Os arquitetos equatorianos Adrian Moreno Núñez e Maria Samaniego Ponce moram com a filha de dois anos e oito meses em uma casa transparente cercada pela natureza e por cordilheiras. Como se não bastasse o cenário, vivem em uma residência projetada por eles próprios, com pátio interno, integrada com a paisagem, composta por sistemas construtivos modulares, industrializados e leves. Mas, antes de viabilizar a residência dos sonhos, batizada de "Casa X" e localizada entre o Vale de Tumbaco e Quito, no Equador, o casal percorreu um longo caminho no que se refere à criação e à obtenção de recursos para a construção.
A ausência de capital e de um terreno não impediu os arquitetos de iniciar o trabalho, em 2003. Ao contrário: a vontade de projetar a própria casa era tanta que impulsionou a dupla a pensar em um protótipo que servisse de embrião para o futuro projeto da residência. "O objetivo era desenvolver um sistema modular que pudesse ser aplicado em qualquer lugar, no momento em que fosse conveniente para nós", explica Adrian Moreno.
Moreno conta que, ainda em 2003, surgiu a oportunidade de desenvolver algumas residências em um terreno familiar. "Mesmo sem condições econômicas, começamos a exercitar de maneira mais concreta uma idéia genérica que, pouco a pouco, foi se materializando, sem perder sua essência original de solução prototípica de casa", acrescenta o arquiteto. "Foi com o dinheiro da construção dessas casas que conseguimos capital para erguer a nossa", diz ele. Finalmente, em 2006, a dupla concluiu a própria residência, implantada em um terreno de 14 mil m².
A utilização das formas abstratas e a aplicação dos materiais industriais, traços marcantes da Casa X, também estão presentes no trabalho do escultor minimalista norte-americano Donald Judd, cujo trabalho serviu como fonte de inspiração para os arquitetos na criação da própria morada. A dupla diz incorporar em seus trabalhos lições de importantes nomes da arquitetura como Mies van der Rohe, Richard Neutra, Marcel Breuer, Luis Barragán, Eduardo Souto de Moura, as primeiras obras de Herzog & De Meuron, Rem Koolhas, Mathias Klotz, Alejandro Aravena e de equatorianos como o Taller 4.
Grosso modo, a casa resulta da combinação de elementos relativamente simples como uma caixa aberta, volumes transparentes de vidro e de policarbonato e um pátio. Composta por painéis de aço laminado, compensado (normal e naval) e lã de vidro, a caixa é sustentada por uma estrutura leve de aço. Circulação e serviços foram inseridos em um volume saliente em policarbonato alveolar de 8 mm que, segundo os autores do projeto, não é capaz de proteger a construção do aquecimento excessivo causado pelo sol da tarde, mesmo com as aberturas previstas na parte superior do elemento, para saída de ar quente. "Deveria ter especificado o policarbonato de uma polegada", avalia Moreno.
À noite, o mesmo volume de policarbonato ganha um aspecto futurista com a iluminação de lâmpadas fluorescentes posicionadas verticalmente. Percebe-se, sobretudo nesse trecho, influência forte de Judd, cujo trabalho incorpora, de forma análoga, materiais plásticos e lâmpadas na geração de formas abstratas e geométricas. Outro elemento marcante na arquitetura da Casa X é o pátio que, segundo os autores do projeto, traz à família uma noção plena aos sentidos da passagem do tempo e do clima locais. "É um luxo que nós podemos ter aqui, onde o clima é mais ameno que o do resto do país, já que estamos a 2.470 m acima do nível do mar", explica o arquiteto.
A construção dispõe de dois tipos de fundação de concreto que foram estrategicamente pensados e combinados para que a casa pudesse se adaptar a qualquer tipo de terreno, desde um mais plano até um mais acidentado. Além das sapatas isoladas, foram executadas sapatas corridas perimetrais que, ao erguer a casa em 90 cm, deixam a construção absolutamente livre do solo, reforçando seu caráter de objeto abstrato que poderia estar implantado em qualquer terreno. "O desafio desse projeto foi pôr à prova as idéias do genérico para o específico, desde a conceituação básica da casa até a elaboração das soluções materiais, construtivas e econômicas", finaliza Moreno.
THE ARCHITECTURE OF ABSTRACTION
Before making the residence nicknamed "Casa X" (X House) located between the Tumbaco Valley and Quito, in Equador, viable, the Ecuadorian architects Adrian Moreno Núñez and Maria Samaniego Ponce walked a long way to obtain and raise funds for the construction. The desire to design their own home motivated the duo to think of a prototype which would serve as an embryo for the residence's future design. "The objective was to develop a modular system which could be applied anywhere, whenever it would be convenient for us", explains Adrian. The house is the result of a combination of relatively simple elements such as an open box, transparent glass and polycarbonate volumes, and a patio. Composed by laminated steel panels, compensated wood (normal and naval) and glass wool, the box is sustained by a light steel structure. Circulation and services were inserted in a conspicuous alveolar polycarbonate volume. At night, the same volume gains a futuristic aspect due to the vertically positioned fluorescent lamps lighting. The construction is provided with two types of concrete foundations which were strategically created and combined so that the house could be adapted to any type of terrain, from a flatter to a more irregular one.
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