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Entrevista

Jovens rebeldes?
Reflexões sobre a arquitetura na América Latina e os caminhos das novas gerações

POR BIANCA ANTUNES FOTO MOSKOW/ASTHA PRODUÇÃO

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Andrés Duany, o guru do new urbanism, já definia Roberto Segre como um scheptical rovering, algo como um andarilho cético no prólogo de Havana, two faces of the Antillean metropolis (2002). Pois seu destino de andarilho já estava traçado desde os cinco anos, quando veio da Itália para a América Latina, mais precisamente a Argentina, em 1939. Foi em terras portenhas que Segre cresceu e escolheu sua profissão: ser arquiteto e professor de arquitetura. Em 1960, formou-se arquiteto pela Universidade de Buenos Aires, e de lá, quase como Che, foi ser um argentino na Cuba de Fidel. Era 1963 e Roberto Segre foi convidado para dar aulas de história da arquitetura na FAU de Havana em uma época em que a Revolução Cubana ainda estava mergulhada em um romantismo jovem. Sua estada em Cuba durou 31 anos - tempo suficiente para ver a grande procura por jovens arquitetos no início da Revolução até a banalização da profissão com a crise que acompanhou Cuba após o fim da União Soviética.

Desde 1994, fez do Rio de Janeiro sua morada e do português sua mais nova língua: há 14 anos, é professor do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (Prourb) na FAU-UFRJ. Nunca deixou de integrar as culturas latinas em seus estudos e pesquisas, sempre bem informado sobre o que acontece na arquitetura de todo o continente - claro, sem permitir que o ceticismo atrapalhasse sua veia andarilha e vice-versa. É autor de livros como América Latina en su Arquitectura (1975), de Brasil. Jovens Arquitetos (2004) e do mais recente Oscar Niemeyer 100 anos-100 obras (2007), entre mais de 300 ensaios e 30 livros sobre arquitetura e urbanismo na América Latina e no Caribe.

Por todo esse histórico e com a competência de quem vive o dia-a-dia da arquitetura na América Latina, Roberto Segre é o entrevistado desta edição especial de AU.

aU É COSTUME DIZER QUE O BRASIL VIVE DE COSTAS PARA OS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA, PREFERINDO OLHAR PARA OUTROS CONTINENTES. ISSO TAMBÉM ACONTECE COM A ARQUITETURA?
ROBERTO SEGRE
Desde finais do século passado, já não se pode dizer isso. Múltiplas iniciativas têm articulado o relacionamento entre literatos, músicos, cineastas e artistas plásticos. E isso acontece também na arquitetura. Pouco a pouco as duas principais revistas brasileiras publicam obras de arquitetos latino-americanos, que estão também em júri de premiações, no congresso Ibero-Americano, nos seminários do grupo SAL (Seminário de Arquitetura Latino-americana), nas Bienais de Arquitetura de São Paulo. Além dos intercâmbios existentes entre as escolas: a FAU de Porto Alegre e a FAU de Montevidéu têm um forte relacionamento, e estudantes brasileiros passam estágios em Buenos Aires e em Rosário, na Argentina. Nos últimos anos, profissionais estrangeiros defenderam mestrados e doutorados no Brasil: Fernando Diez, diretor da revista portenha Summa+, o fez na UFRGS.

aU OS ARQUITETOS BRASILEIROS TÊM MAIS O QUE TROCAR COM OS PROFISSIONAIS LATINO-AMERICANOS DO QUE COM OS EUROPEUS, POR EXEMPLO?
SEGRE
Não se trata de uma troca, mas de uma consciência de ter de afrontar problemas comuns em condições sociais, econômicas e culturais semelhantes, o que não acontece com os europeus, onde mais do que troca existe uma assimilação de inovações e invenções formais, e da utilização de novas técnicas e materiais. Por exemplo, com as escassas iniciativas governamentais brasileiras no campo da renovação urbana, as experiências de Puerto Madero em Buenos Aires, das praças urbanas em Bogotá e Medellín e do paisagismo no México DF constituem uma importante referência para as futuras experiências locais.

aU HÁ ALGUMA CARACTERÍSTICA QUE UNA A ARQUITETURA ATUAL NA AMÉRICA LATINA?
SEGRE
No ano passado, a crítica de arquitetura mexicana Louise Noelle publicou dois luxuosos volumes dedicados a 40 arquitetos ibero-americanos que apontam para o século 21 (Arquitetos Ibero-americanos, Século 21). Esse panorama mostra as coincidências e divergências que existem na nossa região. Hoje, no mundo globalizado, é cada vez mais difícil definir características regionais. Daí que considero mais sensato falar de uma arquitetura na América Latina do que de uma arquitetura latino-americana. Os contrastes sociais e econômicos que dominam no continente - a ostentosa riqueza nas metrópoles cosmopolitas como Buenos Aires, São Paulo ou México DF; e a miséria dos assentamentos espontâneos nos subúrbios -, também se manifestam na arquitetura. Existe uma arquitetura cosmopolita elaborada pelos grandes escritórios como o de Mario Roberto Alvarez na Argentina, Teodoro González de Leon no México, Segundo Cardona em Porto Rico; e os que trabalham em contato com as comunidades carentes como o mexicano Carlos González Lobo, o venezuelano Fruto Vivas e o argentino Cláudio Caveri. Mas o que caracteriza a produção do continente e do Caribe é certa modéstia e limitação de recursos que impedem concretizar as experiências formais e espaciais da vanguarda dos países desenvolvidos. Por outra parte, não existem empreendimentos de grandes corporações internacionais com a dimensão que vemos em Dubai, na China e em alguns países asiáticos, promotores do exibicionismo formal nos edifícios públicos.

Daí a linguagem mais contida, mais severa, que com maior persistência mantém os códigos tradicionais do Movimento Moderno, o que faz com que a velocidade dos "estilos" contemporâneos desenvolvidos pelos arquitetos do jet set internacional não tenha a mesma dinâmica na América Latina. Mas com restritas possibilidades tecnológicas e materiais, existem jovens profissionais que tentam manifestar a própria capacidade criativa em uma relação dialética com o contexto em que operam.

aU É POSSÍVEL VER BONS PROJETOS, PRINCIPALMENTE DE RESIDÊNCIAS, DESTACANDO-SE ENTRE OS JOVENS. NA SUA OPINIÃO, ESSE TIPO DE PROGRAMA É UMA ESCOLHA PROFISSIONAL OU DE CIRCUNSTÂNCIAS?
SEGRE
O tema da casa unifamiliar é tão antigo quanto a cultura ocidental. Lembremos as luxuosas residências dos ricos romanos nas paisagens bucólicas de Roma e Pompéia. A ansiedade de possuir a casa própria "moderna" começou com a Red House de William Morris no século 19. A partir desse momento, o imaginário da casa como representação metafórica dos sonhos e aspirações estéticas do usuário e do arquiteto - como bem o demonstrou Gaston Bachelard, e recentemente Iñaki Abalos -, foi uma constante do século 20 e parece continuar no 21. Como hoje se fala do triunfo de Freud sobre Marx, o individualismo burguês - e agora também o déficit de individualismo dos russos e dos chineses ricos que moravam no sistema socialista -, favorece a persistente construção de casas individuais, em geral associadas aos estilos do passado.

Afortunadamente existe um grupo social culto da burguesia média que aspira a morar em uma casa desenhada por um bom arquiteto moderno, e isso permite - dadas as dimensões limitadas da encomenda -, que os jovens arquitetos possam começar a vida profissional com o projeto de uma casa. Sem dúvida, os jovens podem contribuir com idéias novas. Porque, devido a sua dimensão controlável, e ao desejo de compreender a psicologia do usuário, a resposta é sempre diferente, e se o arquiteto é criativo e o cliente sensível aos apelos estéticos do mundo contemporâneo, atinge-se uma solução inovadora.

Como estou mais perto de Marx que de Freud, sempre rejeitei a casa individual como tema significativo da arquitetura moderna, mas eu também caí na armadilha do sistema, e escrevi um livro sobre casas brasileiras.

aU É UM PARADOXO ESSES JOVENS SE INSERIREM EM UM MERCADO DE RESIDÊNCIAS UNIFAMILIARES EM PAÍSES COM GRANDE DÉFICIT DE HABITAÇÃO SOCIAL DE QUALIDADE?
SEGRE
O Movimento Moderno nasceu baseado no desejo dos arquitetos da vanguarda de resolver os graves problemas habitacionais que existiam na Europa depois da Primeira Guerra Mundial, assim como pela dura exploração dos operários nas grandes cidades industriais. Mas os ricos desejavam morar em casas individuais desenhadas pelos Mestres que aceitaram o desafio: Mies van der Rohe desenha a casa Tugendhat, Le Corbusier a Villa Savoye, Frank Lloyd Wright a Casa da Cascata, Richard Neutra a Casa no Deserto. Quase todos os arquitetos modernos desenharam uma casa paradigmática da sua linguagem. Isso também aconteceu na América Latina: no México, Barragán constrói a sua casa em Tacubaya; na Argentina Amâncio Williams, a Casa da Ponte em Mar del Plata; no Brasil Oscar Niemeyer, a sua casa em Canoas. Daí que jovens e velhos arquitetos latino-americanos responderam ao apelo dos milionários, e projetaram as luxuosas casas que persistentemente aparecem em livros e revistas de arquitetura.

Desafortunadamente, coexistem milhões de pessoas que moram em condições subumanas na maioria das cidades da América Latina, hoje mais que nunca pela inexistência de uma política estatal para a habitação popular, tema que na região sumiu nos anos 1980, na década perdida, com o triunfo do neoliberalismo e o movimento dos políticos da direita para limitar os gastos e a intervenção do Estado na solução dos graves problemas sociais.

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