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Brasil

Paredes retas e superfìcies onduladas
Por Silvana Maria Rosso

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CONCEBIDA PELO PORTUGUÊS ÁLVARO SIZA VIEIRA, A NOVA SEDE DA FUNDAÇÃO IBERÊ CAMARGO INCORPORA O ESPÍRITO VANGUARDISTA DO ARTISTA PLÁSTICO GAÚCHO E NASCE DESPRETENSIOSA ENTRE A ENCOSTA E O RIO GUAÍBA. SUAS PASSARELAS RECEBEM QUEM CHEGA E TOCAM O OCASO. INTELIGENTE E SUSTENTÁVEL, O PRÉDIO GUARDA, PRESERVA E EXIBE O ACERVO DE 4 MIL OBRAS DE ARTE, E FUNCIONA AINDA COMO PRODUTOR E DIFUSOR DE ARTE MODERNA

Se, em 1943, a possibilidade de inovar os conceitos tradicionais de expor a arte instigou Frank Lloyd Wright a projetar o Guggenheim Museum de Nova York, em 1998, foram as memórias de infância que aguçaram a imaginação do arquiteto Álvaro Siza Vieira ao traçar os croquis para o concurso da nova sede da Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre.

Wright foi escalado pela colecionadora Hilla Rebay para idealizar um espaço definitivo para a coleção de pintura não-objetiva do filantropo Solomon R. Guggenheim por causa da sua irreverência. Siza Vieira foi convidado pela Fundação Iberê Camargo a participar da competição para o museu da instituição, que abrigaria um acervo com quatro mil obras e funcionaria como um centro cultural porque entendia do assunto e estava escrito em seu destino luso construir em terras tupiniquins.

Poucos sabem que nas veias desse célebre arquiteto português, dono de um currículo invejável de premiações e de mais de 100 obras construídas em três continentes, corre sangue brasileiro. "Meu pai nasceu no Belém do Pará e foi para Portugal com 12 anos. Cresci com a minha avó contando histórias do Brasil, lendo os quadrinhos do Globo Juvenil e comendo goiabada...", revela.

O que não faltaram para Siza Vieira foram inspirações. Uma delas, o próprio Gugenheim de Wright, que determinou visivelmente as formas e o conceito do edifício. Outra, o contato intenso com a obra do pintor e gravador gaúcho Iberê Camargo (1914-1994), conhecido mundialmente por seus carretéis, ciclistas, retratos e idiotas. "O ambiente físico com diferenças de nível, estrada do lado e a imensa toalha de água (o rio Guaíba) na frente também me estimularam", ressalta.

Além disso, Siza Vieira, aos 64 anos de idade, é de uma geração que bebeu na fonte da arquitetura brasileira. "Afonso Eduardo Reidy, Lucio Costa e Oscar Niemeyer... As imagens dos morros, das favelas... Tudo isso ficou fixado em minha mente", relembra o português. Quando surgiu a oportunidade de participar do concurso brasileiro, as referências subjetivas colecionadas durante a vida vieram à tona.

O arquiteto português venceu a competição e recebeu total apoio da viúva do artista, a presidente de honra da Fundação Iberê Camargo, Maria Coussirat Camargo. Os projetos do Museu de Arte Contemporânea de Santiago de Compostela, na Espanha, e o Museu de Serralves no Porto, em Portugal, credenciaram-no para tal missão, mas ele revela jamais ter conhecido os trabalhos dos outros concorrentes da competição.

Wright não viu pronto seu edifício espiralado que causou tanta polêmica. No entanto, sua construção revolucionou a arquitetura institucional, ensinando o mundo a olhar para a arte moderna. Ao contrário do norte-americano, Siza ainda vai vivenciar o seu centro cultural de formas orgânicas e geométricas que não precisa mais induzir o olhar do observador. Ele convida os visitantes a contemplar e a participar da obra contemporânea de Camargo. Condecorada com o Leão de Ouro na 8ª Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2002, a edificação já é considerada um dos melhores espaços museológicos do País.

Encaixe na topografia
Dedicado à obra de um único artista, o projeto coloca Porto Alegre na rota principal dos mais importantes centros difusores da arte moderna e contemporânea do País. Como a obra de Iberê Camargo é extensa e variada, Siza Vieira pensou em um espaço que possibilitasse mostras de diferentes abordagens. O arquiteto optou por flexibilidade de uso, sem diferenciar os ambientes destinados a exposições temporárias e permanentes. Uma resposta à tendência dos museus atuais, em que o próprio acervo dá origem a mostras de curta duração com diferentes temáticas.

A proposta de Siza Vieira respeitou a paisagem, conquistando gaúchos e agregados. O desenho adaptou-se à topografia, sem interferir no entorno, acomodando o conjunto na depressão da encosta. O terreno, pequeno, delimita-se a Sul com a escarpa compreendida entre as cotas 5 e 34, e a Norte com a avenida Padre Cacique. O edifício em concreto armado emerge como uma gigantesca escultura branca voltada para o pôr-do-sol no rio Guaíba, como se os três braços quisessem tocá-lo.

Fincada na rocha, a base é constituída por uma plataforma longa, elevada 1,40 m em relação à avenida, onde se situa parte das áreas do programa - auditório para 120 pessoas, biblioteca, ateliês com equipamentos do artista, administração, depósitos e estacionamento para 100 veículos. Nesse bloco também estão o sistema de ar-condicionado e a rede de tratamento de esgoto. Essa plataforma é acessível a partir do passeio da avenida, por uma rampa com 8% de aclive. A cafeteria localiza-se sobre a administração, no mesmo nível da rua.

O volume principal recorta-se contra a vegetação da escarpa ocupando uma concavidade, e resulta da sobreposição de quatro pisos de forma irregular. Esse volume é desenhado por paredes retas e quase ortogonais, a Sul e a Oeste, e por outra superfície ondulada, a Norte e a Leste, que confina em toda a altura do edifício o espaço do átrio - rodeado, no restante perímetro, pelas salas de exposição (três em cada pavimento). No total, são 1.300 m² para mostras. No térreo, estão também recepção, vestiário e livraria. No último piso, a cobertura em laje com acesso apenas para a manutenção.

Circulação em rampas
Seguindo o modelo do Guggenheim de Wright, Siza Vieira lançou mão de um sistema de rampas contínuas que percorre o volume de cima a baixo. Uma galeria encerrada e assimétrica, que ora entra no átrio, ora destaca-se do edifício. Diferente do pensado por Wright, que se destina à área expositiva, esse acesso íngreme, entre 8% e 9%, promove a circulação entre as diversas salas, cujas formas e tamanhos são distintos e flexíveis. Aberta pontualmente por pequenas janelas voltadas para a belíssima paisagem do rio Guaíba e por lanternins, a passarela cria um percurso dinâmico e interessante.

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Paulo Marcos Paiva de Oliveira [11/06/2008 01:20]Mensagem imprópria? Clique aqui

É uma obra vigorosa e sutil. Incorpora a luz como matéria prima de projeto e brinca com a tridimensionalidade dos volumes em claro/escuro. Contrasta suas formas brancas com a paisagem verde e convida o passante... impossível resistir a penetrá-lo e percorrê-lo. Digno da obra também vigorosa do Iberê Camargo que adoraria percorrer de bicicleta estas rampas, como se estivesse bicicletando no parque do centro de POA... ah, a luz dos seus inúmeros quadros poderá brilhar mais ainda nestes espaços... dialogando, referenciando-se mutuamente arquitetura e pinturas. Os porto-alegrenses estão de parabéns pelas obras de fora e do dentro... e quero ver daquelas janelinhas a paisagem do rio...
 
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