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Reportagens

Como nuvens entre montanhas
Soluções arquitetônicas bem pensadas permitem a sensação de aconchego em um quase-pavilhão com respeito à paisagem

POR SILAS MARTÍ



O paisagismo acompanha esse jogo de contrastes entre área construída e o entorno. Enquanto em cima a natureza foi domada para acompanhar a estrutura geométrica da construção, acontece o contrário do lado de baixo da casa, onde a arquitetura se esforça para manter a natureza em estado selvagem. Uma solução para integrar a paisagem sob a casa ao terreno circundante, ladeado por dois rios, foi canalizar os excessos da caixa d''''água para desembocar sobre uma grande pedra original do terreno, que os arquitetos mantiveram no lugar. Isso é possível porque as caixas d''''água são abastecidas por um tipo de alimentação constante, o que faz com que haja um excesso permanente de água na caixa. Assim, o volume excedente é desviado para um espelho d''''água por meio de um ladrão na caixa, para logo em seguida fluir até o rio.

Mesmo nesse jardim sinuoso ou no terraço, a estrutura da grelha se faz presente, deixando em evidência as divisões entre os módulos. "Em qualquer ponto da casa em que você esteja, sabe onde está na grelha", acrescenta Marcondes Ferraz. "Com essa organização, acontece uma mudança tradicional da idéia de casa, que seria um volume fechado com quatro fachadas. Esta casa não tem uma fachada principal", lembra o arquiteto, pois a cada local da estrutura em que você está, avista uma série de visuais novos e diferentes.

E enquanto a estrutura do programa principal se ancora na solidez da natureza, os arquitetos alçaram um vôo, literal, no chamado pavilhão de lazer. "A casa lá embaixo fica contida, incrustada entre muros de pedra. Aqui em cima, as construções ficam soltas sobre o terreno", diz Forte. Sobre o morro, as vigas-metálicas em formato de asa-delta dão sustentação a duas construções frente a frente, separadas por um gramado, que serve de salão de festas ao ar livre. "A gente quis criar esse espaço vazio entre os pavilhões, livre de qualquer interferência. Essa é a única área plana gramada do terreno."

A parte mais ocupada dessas edificações, que abrigam sauna, churrasqueira e salão de jogos, se debruça sobre o despenhadeiro, dando a impressão de uma construção flutuante, que não toca o chão. "Você não vê o piso, é como estar num balão", descreve Forte. Nessas áreas de lazer, surge uma leveza mais ousada, com vista para o terraço-jardim sobre o teto da casa principal. Lá de cima, é possível avistar também as áreas de serviço: garagens e residência do caseiro, todas feitas em pedra, o material servindo para determinar a função.

Com a casa principal, o pavilhão de lazer e as construções de apoio, Forte, Gimenes e Marconde Ferraz fizeram um complexo funcional, integrado à natureza. E por isso mesmo é um projeto a longo prazo. Os arquitetos acreditam que a Casa Grelha só vai ganhar corpo quando as árvores terminarem de crescer no meio dos espaços vazios da casa, concluindo a fusão que almejavam.

A CASA GRELHA

POR MONICA JUNQUEIRA DE CAMARGO

O projeto para esta estância de lazer teve como principal desafio a conciliação das particularidades do programa e das condicionantes impostas pelo cliente - uma casa térrea, com a exuberância da natureza. Um sítio de 22 alqueires em área de natureza privilegiada, dos quais 65 mil m² localizados em ponto estratégico à contemplação da paisagem, constitui o terreno  para a intervenção.

Os arquitetos Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz, sócios desde quando ainda eram estudantes na FAUUSP, onde se formaram entre 2001 e 2003, enfrentaram a tarefa com firme propósito investigativo, com especulações em todas as direções: funcional, tecnológica, plástica, ambiental e construtiva, uma vez que se responsabilizaram também pela execução.

A magnificência da natureza local é sem dúvida o dado mais relevante do projeto e a constatação da impossibilidade de com ela concorrer revela a perspicácia dos arquitetos, que souberam a ela se aliar, numa atitude a um só tempo de integrada parceria e de total contraste. As edificações por eles propostas se encaixam entre as variações da topografia tal como nuvens enclausuradas entre montanhas, preenchendo os vazios intermediários sem, contudo, com elas se confundirem.   

A opção para enfatizar o contraste entre natureza e edificação recaiu sobre a racionalidade do desenho, baseado numa rígida malha ortogonal com modulação de 5,5 m x 5,5 m que ordena toda a construção, daí a denominação desta obra, pelos próprios arquitetos, como A Casa Grelha. A padronização das medidas, que em distintos níveis relaciona todos os componentes de uma mesma edificação e todas entre si, constitui um forte fator de intensificação do projeto, uma vez que torna a intervenção facilmente perceptível e claramente compreensível. Também a ênfase na evidência dos elementos construtivos permite uma rápida distinção entre o terreno original e o espaço construído, enquanto o projeto integrado de arquitetura e paisagismo, este de autoria de Sidney Linhares e Fernando Chacel, desenvolvidos em total harmonia, resultou numa intervenção de muito equilíbrio, cujos limites entre ambos são difíceis de serem estabelecidos. Razão e natureza aqui não se confundem, mas se complementam num harmônico diálogo.

O programa típico de unidades familiares de lazer que inclui ambientes para recreação coletiva, áreas de repouso privativas e infra-estrutura de serviços independente foi setorizado em quatro pontos estratégicos, distribuídos pelo percurso de subida do morro, contribuindo para chamar a atenção para a topografia local. Na entrada da propriedade estão implantados em dois blocos distintos, a casa de caseiro e a lavanderia, e hoje já se encontra em construção uma segunda casa para funcionários, não prevista no projeto original.

Continuando o trajeto, a uma distância de 200 m acima está a garagem social e entre esses dois pontos, uma quadra de tênis.

Essas edificações de apoio, definidas a partir da modulação comum a todo projeto, são facilmente diferenciadas das principais pelos componentes estruturais e pelos materiais: empenas de pedras, aproveitadas das escavações necessárias às fundações e cortadas na própria área e telhado de uma só inclinação de telhas metálicas - enquanto a caxilharia de madeira é a mesma utilizada em todas as unidades, reforçando assim a unidade projetual.

Pouco antes de atingir o ponto mais alto do terreno, em um pequeno vale com grandes pedras nas encostas - conhecido ponto de encontro dos caminhos para a mata, rios, e locais de contemplação da riqueza natural - descortina-se a unidade principal. Incrustada na depressão do terreno, a edificação se configura menos como um abrigo ou refúgio, característico das casas de montanha e mais como um amplo belvedere, cuja transparência propicia a apreensão da exuberante paisagem enquanto a trama estrutural a emoldura em módulos padronizados, conferindo-lhe um caráter pictórico.

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