aU A OBRA LEVOU QUATRO ANOS. NÃO
É MUITO TEMPO?
CANAL Não
é muito tempo se considerarmos o porte da obra e sua interferência
na cidade, infra-estrutura e comunidade locais. Nós urbanizamos
a região, pavimentamos os passeios públicos, fizemos a drenagem
pluvial da curva, etc... Enfim, foi como construir uma cidade num lugar
inóspito. Para preservar completamente a encosta, tivemos de construir
o estacionamento debaixo da pista, o que significou cortar a marginal
em locais e momentos diferenciados. Tivemos de desenvolver e dominar a
tecnologia do concreto branco, além de treinar as equipes. E isso
sem contar que tínhamos de fazer uma obra que custasse de 40 a
50% a menos do valor de mercado.
aU QUAIS AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS
DO CONCRETO BRANCO? O MATERIAL EXIGIU CUIDADOS ESPECIAIS?
CANALEle é um concreto de
alto desempenho cuja resistência é três vezes superior
do que a do concreto convencional. Sua composição faz dele
um material muito plástico e fino, absolutamente reativo, e de
acabamento definitivo. Dispensa pintura. Na FIC, aumentamos sua durabilidade
galvanizando a fogo as armaduras. Também aplicamos um endurecedor
especial para que o concreto branco não absorva a poluição,
que normalmente desagrega o material.
aU NA SUA AVALIAÇÃO,
A CONSTRUÇÃO DA FIC VAI ESTIMULAR A CRIAÇÃO
DE OUTRAS OBRAS COM CONCRETO BRANCO? O MATERIAL SE DIFUNDIRÁ NA
ARQUITETURA BRASILEIRA A PARTIR DE AGORA?
CANAL Acredito
que sim. A arquitetura brasileira, principalmente no movimento moderno
e no brutalista, desenvolveu muito o know-how em concreto armado. O Brasil
possui grandes profissionais que têm intimidade com o material.
Acredito que o concreto branco vai possibilitar que a arquitetura brasileira
volte a explorar formas novas e livres e, assim, exerça o fascínio
que um dia exerceu, nos anos 50 e 60. Mas, por enquanto, o que se fez
até agora foram coisas pequenas com o concreto branco, sobretudo
na área de pré-moldados.
aU COMO ENGENHEIRO, VOCÊ TEM
UMA FORMAÇÃO TÉCNICA SÓLIDA, MAS TAMBÉM
TEM UMA FORMAÇÃO HUMANISTA. COMO ISSO AJUDA A TOCAR UM TRABALHO
COMO ESSE E A LIDAR COM PROFISSIONAIS COMO O SIZA?
CANAL Ao fazer
uma obra como essa, a visão só da economia não basta.
Você tem de privilegiar uma visão de longo prazo, que beneficie
o conjunto e a durabilidade. Vou dar um exemplo: o fato de galvanizarmos
a armadura de concreto é um cuidado que agrega um pequeno custo
para a obra, mas que livra o concreto de manchas e oxidações.
Esse custo em longo prazo não é nada se comparado com a
restauração de uma fachada, que é caríssima.
Como engenheiro que está coordenando um projeto, preciso saber
em que apostar.
aU ACREDITA QUE, EM GERAL, A RELAÇÃO
ENTRE ENGENHEIROS E ARQUITETOS É CONFLITUOSA?
CANAL Não
acredito nisso. Acho que talvez falte um pouco de comunicação.
Se fosse tão conflituosa assim, eles não teriam trabalhos
para construir e não poderiam viabilizar suas obras. Os bons arquitetos,
como o Niemeyer e o Siza, sempre tiveram bons engenheiros ao seu lado.
Lá em Portugal, a equipe de engenheiros do GOP (Gabinete de Organização
e Projectos, empresa de engenharia dedicada à elaboração
de estudos e projetos na área da construção civil,
www.gop-engenharia.com) atende aos desafios impostos por Siza e Eduardo
Souto de Moura, entre outros, com competência, se comunicando bem
com os engenheiros e projetistas locais. Estão sempre pensando
na arquitetura, não só na questão da técnica.
aU CABE AO ARQUITETO A COORDENAÇÃO
DOS PROJETOS?
CANAL Sim. Em primeiro
lugar, os arquitetos deveriam ser contratados para fazer o projeto completo,
até o executivo, o que já é uma grande coisa quando
a maioria das pessoas entende que a discussão do projeto executivo
é bastante subjetiva. Para um arquiteto como o Siza, um projeto
executivo são 1,2 mil desenhos. Para outras pessoas podem ser dez
desenhos. Existe diferença no conceito e na qualidade da informação.
Então, o arquiteto deve ter a coordenação. E mesmo
me sinto muito mais um arquiteto quando eu que estou coordenando...
aU O QUE TE MARCOU NESSE PROJETO?
CANAL Ter a oportunidade de construir
um museu de primeira categoria na minha cidade, criado por um artista
de renome internacional, talvez seja uma das maiores emoções.
Mas talvez a maior emoção ainda esteja por vir. Vai ser
quando eu presenciar as visitas das escolas públicas aqui no edifício,
com a criançada tendo acesso às grandes exposições.
Esse foi um projeto de equipe: fomos todos seduzidos pelo projeto e demos
tudo de nós para consolidar esse sonho. Na verdade, sempre tive
medo de que o projeto nunca saísse do papel, como já aconteceu
muitas vezes na história da arquitetura moderna. E agora, estou
dando essa entrevista olhando para o volume principal e a sua bela relação
com o pôr-do-sol do rio Guaíba.
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