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SALÃO INTERNACIONAL DO MÓVEL - MILÃO 2008
UM INCERTO AMANHÃ
EM MEIO A PRODUTOS CARIMBADOS COM UM FALSO SELO DE SUSTENTABILIDADE, A FEIRA DESTACA DESENHOS MAIS DUROS E PRÁTICOS, PREPARADOS PARA UM DIFÍCIL E SOMBRIO FUTURO

POR SIMONE SAYEGH


A 47ª edição do Salão Internacional do Móvel de Milão, realizada de 16 a 21 de abril, superou todas as expectativas de público. De acordo com os organizadores, cerca de 348 mil visitantes dividiram com 2,45 mil empresas exibidoras os 530 mil m² de área do parque de exposições em Rho, na periferia de Milão. Do total, 210 mil pessoas vieram de fora da Itália, cerca de 29% a mais que a edição de 2007. Países da Europa, Ásia e até da América do Sul exportaram interessados em conferir os lançamentos de mobiliário residencial e corporativo, além de conhecer as tendências dos acessórios para decoração.

Os números mostram que o Salone Internazionale del Mobile continua a ser a maior mostra de design de mobiliário do mundo, e o centro gerador de inúmeros eventos relacionados à arte, arquitetura, design e tecnologia na cidade. No entanto, e paradoxalmente, não significam dinheiro entrando no bolso dos expositores nem qualidade de produtos.

Apesar da feira, e de toda Milão viverem uma semana eufórica, como se estivessem em um universo paralelo, pairam nuvens sombrias sobre o universo do design na Europa. Embora os países europeus não tenham sido atingidos diretamente pela crise norte-americana, as empresas ligadas à produção de design viram um de seus maiores clientes - os próprios Estados Unidos - se recolherem e passaram a contar com a nova riqueza asiática.

No entanto, a presença de muitos móveis com edições limitadas mostrou mais limites do que deveria, e a imprensa especializada criticou duramente as exposições, algumas embaladas em um ilegítimo véu de sustentabilidade, uma tentativa "verde" .

Em meio a algumas mediocridades poucas empresas realmente entenderam o que significa responsabilidade social e ambiental, e o grande e corajoso processo que acompanha essa bandeira.

Os principais compradores dos Estados Unidos e da Inglaterra já se preocupam em oferecer a seus mercados produtos ambientalmente responsáveis. Isso inclui o projeto, a fonte de matéria-prima, a produção e o transporte, etapas nada fáceis de serem adaptadas pela indústria tradicional.

Em meio a esse panorama, vale ressaltar os trabalhos do jovem designer suíço Adrien Rovero que embelezou as feias, mas ambientalmente responsáveis lâmpadas fluorescentes embalando-as em delicadas e elegantes luminárias de vidro leitoso, para a Droog, ou ainda o conceito da Artek, que reviveu um banco de Alvar Aalto, que completa 75 anos, o Stool 60s, refeito na mesma fábrica e com a mesma madeira de reflorestamento utilizada na época da concepção. Nada medíocre nisso.

Além do tema sustentabilidade, algumas empresas reviveram as tendências de tamanhos extra-grandes presentes na exposição de 2007, principalmente em objetos de decoração surrealistas. É o caso do designer espanhol Jaime Hayon que criou uma aeronave gigante recoberta por mosaicos Bisazza e da equipe de designers do alemão Studio Job que trouxe um globo gigante recheado de milhares de cristais Swarowski. No entanto, alguns dos mais impressionantes objetos da feira foram feitos com tecnologia desenvolvida centenas de anos atrás. Entre eles as pirâmides de flores criadas para a tradicional empresa de objetos cerâmicos Royal Tichelaar Makkum por quatro designers holandeses, entre eles Hella Jongerius e Studio Job, que levaram seis mil horas de trabalho para serem produzidas. Igualmente grandiosa é a coleção da Meta, braço contemporâneo da Mallet, a venerada loja de antiguidades de Londres. A designer francesa Matali Crasset fez uma bela lanterna com um antigo metal chinês, o paktong.

Grandiloqüências e beleza à parte, o verdadeiro tema dominante de grande parte das peças expostas na feira foi o chamado Survivalism, ou "sobrevivencialismo", conceito que remete a atitudes e ações de enfrentamento de um mundo sombrio e perigoso.

Ou seja, como os designers irão nos ajudar, e a si próprios, a enfrentar um mundo árido e cada vez mais hostil. Para responder a essa pergunta, os designers "sobrevivencialistas" têm adotado uma aproximação dura, áspera, quase pobre, no desenho de suas peças, com cores escuras, superfícies fracionadas e objetos com diferentes funções.

Os modelos são confeccionados com materiais descartados, pelo reúso ou reinvenção. O jovem espanhol Nacho Carbonell transformou cadeiras de plástico abandonadas na Evolution cocoons adicionando estruturas de metal recobertas com papel machê feito de jornais velhos. O designer israelense Shay Alkalay criou uma torre composta de pilhas de gavetas para a empresa Established & Sons.

Em comparação com outros anos, havia poucos produtos das grandes e estelares empresas, e os mais divulgados carregavam uma dureza ainda ingênua. No entanto, uma das mais tecnológicas produções apresentadas na feira, a cadeira Myto, desenvolvida pelo designer alemão Konstantin Grcic para a Plank com material desenvolvido pela BASF mostra em sua forma angulosa e o espírito rough and ready, ou "sem acabamento e acabado", uma honesta estética sobrevivencialista.

 
   
 
 
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