Primeiro, entrevistando o autor do projeto para descobrir que mente doentia conseguiu encontrar uma solução tão expressiva, mas, principalmente, entender quais os problemas, questões, obstáculos de toda sorte e também idiossincrasias pessoais que foram levando o projeto para aquela direção. Depois entrevistaria o cliente, com a obra já concluída, e perguntaria o que o levou a fazer aquela obra, quais os problemas de terreno, financeiros, funcionais ou de imagem que o levaram a encomendar aquele projeto e aceitar a solução proposta, além de perguntar por que escolheu aquele arquiteto. E mais, perguntaria o que lhe satisfaz ou não no uso diário do prédio.
Procuraria ainda saber quais as questões de terreno, de solo, de vizinhança que determinaram juntamente com a arquitetura e a estrutura as soluções propostas, as descartadas e a escolhida.
Tentaria ver a relação do projeto com o entorno ou com a cidade, muito embora essas questões tenham realmente relevância na Europa. Nas Américas e na Ásia encontram-se respostas teóricas a essa questão, porque em países de vida moderna, a verdade é que o entorno não faz a mínima diferença: mais dia ou menos dia será demolido e substituído por novos edifícios.
Tudo isso faz uma crítica? Claro que não. Tudo isso descreve, explica e justifica um projeto, o que por si só já deveria ser mais do que satisfatório e suficiente para um leitor que lesse o artigo - não, não é pleonasmo, a maioria dos leitores não lê, só olha as revistas de arquitetura.
O que faria a crítica ser talvez completa seria o autor do texto ter um conhecimento das questões sociais e econômicas em que o empreendimento público ou privado se situa e principalmente, agora do ponto de vista intelectual que é indispensável a uma crítica, um conhecimento profundo da história e da teoria da arquitetura, dos projetos atuais e anteriores com os quais o projeto criticado se identifica, e mais do que tudo, do amor pela profissão, que diferencia uma simples análise, de uma crítica real e intensa de um trabalho.
Apenas pela minha total falta de interesse e conseqüente desconhecimento do assunto, não consigo entender no que a filosofia ou a psicologia influenciam um projeto arquitetônico, ou o que Kant e Kierkegaard têm a ver com isso.
Apesar da identificação constante de críticos da arquitetura com as artes plásticas, nossa ligação, ainda que abstrata, com a música é muito maior. Piet Mondrian é a exceção.
Goethe afirmava que "a arquitetura é a música petrificada". A métrica e a organização da música de Bach, absolutamente matemática, é a que mais se aproxima da arquitetura. E devemos nos lembrar de que os prédios se sustentam pelas leis da física, e não das artes plásticas.
A identificação das singelas aldeias e pequenas cidades européias com a forma de vida de seus habitantes determina uma arquitetura diferenciada para locais que se alteram a cada 50 km. O jazz identifica dezenas de edifícios pop e a exuberância da natureza do Rio de Janeiro produz, nos seus exemplos de boa arquitetura, linhas curvas e cores claras e brilhantes que só a liberdade de criação pode explicar, como a bossa nova.
Só isso? Ainda não. Ainda que seja difícil ter de abordar o assunto, ao contrário de pintura, escultura, etctrura, que não têm um aspecto funcional, construtivo ou de integração nas cidades, a arquitetura tem questões de economia, de engenharia (principalmente), de técnica e, ainda por cima, de abstração (essa sim comparável às artes plásticas), que alguém que não seja arquiteto não tem condições de absorver e, portanto, criticar.
E acreditem: até as condições administrativas e financeiras de um escritório de projetos no momento da elaboração do trabalho podem influenciar uma solução.
Exemplo: a época em que as empresas de consultoria trabalhavam para o governo pelo sistema de cost-plus/overhead, e não por valores globais. Enfim, as variáveis que influem em um projeto são as mais incríveis (vontade de um rei, sogra velha que só quer vender uma parte do terreno, falta de equipamentos de construção etc.).
Sejamos, portanto, ainda mais duros: um arquiteto pode até ter todo o conhecimento acima, mas se não estiver no batente do dia-a-dia, na discussão com o cliente, na briga por prazos e honorários, no debate com projetistas e consultores (chegam às vezes a totalizar 30 ou 40 especialidades), não conseguirá abarcar a gama infindável de influências que determinam a solução de um projeto.
Uma exceção: Ada Louise Huxtable, que não era arquiteta, mas entendia mais de tudo isso do que todos nós.
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