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Edição 171 | Junho/2008
Fato & Opinião
A obsessão pela imagem é nociva para a arquitetura?
O
DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO DE SISTEMAS CONSTRUTIVOS E DE SOFTWARES
AVANÇADOS DE DESENHO PERMITE QUE SE CONSTRUA QUASE QUALQUER TIPO
DE FORMA. FRANK GEHRY USOU O CATIA, UM PROGRAMA ELABORADO PARA A INDÚSTRIA
AERONÁUTICA, PARA CRIAR OBRAS COMO O GUGGENHEIM DE BILBAO E IMPÔS
UM NOVO PARADIGMA, O CHAMADO "EFEITO BILBAO", EM QUE UMA CIDADE
DESPROVIDA DE MAIORES ATRATIVOS ENTRA PARA O CIRCUITO INTERNACIONAL
DE TURISMO GRAÇAS AO EXTRAVAGANTE MUSEU. É PRECISO DOSAR
O EMPREGO DESSES RECURSOS OU A IDOLATRIA À IMAGEM É UM
FENÔMENO PERENE? A OBSESSÃO PELA IMAGEM É NOCIVA
PARA A ARQUITETURA?
A atual obsessão pela imagem dirige o ofício da arquitetura
para um papel perfunctório, pouco ético e estranho a uma
perspectiva de construção de um mundo mais justo e honesto.
A obsessão pela imagem é sim nociva à cidade e à
sociedade. A imagem é o evento, o eventual. Arquitetura tem outro
caráter. Enquanto a arquitetura estiver relegada ao papel de evento
à construção das cidades e à estruturação
do território será pauta de interesses estranhos à
população. A supervalorização da imagem classifica
a arquitetura como exceção. O fazer da arquitetura se realiza
plenamente e se estrutura como conhecimento no atendimento de demandas
sociais reais e com rigor técnico de quem tem um compromisso com
o futuro - além dos eventos. Se entendermos a arquitetura
com esse papel, sim, a obsessão pela imagem é nociva.
José Armênio de Brito Cruz, arquiteto,
sócio do escritório Piratininga, de São Paulo
A obsessão pela imagem é uma contingência da cultura
contemporânea que será nociva para a arquitetura somente
se as formas acrobáticas, resultantes do emprego das altas tecnologias,
se constituírem num objetivo. Ela também será nociva
se os edifícios escultóricos forem tomados como modelos
ou como falsas tipologias arquitetônicas. Já Bilbao é
um exemplo paradigmático pelo uso que se fez do edifício
como estratégia de desenho urbano. Nesse caso, a imagem da arquitetura
foi empregada para gerar crescimento econômico, político
e social. Em vez de se render à obsessão pela imagem,
a arquitetura deve utilizar todos os recursos da tecnologia para a criação
de condições de vida dignas, em um ambiente melhor e sustentável.
Beatriz Regina Dorfman, arquiteta e professora da
FAU PUC-RS
Vale a pena lembrar que o trabalho com a imagem é o cerne do processo
de projeto, ou seja, é a essência daquilo que nos define
como arquitetos. É pela imagem que planejamos e manipulamos o espaço
a ser construído. Por isso, a visualidade, quando intimamente associada
ao entendimento espacial, é parte importante da prática
arquitetônica. O problema, em minha opinião, é que
muitas vezes as imagens são dissociadas das relações
espaciais, passando a ter um fim em si mesmas. Esse tipo de obsessão
superficial com a imagem tende a reduzir a arquitetura a um efeito puramente
gráfico. A pergunta-chave para se separar o joio do trigo nesse
caso seria: qual a contribuição dessa imagem para o entendimento
do espaço a que ela se refere?
Fernando L. Lara, arquiteto, professor da Universidade
de Michigan - Taubman College of Architecture and Urban Planning
Não creio que exista uma obsessão pela imagem, mas sim
uma maior plasticidade e liberdade em termos geométricos que
"emergem" do software com uma forte carga visual. Uma arquitetura
baseada na particularidade e não em sua produção
em massa, se tornou possível com os avanços tecnológicos
procedentes da informática, com os programas avançados
de desenho digital e com novas formas de fabricação que
marcam um ponto de inflexão e caracterizam uma nova vanguarda
nesse começo de século. Historicamente a evolução
dos sistemas construtivos e materiais sempre tiveram conseqüências
na produção arquitetônica. Passamos do reducionismo
do esquadro e da régua T à sedução das Splines
e Nurbs das geometrias topológicas. Do "tijolo com tijolo
num desenho lógico" à complexidade formal que, ao
fim e ao cabo, será executada por uma tecnologia (CNC) que nos
permite a retomada de uma produção arquitetônica
baseada na inovação e na sinuosidade da forma. A complexidade
geométrica não deveria ser vista como algo nocivo à
arquitetura.
Affonso Orciuoli, arquiteto, professor e diretor
do Taller de Arquitectura Digital da Escola Tècnica Superior
d'Arquitectura da Universitat Internacional de Catalunya
O problema não está no desenvolvimento dos sistemas construtivos
e dos softwares de desenho, mas sim na relação que se estabelece,
hoje, entre ambos. A questão é saber, em cada caso, se existe
ou não vínculo entre as formas geradas pelos softwares de
desenho e a especificidade da forma arquitetônica (necessariamente
ligada ao universo da construção, mesmo em Boullée,
mesmo em Archigram, repare-se). Como se percebe, tal distinção
baseia-se no preceito de que a forma arquitetônica é, por
definição, experiência construída no tempo
e no espaço da vida, por um corpo sensível. Se a atual obsessão
pela imagem implica o abandono desse conceito de forma, então ela
é necessariamente nociva para aqueles que julgam que, num mundo
dominado pela "virtualidade sem qualquer espessura" (Rodrigo
Naves), a arquitetura, como tradicionalmente a entendemos, tende a desaparecer.