HÁ UM TIME DE JOVENS ARQUITETOS LATINO-AMERICANOS QUE TEM ALCANÇADO PROJEÇÃO INTERNACIONAL, COM TRABALHOS RECONHECIDOS POR SUA QUALIDADE. MAS SERÁ QUE NA PRODUÇÃO DESSES ARQUITETOS É POSSÍVEL NOTAR ALGUMA RUPTURA OU CONTINUIDADE EM RELAÇÃO À TRADIÇÃO DE SEUS PAÍSES? INDO MAIS ALÉM, AU PERGUNTA: "ESTARÍAMOS DIANTE DO SURGIMENTO DE UMA ARQUITETURA GENUINAMENTE LATINO-AMERICANA?"
Creio que o pior que um arquiteto pode fazer é se dizer genuíno ou, nesse caso, genuinamente latino-americano. A nossa atividade trata de fazer projetos contestando as perguntas como for o caso. Não se trata de uma identidade nacional ou continental como tema, mas sim, de pertinência e adequação.
Alejandro Aravena, arquiteto chileno, é diretor-executivo da Elemental
É certo que a arquitetura recente rompe com a tradição? Duvido. Pelo menos no Chile há um compromisso tácito com as idéias do Movimento Moderno e uma revisão de sua vigência. Eu vejo isso mais como uma continuidade do que como um rompimento com a tradição arquitetônica que se instalou no século 20 em muitos países sul-americanos. Sobre a suposta identidade latino-americana, é preciso considerar que esse é um continente de imigrantes europeus e nativos americanos, onde muitos escritórios de arquitetura são compostos por sócios de diferentes nacionalidades e em um contexto onde o trabalho em outro país é cada vez mais usual. Questionar sobre a identidade latino-americana é, portanto, desnecessário. De fato, o intercâmbio e a mobilidade são chaves para entender o que está se passando com a arquitetura na América do Sul, mais que a insistência em uma visão taciturna do que chamamos "local".
Patricio Mardones Hiche, arquiteto, é coordenador editorial da revista chilena Arq
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A tensão entre modernidade e tradição, entre regionalismo e universalismo, não precisa ser resolvida pela exacerbação das pontas, mas pela busca de equilíbrio entre opostos aparentes. Porque, de fato, o que se chama de regionalismo não é algo contrário a um espírito mais universal, mas apenas a resposta apropriada e possível de anseios que todos temos como arquitetos, de bem atender ao lugar, ao programa, ao cliente. Parece-me que essa é a busca de toda uma nova geração de arquitetos latino-americanos. Os quais, nem por isso, descuidam da busca da beleza formal - que continuará sendo sempre imprescindível.
Ruth Verde Zein, arquiteta e urbanista, crítica de arquitetura e professora da Universidade Mackenzie
Há um grupo que desponta claramente vinculado à tradição moderna e nada preocupado em afirmar identidades. De outros modernismos se andava cheio, e há tempos já se sabe que opor o nacional ou o regional ao internacional é bobagem. O genuinamente latino-americano tem muito de europeu e ianque, e vice-versa. Não há problema nisso! Na verdade, o que é genuíno e animador, em um meio uniformemente escasso de recursos, é a preocupação da maioria desses jovens arquitetos com a economia entendida como fazer o máximo com o mínimo em qualquer escala de intervenção, com a sustentabilidade como âncora de sensibilidade. Agora, se a produção ainda é essencialmente doméstica, o problema é um encargo privado e público que privilegia em massa o medíocre, e dá pouca oportunidade à qualidade.
Carlos Eduardo Comas, arquiteto e urbanista, professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Não me parece que haja propriamente uma arquitetura genuinamente latino-americana, mas com certeza há uma aproximação entre as produções dos países da América Latina ou, principalmente, uma aproximação cultural e política do Brasil com seus vizinhos. E há um lugar no mundo para essa produção, se quisermos entendê-la de um modo coletivo. Questões políticas, sociais e territoriais aproximam nosso universo profissional. A Bienal Ibero-americana, pelas exposições, palestras e catálogos, registra com nitidez as afinidades e diferenças num plano geral dessas diversas produções. Deve-se notar também um intercâmbio crescente entre as escolas de arquitetura latino-americanas.
Fernanda Barbara, arquiteta e urbanista do escritório UNA Arquitetos