As peças criadas pelo designer e artista plástico Paulo Werneck para o Galpão Contemporâneo passam por um caminho de criação diferente do usual: é o formato da matéria-prima que diz por onde a inspiração do artista vai andar, e não o contrário.
Assim acontece com os bancos Medusa, Onda, Cogumelo Invertido, GD Natural,
Cuboco e a mesa de centro e banco Veio d'água, criados por ele para o
estúdio.

Feitas com madeira da espécie Eucalyptus Citriodora, proveniente de reflorestamento,
as peças surgiram a partir dos descartes que Werneck recolhe em madeireiras
cadastradas pelo Ibama em Itu, interior de São Paulo, onde instalou sua
empresa para ficar mais próximo da matéria-prima. "Trabalhamos com peças
naturalmente descartadas, como pés de árvores e troncos que são considerados
defeituosos pelas madeireiras e virariam lenha", explica Werneck.
A escolha pelo eucalipto citriodora como matéria-prima veio por acaso,
quando o designer lixava a parte do topo dessa madeira e apareceram cores
e texturas que o encantaram. No entanto, há certas restrições à criação:
essa espécie não permite todo tipo de corte pois racha, é um pouco resinosa
e tem uma textura fibrosa: é, como define o designer, um pouco indócil
para o trabalho acabado. "Tenho de observar cortes possíveis dentro de
alguns tipos de peças para começar a confeccionar os produtos. Parto de
uma espécie de laboratório na prática, com o próprio material, e cada
peça é resolvida de uma maneira", explica.

A produção passa inicialmente pelos desenhos e depois pela realização de uma peça piloto de madeira, fase em que a estabilidade é testada. A madeira é tratada em uma cabine de pressão para evitar a proliferação de cupins, e as rachaduras recebem uma massa feita com serragem tingida de preta que imita os veios naturais da madeira e evita que evoluam.
As peças recebem corte de serralheria (somente itens pequenos com serrote),
e são lixadas. O acabamento é feito com verniz de poliuretano fosco, que
preserva o tom natural da madeira.
Materiais
como o vidro e o metal também aparecem. Na mesa Veio d'água, por exemplo,
foi utilizada uma fatia transversal de tronco com sua curvatura natural,
que recebeu um corte na lateral para encaixe de uma lâmina de vidro de
19 mm. O vidro proporciona efeitos distintos à peça de acordo com a iluminação.
"O vidro não é totalmente incolor, na lateral ele fica bem verde e qualquer
facho de luz direcionado a ele mostra sua transparência e emite reflexos
que sugerem leveza, fluidez. Como a mesa foi projetada para esconder sua
base, aumenta a sensação de leveza e parece que ela está flutuando", comenta
Werneck.
A mesa de centro possui uma base com pinos de metal que recebem por encaixe os "tabletes" de madeira. Só então o vidro é instalado. Com a sobra do corte lateral, foi feito o banco que leva o mesmo nome que a mesa.
Já o banco Medusa teve a curvatura de seus pés definida por desenhos feitos
no computador. "Como o nome sugere, os pés são uma abstração dos tentáculos
e movimentos de uma medusa", define.

Ondas e cubos
Tendo como elemento padrão bolachas de madeira seccionadas, o banco Onda foi criado a partir das possibilidades de deslocamento desses itens, dispostos de forma a criar um movimento ondular. Foi o resultado visual que sugeriu o nome da peça. As bolachas foram unidas com cola e parafusadas, uma solução ao fato do eucalipto não aceitar bem o parafuso sozinho.
No banco Cogumelo Invertido, o designer explorou a idéia de certo desequilíbrio
ao se inverter o lado cilíndrico do tronco. A tora é seccionada ao meio
e rejuntada pelas partes curvas, onde há uma roscada de aço que garante
a sustentação da peça.
Segundo
Werneck, o projeto foi realizado sem desenho, diretamente na produção
com o corte e a resolução da união das duas partes da bolacha, processo
semelhante ao visto no banco GD Natural, ou "pufe de madeira", como define
o designer, que também dispensou esboços. A peça recebe pintura em serigrafia
com tinta sintética para madeira, atividade que o artista começou a desenvolver
quando trabalhava em uma estamparia.
O Cuboco, por sua vez, é a única peça feita com um material diferente do eucalipto citriodora: madeira MDF de 15 mm. O banco recebe revestimento de massa de serragem produzida pelos cortes e processos de lixamento dos produtos de eucalipto, e pode ter qualquer coloração.
Como as peças passam por um processo artesanal, o designer destaca que
as medidas são aproximadas, pois dependem do formato da matéria-prima.
"Poderia colocar um gabarito e deixá-las todas do mesmo tamanho, mas isso
foge da nossa filosofia de aproveitamento total de material", explica.

