concreto na leve cobertura do Museu
da Coleção Menil, em Houston, nos Estados Unidos.
A experimentação com projetos dos últimos anos condiciona
Piano também em projetos recentes, como a sede do New York Times,
cuja antena de carbono de 100 m de altura indica a direção
do vento da mesma forma que no último barco projetado.
No caso da base Luna Rossa, a referência é explícita
e a escolha dos materiais, diretamente retirados de embarcações,
também se liga aos temas da reutilização e da sustentabilidade,
caros para o mestre genovês.
Chi nu se straggia ninte: aqui nada é jogado fora, escrito à
mão por Piano em dialeto genovês sobre uma das velas da fachada
do prédio, sintetiza a pesquisa mais recente do arquiteto, com
a sua atenção na sustentabilidade do processo projetual
e construtivo, "única condição para recuperar
uma ética já não separada do progresso e da modernidade".
Conforme definição do próprio Piano, as fachadas
contínuas da base Luna Rossa são constituídas por
um verdadeiro patchwork de velas grandes e genoas já utilizadas
e que, assim, carregam as memórias dos membros da equipe. Cortadas,
remontadas e coladas com bi-adesivo acrílico sobre painéis
de policarbonato alveolar de 4 cm de espessura, as velas revestem uma
estrutura regular de caixilhos retangulares.
Ao todo foram utilizadas 50 velas de Kevlar (uma fibra aramida, marca
da Dupont) e fibra de carbono, doze velas grandes e 38 genoas para uma
superfície total de 3.100 m². As velas foram pré-tensionadas
e fazem os painéis mais elásticos e resistentes à
dilatação térmica no contexto climático mediterrâneo
de Valência.
A transparência das velas permite a entrada de uma luz natural
difusa durante o dia, o que proporciona ótimas condições
de trabalho. À noite, um sistema de retroiluminação
transforma o pavilhão em uma grande e leve lanterna.
A construção, chamada contêiner porque contém
as atividades da equipe, desenvolve-se em quatro pisos. O térreo,
com 2.150 m², é ocupado pelo hangar das embarcações
e acomoda oficinas, a veleria e os depósitos. O primeiro andar,
com 1.140 m², foi destinado aos escritórios; enquanto o segundo
andar, também com 1.140 m², foi ocupado com as cozinhas, o
refeitório e o ginásio para os membros da equipe, além
uma área de acesso público com uma loja da marca Prada,
principal patrocinador da Luna Rossa. No último andar encontra-se
o terraço para os convidados, em posição panorâmica
sobre o porto da America''s Cup.
O perfil elegante e singelo da base Luna Rossa é o único
do porto de Valência a transmitir a leveza e a espontaneidade de
um pavilhão temporário, construído em ocasião
do evento vélico, projetado com o mesmo cuidado aplicado para a
construção de um protótipo artesanal feito à
mão, como a jangada experimental Kontiki, utilizando materiais
usados e novos remontados de uma forma original.
O compacto pavilhão diversifica as atividades internas da equipe
no seu layout compositivo, com as bases das embarcações
orientadas em direção ao porto, respeito aos espaços
públicos com a loja do merchandising orientada em direção
à cidade, enquanto a escada rolante de acesso coincide com a continuidade
da fachada, entre os cortes calibrados das velas translúcidas de
revestimento, inclinadas de acordo com os ângulos de adernamento
e as diferentes curvas de estabilidade dos cascos na navegação
de bolina.
A fachada com as imagens sobrepostas das embarcações em
regata, os desenhos arquitetônicos e as cores vermelho e cinza dos
logotipos são expressão de uma arquitetura-happening leve
e instantânea, ligada ao evento e configurada em forma de gráfica
e packaging, clara referência às instant-cities do grupo
inglês Archigram, e referência evidente das suas influências
na temporada criativa do Centre Georges Pompidou.
A base Luna Rossa de Renzo Piano reassume todos os elementos recentes
da poética do mestre genovês, a importância da construção
como processo criativo rigoroso, a exata rapidez nos tempos de execução,
a reutilização e a sustentabilidade, a singeleza e a coerência
dos detalhes construtivos, a leveza entendida de um ponto de vista prático
e executivo, assim como de um ponto de vista filosófico e espiritual,
constituindo um exemplo de espontaneidade projetual e de honesta criatividade
no panorama eclético das arquiteturas do porto de Valência.
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