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Entrevista

Engenharia e humanidades
Pós-graduado em arquitetura, o engenheiro responsável pela obra da Fundação Iberê Camargo conta como é trabalhar com Álvaro Siza e fala da relação entre arquitetos e engenherios

POR VALENTINA FIGUEROLA FOTO FÁBIO DEL RE

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Quando o engenheiro civil José Luiz de Mello Canal começa a discorrer sobre o novo edifício da Fundação Iberê Camargo (FIC), em Porto Alegre, fica evi- dente seu apreço pela arquitetura. Ele entende do assunto também. "Isso me ajuda a dar importância a detalhes que muitas vezes passam despercebidos por um engenheiro que só dá preferência à solução técnica ideal, ou à mais econômica", diz. Canal atuou como engenheiro coordenador da obra e do projeto da FIC, convivendo intensamente com o arquiteto português Álvaro Siza, autor do novo prédio da fundação. "Ele é uma pessoa simples, mas detalhista ao extremo", comenta o engenheiro sobre Siza.

O conhecimento que Canal tem sobre arquitetura vem de sua formação. Logo que se graduou em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1985, Canal fez mestrado e doutorado em arquitetura (de 1987 a 1992) na Universidade Politécnica da Catalunha (UPC). A formação diferenciada o levou a ser coordenador de projetos especiais da Gerdau e professor de projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. A conclusão da Fundação Iberê Camargo é para Canal um alívio. "Houve momentos em que achei que o museu não sairia do papel", confessa o engenheiro, que acredita que a escultórica obra em concreto branco será um marco na engenharia e na arquitetura. "O concreto branco vai possibilitar que a arquitetura brasileira volte a explorar formas novas e livres e, assim, exerça o fascínio dos anos 50 e 60", prevê. Leia a seguir trechos da entrevista que o engenheiro concedeu a AU.

aU SIZA VISTORIAVA OS DETALHES DA OBRA SEMPRE AO SEU LADO. O QUE CHAMOU SUA ATENÇÃO NELE COMO PROFISSIONAL?
JOSÉ LUIZ CANAL
O que chama a atenção no Siza como profissional é o controle absoluto que ele tem do projeto em todas as escalas. O que vemos, em geral, são arquitetos que ou controlam bem o projeto nos detalhes, ou têm o domínio nas escalas mais urbanas. Siza é diferente. Ele também costuma refinar e desenvolver os detalhes desenhando a lápis no meio da obra, às vezes avaliando duas ou três alternativas simultaneamente. Sempre encontra espaço para refinar o projeto. Iberê (Camargo, o artista gaúcho) também era assim: pintava seus quadros exaustivamente, até quando podia, até o último momento.

aU O EDIFÍCIO PODERIA SER DEFINIDO COMO UMA ESCULTURA MONOLÍTICA EM CONCRETO BRANCO. ESSA FOI UMA OBRA MAIS ARTESANAL DO QUE INDUSTRIAL?
CANALÉ um prédio tecnologicamente requintado, com um arcabouço de instalações altamente refinado e um acabamento escultórico de concreto branco. É uma situação complexa, pois estamos um degrau abaixo da Europa no que tange à construção de edifícios. Principalmente os edifícios do Siza, que até para o padrão europeu têm uma complexidade tecnológica maior.

aU POR QUÊ? DE ONDE VEM ESSA COMPLEXIDADE TECNOLÓGICA?
CANAL Do minimalismo arquitetônico de sua obra, onde todas as coisas se encaixam numa harmonia total. Siza busca a idéia de conjunto onde não existe nem positivo nem negativo, onde tudo está num mesmo plano. Detectores e pontos de incêndio, ar-condicionado, luminárias e instalações, em geral, permanecem ocultos na obra. Por outro lado, cada projeto do arquiteto-artista que é o Siza traz uma coisa particular, individual e escultórica que não se repete e nem se reinventa. Nem em projetos de mesmo tema como, por exemplo, o Museu de Arte Contemporânea da Fundação Serralves ou o Centro Galego de Arte Contemporânea de Santiago de Compostela. Ainda que compartilhem do mesmo vocabulário arquitetônico e possuam um programa similar, são únicos em sua forma. E respondem ao sítio de maneiras específicas também.

aU COMO A NOVA SEDE DA FUNDAÇÃO IBERÊ CAMARGO RESPONDE AO SÍTIO?
CANAL De várias maneiras. As curvas do edifício estabelecem relações diretas com as curvas do terreno. A maneira como ele está encaixado no terreno de 8,8 mil m² buscou a preservação completa da mata do entorno, de modo que a construção ficasse emoldurada pelo verde e, de certa forma, desfrutasse de seu próprio parque ambiental. As pessoas têm acesso às trilhas e, com isso, desfrutam de perspectivas do rio e do edifício num passeio mais completo. E o edifício tem aberturas para o rio...

aU O EDIFÍCIO FOI CRITICADO POR NÃO TER MUITAS ABERTURAS...
CANAL As pessoas se enganam quando acham que os museus têm janelas. A maioria deles não tem. E os que têm - a exemplo dos edifícios históricos como o do Louvre ou as construções brasileiras ecléticas antigas - acabam com as janelas fechadas por dentro... O importante é que o exterior não entre em competição com o interior, como acontece na FIC, onde é possível avistar o rio ao longo do percurso pelas áreas de circulação. E suas aberturas não são pequenas. Elas foram concebidas na medida certa para não afetar a concentração das pessoas ou gerar consumo absurdo de energia, obrigando a colocação de cortinas ou painéis, o que seria falso.

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