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Reportagens

Como nuvens entre montanhas
Soluções arquitetônicas bem pensadas permitem a sensação de aconchego em um quase-pavilhão com respeito à paisagem

POR SILAS MARTÍ

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Sobre a mesinha da sala de espera dos arquitetos, há um livro enorme com croquis e toda a história das Case Study Houses. Foram construções californianas de arquitetos como Richard Neutra e Charles e Ray Eames que mudaram as bases da construção residencial ainda nos anos 40. Logo ao lado, está a maquete da Casa Grelha, um ambicioso projeto do escritório Forte, Gimenes & Marcondes Ferraz, que parece ter tirado dos experimentos do livro algumas idéias-chave. "Alguns dos conceitos são similares", admite Fernando Forte, um dos sócios do escritório.

A Casa Grelha se acomoda delicadamente a um terreno de 65 mil m², coberto pelo verde da mata Atlântica, na serra da Mantiqueira, em São Paulo. Feita de madeira, parece flutuar e se mescla às copas das árvores. O nome vem da estrutura suspensa em formato de grelha, que esquadrinha o espaço em módulos cúbicos, todos com as mesmas medidas, uns cheios, outros vazios: ambientes internos, varandas e vãos livres, estes sem teto nem piso. 

Foram três as exigências dos clientes: que a casa fosse térrea, que todos os espaços fossem interligados sem comprometer a privacidade dos moradores e convidados, e que a construção se integrasse à natureza - eco dos experimentos californianos. Outra questão era evitar que a casa ficasse exposta aos ventos frios e à umidade da região. 

A solução para construir uma casa térrea em um terreno extremamente acidentado, cheio de curvas, depressões e formações rochosas foi erguer toda a estrutura sobre pilotis de concreto de alturas que variam de acordo com o relevo. São 89 deles, os mais altos com 5 m. Os arquitetos optaram por incrustar a casa num vale do terreno, formando uma espécie de ponte entre duas elevações naturais e mantendo a construção, embora suspensa, no mesmo nível do solo.  

A idéia de ponte e circulação norteou, enfim, toda a construção. Depois de várias visitas ao terreno, os arquitetos notaram que o vale onde acabariam erguendo a casa era um ponto de encontro natural dos caminhos percorridos. "Fica no caminho para o rio, no início da trilha que leva à mata e no começo da subida para o morro", explica Rodrigo Marcondes Ferraz, outro sócio do escritório.

A casa em si acaba sendo elemento de ligação integrado ao terreno. É possível ir de um lado a outro do vale, passando por dentro da casa, por cima dela, pelo teto-jardim, e por baixo, onde está outro jardim que manteve as  pedras do local aliadas a um paisagismo com espécies nativas.

O desafio foi manter livre o espaço embaixo da casa, entrecortado pelos pilares de sustentação. "A gente não queria colocar a casa no centro das circulações e impedir o movimento", explica Forte. Para evitar um excesso de pilares, o projeto adotou o uso de vigas-vagão, estruturas em aço, uma espécie de telhado invertido, capaz de suplantar uma fileira inteira de pilotis. Como cada lado de um quadrado na grelha mede 5,5 m, a extinção de uma dessas fileiras a cada dois módulos permitiu criar três vãos livres de 11 m de largura sob a casa, liberando o espaço para o projeto paisagístico.   

Também houve um cuidado para manter certa harmonia entre cores e dimensões. O aço corten das vigas, com um tom natural de ferrugem, harmoniza-se com a cor da madeira piquiá do resto da estrutura. Embora varie a espessura das vigas, dependendo do peso do módulo da casa que sustentam, a altura das peças é sempre a mesma, formando uma grelha homogênea, em simbiose com a natureza circundante. Esse aspecto é realçado pelos espaços vazados no meio da estrutura, por onde crescem grandes árvores. "A idéia era manter esse espaço por onde as árvores vão crescer", diz Forte. "Essa estrutura emoldura a paisagem. A casa vai sumindo na natureza: você vai andando e vai vendo quadros", descreve o arquiteto.

O uso de paredes de vidro nas áreas comuns e a eliminação de guarda-corpos nas varandas, onde foram substituídos por bancos, e no terraço-jardim, onde espelhos d''''água demarcam o limite do espaço, também ajudam a integrar a construção à paisagem. O teto, aliás, está ligado ao terreno por arrimos de pedra nas duas extremidades, como se a estrutura fosse uma continuação ortogonal do entorno sinuoso. Dessa forma, a casa consegue se misturar à natureza e atender os desejos de privacidade dos clientes.

"É um casal com três filhos, na casa dos 30 anos cada um. Os filhos necessitam de certa independência ainda que quisessem ficar ligados ao restante da familia", conta Marcondes Ferraz. A casa então se distribui entre uma área comum, onde estão os ambientes de estar e o quarto do casal, e três blocos isolados do resto por módulos vazios na grelha, onde ficam os quartos dos filhos.

Num espaço construído de 2 mil m², outro fator importante era evitar a impressão de grande pavilhão vazio. "O casal não queria se sentir em um casarão vazio", lembra Forte. A solução foi evitar paredes sólidas, optando pela fusão dos ambientes ou divisões de vidro. "Quando estão lá sozinhos, utilizando só a área comum, dizem que é mais aconchegante que o apartamento deles em São Paulo."    

Cerca de 25% do total da área construída, esses espaços vazados entre a área comum e os quartos dos filhos dão continuidade à estrutura geométrica da grelha, em contraste com o entorno de Mata Atlântica preservada. "Todos os nossos projetos têm a estrutura como elemento organizador", afirma Forte. "Aqui tentamos levar a idéia ao limite, com a estrutura em evidência. As vigas estão no nível da sala, aparecem no chão, no teto." E continuam do lado de fora.

Essa exacerbação da estrutura aparece no ponto de encontro entre os pilares de concreto e a base da estrutura de madeira. Pequenas peças de aço fazem a transição entre os materiais, evitando que o concreto encoste direto na madeira. É um detalhe, herança do modernismo brasileiro - assim como o uso dos pilotis de concreto-, que acentua o caráter de leveza. "É muito do Vilanova Artigas, isso de destacar os pontos de apoio", diz Forte.

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