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Interseção

Território de contato : ladeira da misericórdia, salvador, Bahia
POR ENEIDA DE ALMEIDA, LUIS OCTÁVIO DA SILVA, MARTA BOGÉA E YOPANAN C. P. REBELLO

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RETOMAR O PLANO DE RECUPERAÇÃO PARA O CENTRO HISTÓRICO DA BAHIA (1986), DE LINA BO BARDI, MARCELO FERRAZ E MARCELO SUZUKI, DETENDO-SE NO PROJETO PILOTO LADEIRA DA MISERICÓRDIA, PASSADO TANTO TEMPO DESDE AQUELA PROPOSTA E CONSIDERANDO O ABANDONO EM QUE SE ENCONTRA, CONSTITUI O PANO DE FUNDO DA PRESENTE REFLEXÃO. NÃO COMO SIMPLES RETOMADA DE UM PROJETO PASSADO, MAS COMO SIGNIFICATIVA AÇÃO QUE MERECE ATENÇÃO POR SER UM PROJETO RELEVANTE QUE, ANTES MESMO DE SER ATIVADO, VIROU RUÍNA

O sítio de fundação da cidade de Salvador fica sobre uma falha geológica chamada Falha de Salvador. Por conta disso, estabeleceu-se, desde seus primórdios, uma cidade em dois níveis: a Cidade Alta e a Cidade Baixa. As ladeiras são, assim, decorrências da escolha dessa particular topografia que cinde a cidade em duas. O projeto de fundação de Salvador, fundamentalmente focado na sua parte Alta, é formado por uma composição que engloba uma grelha relativamente regular de ruas em ângulo reto e um sistema viário hierarquizado, soluções características do urbanismo renascentista, marcado por um complexo monumental de caráter religioso e administrativo. O plano não considerou a integração da Cidade Baixa, caracterizada pela área portuária e por atividades comerciais com um caráter mais popular. Parte da história da cidade de Salvador é a história da relação entre esses dois territórios, opostos e complementares.

Ao longo de sua história, várias das ladeiras de Salvador foram locais de boemia e de meretrício, territórios de liberdade e de tolerância das atividades reprimidas em outras localidades. As ladeiras, assim como becos e baixas, constituem espaços de sociabilidades particulares, específicas. Tal era o caso da Ladeira da Misericórdia, um dos principais e possivelmente um dos mais antigos caminhos de ligação entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa.

Uma das particularidades da Ladeira da Misericórdia, portanto, é ter sido uma dessas zonas de contato desde as primeiras décadas de existência de Salvador, fundada em 1546. Em 1587, Gabriel Soares, um cronista da época, citado por Rebouças e Godofredo Filho, já escrevia a respeito da Misericórdia: "está no meio dessa cidade uma honesta praça em que se correm touros quando convém..., e dessa mesma banda da praça, dos cantos dela, descem dois caminhos em volta para a praia, uma da banda norte que é de serventia da fonte que se diz do Pereira e do desembarque da gente dos navios..."

A "honesta praça", mencionada por Gabriel Soares vem a ser a Praça do Palácio, na qual posteriormente foram construídos os dois principais edifícios de caráter não-religioso da cidade na época, o Senado da Câmara e a Casa dos Governadores. A ladeira tangenciava os fundos da igreja e da Santa Casa de Misericórdia, da qual tomou o nome.

Ainda no século 19, o Centro da cidade de Salvador foi objeto de uma única intervenção viária de grande porte: uma nova, arrojada, larga e bem menos íngreme ladeira, chamada de ladeira da Montanha, foi inaugurada em 1878 (projeto de 1873) e converge para a mesma área de chegada da descida da Misericórdia. Esta última era ladeada pela ribanceira sobre a qual se debruçava o adro da Sé Primacial e que detinha, desde há muito, uma das vistas mais privilegiadas sobre a Cidade Baixa e a baía de Todos os Santos.

Não é de se estranhar que no Plano de Recuperação do Centro Histórico da Bahia proposto por Lina Bo Bardi e equipe a Ladeira da Misericórdia figure como seu Projeto Piloto. A área de intervenção definida no Plano Geral permite identificar que o projeto, mais do que ações pontuais e independentes, detém-se sobre a compreensão do território de modo amplo, definindo aspectos relevantes para uma reestruturação do Pelourinho como centro histórico.

A partir do presente, a recuperação de aspectos particulares de cada edifício e sua história é um importante passo na direção de salvaguardar as singularidades de cada um dos pontos de intervenção. Simultaneamente, não se priva de configurar uma coerência que permita recontá-los como parte significativa de um conjunto eleito enquanto tal, a partir de um novo contexto, em convivência com a materialidade histórica, o que torna possível reconhecer uma matriz conceitual que organiza a proposta.

Esse projeto conta com uma urdidura complexa de relações e campos de saber. Uma das mais evidentes corresponde ao feliz encontro na parceria de projeto com Lelé (João Filgueiras Lima), parceria essa que tem em Nervi seu ponto de triangulação.

Lina, Lelé e Nervi
Um episódio revelador desse entendimento é anotado pelo editor no livro João Filgueiras Lima, o Lelé, organizado por Giancarlo Latorraca. Quando os colaboradores de Lina passaram em sua casa para apanhá-la para ir ao aeroporto, Lina mandou buscar uma folha de capim-palmeira no jardim de sua casa no Morumbi, colocou-a numa caixa de sapatos e disse: "entreguem isso a Lelé e digam que eu penso em uma estrutura assim. Ele vai entender".

Além disso, Lina, entendendo o processo de concepção estrutural e construtiva de Lelé, sugere-lhe olhar as obras de Nervi, o revitalizador de uma técnica quase esquecida: a argamassa armada. Lelé agradece a lembrança, o que testemunha o post scriptum de sua carta a Lina em março de 87: "Foi muito importante examinar o material que você me mostrou do Nervi".

Lina tinha idéias muito claras a respeito da relação arquitetura-estrutura. "... A estrutura de um edifício é elevada ao nível da poesia, como parte da estética. Não há nenhuma diferença. Um arquiteto deve projetar a estrutura como projeta arquitetura, no sentido doméstico da palavra." Por isso, propõe como parceria a experiência ocorrida na Ladeira da Misericórdia, sem submissão de uma disciplina a outra, mas como projeto comum, indissociável, entre arquitetura e estrutura.

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