A 47ª edição do Salão Internacional do Móvel
de Milão, realizada de 16 a 21 de abril, superou todas as expectativas
de público. De acordo com os organizadores, cerca de 348 mil visitantes
dividiram com 2,45 mil empresas exibidoras os 530 mil m² de área
do parque de exposições em Rho, na periferia de Milão.
Do total, 210 mil pessoas vieram de fora da Itália, cerca de 29%
a mais que a edição de 2007. Países da Europa, Ásia
e até da América do Sul exportaram interessados em conferir
os lançamentos de mobiliário residencial e corporativo,
além de conhecer as tendências dos acessórios para
decoração.
Os números mostram que o Salone Internazionale del Mobile continua
a ser a maior mostra de design de mobiliário do mundo, e o centro
gerador de inúmeros eventos relacionados à arte, arquitetura,
design e tecnologia na cidade. No entanto, e paradoxalmente, não
significam dinheiro entrando no bolso dos expositores nem qualidade de
produtos.
Apesar da feira, e de toda Milão viverem uma semana eufórica,
como se estivessem em um universo paralelo, pairam nuvens sombrias sobre
o universo do design na Europa. Embora os países europeus não
tenham sido atingidos diretamente pela crise norte-americana, as empresas
ligadas à produção de design viram um de seus maiores
clientes - os próprios Estados Unidos - se recolherem
e passaram a contar com a nova riqueza asiática.
No entanto, a presença de muitos móveis com edições
limitadas mostrou mais limites do que deveria, e a imprensa especializada
criticou duramente as exposições, algumas embaladas em um
ilegítimo véu de sustentabilidade, uma tentativa "verde"
.
Em meio a algumas mediocridades poucas empresas realmente entenderam
o que significa responsabilidade social e ambiental, e o grande e corajoso
processo que acompanha essa bandeira.
Os principais compradores dos Estados Unidos e da Inglaterra já
se preocupam em oferecer a seus mercados produtos ambientalmente responsáveis.
Isso inclui o projeto, a fonte de matéria-prima, a produção
e o transporte, etapas nada fáceis de serem adaptadas pela indústria
tradicional.
Em meio a esse panorama, vale ressaltar os trabalhos do jovem designer
suíço Adrien Rovero que embelezou as feias, mas ambientalmente
responsáveis lâmpadas fluorescentes embalando-as em delicadas
e elegantes luminárias de vidro leitoso, para a Droog, ou ainda
o conceito da Artek, que reviveu um banco de Alvar Aalto, que completa
75 anos, o Stool 60s, refeito na mesma fábrica e com a mesma madeira
de reflorestamento utilizada na época da concepção.
Nada medíocre nisso.
Além do tema sustentabilidade, algumas empresas reviveram as tendências
de tamanhos extra-grandes presentes na exposição de 2007,
principalmente em objetos de decoração surrealistas. É
o caso do designer espanhol Jaime Hayon que criou uma aeronave gigante
recoberta por mosaicos Bisazza e da equipe de designers do alemão
Studio Job que trouxe um globo gigante recheado de milhares de cristais
Swarowski. No entanto, alguns dos mais impressionantes objetos da feira
foram feitos com tecnologia desenvolvida centenas de anos atrás.
Entre eles as pirâmides de flores criadas para a tradicional empresa
de objetos cerâmicos Royal Tichelaar Makkum por quatro designers
holandeses, entre eles Hella Jongerius e Studio Job, que levaram seis
mil horas de trabalho para serem produzidas. Igualmente grandiosa é
a coleção da Meta, braço contemporâneo da Mallet,
a venerada loja de antiguidades de Londres. A designer francesa Matali
Crasset fez uma bela lanterna com um antigo metal chinês, o paktong.
Grandiloqüências e beleza à parte, o verdadeiro tema
dominante de grande parte das peças expostas na feira foi o chamado
Survivalism, ou "sobrevivencialismo", conceito que remete
a atitudes e ações de enfrentamento de um mundo sombrio
e perigoso.
Ou seja, como os designers irão nos ajudar, e a si próprios,
a enfrentar um mundo árido e cada vez mais hostil. Para responder
a essa pergunta, os designers "sobrevivencialistas" têm
adotado uma aproximação dura, áspera, quase pobre,
no desenho de suas peças, com cores escuras, superfícies
fracionadas e objetos com diferentes funções.
Os modelos são confeccionados com materiais descartados, pelo
reúso ou reinvenção. O jovem espanhol Nacho Carbonell
transformou cadeiras de plástico abandonadas na Evolution cocoons
adicionando estruturas de metal recobertas com papel machê feito
de jornais velhos. O designer israelense Shay Alkalay criou uma torre
composta de pilhas de gavetas para a empresa Established & Sons.
Em comparação com outros anos, havia poucos produtos das
grandes e estelares empresas, e os mais divulgados carregavam uma dureza
ainda ingênua. No entanto, uma das mais tecnológicas produções
apresentadas na feira, a cadeira Myto, desenvolvida pelo designer alemão
Konstantin Grcic para a Plank com material desenvolvido pela BASF mostra
em sua forma angulosa e o espírito rough and ready, ou "sem
acabamento e acabado", uma honesta estética sobrevivencialista.