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Entrevista

Jovens rebeldes?
Reflexões sobre a arquitetura na América Latina e os caminhos das novas gerações

POR BIANCA ANTUNES FOTO MOSKOW/ASTHA PRODUÇÃO


divulgação Marcelo Vila
Para Roberto Segre, os brasileiros podem confrontar problemas comuns aos de outros países latino-americanos e cita as renovações urbanas como o parque em Puerto Madero (na foto, parque Micaela Bastidas, desenhado em 2003 pelos arquitetos da Prefeitura de Buenos Aires). Esforços como o do argentino Jaime Nisnovich, que desenhou manuais de autoconstrução para moradores de bairros marginais (ao centro), também são exemplos para uma nova maneira de ver a profissão: menos como fonte de mestres e mais como o de um profissional do dia-a-dia das comunidades. À direita, livro de Louise Noelle, que faz um panorama da arquitetura na América Ibérica

aU VOCÊ NOTA ALGUMA MUDANÇA DE POSTURA NOS ESTUDANTES DE ARQUITETURA DESDE QUE COMEÇOU A LECIONAR, HÁ 51 ANOS?
SEGRE
Na década de 1950, depois da derrubada da ditadura de Perón que tinha abalado muito o nível do ensino universitário argentino, havia um grande entusiasmo na criação de uma faculdade de alto nível. Os estudantes participavam ativamente na organização dos cursos, nas atividades extracurriculares, na elaboração de publicações, na organização de exposições. A FAU de Buenos Aires fervia pelas atividades acadêmicas e pelo relacionamento com os problemas nacionais, os temas da moradia popular, os projetos baseados em necessidades sociais concretas. Também em Cuba, nos anos 1960, os estudantes participavam ativamente, tanto no trabalho no Ministério da Construção quanto no apoio à docência na Faculdade. Nessa época, a maioria dos arquitetos de renome e os professores, inconformados com a dinâmica do sistema socialista, emigraram para o exterior, e com o início dos programas massivos de construções sociais - casas populares, escolas, hospitais, povoados de camponeses -, o vazio profissional teve de ser preenchido pelos estudantes da FAU. Uma vez estabilizada a formação de arquitetos e urbanistas nos anos 1980, diminuiu a participação dos estudantes e o espírito combativo da etapa romântica da Revolução. Com a crise econômica dos anos de 1990 e a redução das construções no país, houve uma certa desmoralização nas novas gerações de arquitetos. Atualmente, no Brasil, com as dificuldades econômicas, a escassa demanda de arquitetos, a mínima iniciativa do Estado em projetos de conteúdo social, a dificuldade para os jovens estabelecerem um escritório próprio, a concentração de obras em grandes empresas de projeto onde os jovens arquitetos são assumidos como empregados não criam uma perspectiva alentadora sobre o presente e futuro da profissão.

aU OS ESTUDANTES DE ARQUITETURA ESTAVAM MAIS LIGADOS ÀS QUESTÕES POLÍTICAS E SOCIAIS?
SEGRE
Os problemas políticos e sociais de hoje são muito mais graves que os dos anos 1950 e 1960. Mas naqueles anos existia um relacionamento maior entre os governos e as necessidades sociais, baseado no esquema do Estado benfeitor. Isso facilitou a construção de grandes conjuntos habitacionais na América Latina, com a participação de profissionais de prestígio que absorviam os jovens arquitetos nos escritórios. E tinha também uma participação política dos profissionais que logo foi apagada pelas respectivas ditaduras militares. Hoje, os jovens universitários estão totalmente despolitizados. Com o sumiço do Estado do problema habitacional, há pouca perspectiva de desenhar dentro do sistema municipal ou governamental. E os grandes escritórios se dedicam a responder às exigências da especulação imobiliária, ou dos temas associados à demanda de novos centros financeiros, shoppings, hotéis de luxo.

aU PELO QUE VOCÊ DIZ, O FUTURO NÃO PARECE SER MUITO BRILHANTE PARA OS ARQUITETOS. QUAL SERIA A SAÍDA MELHOR (E MAIS PROVEITOSA PARA A ARQUITETURA)?
SEGRE
A sociedade latino-americana cada vez mais urbanizada necessita dos arquitetos. Mas tem de mudar o perfil profissional e, mais ainda, o imaginário da profissão, que foi sempre associado aos mestres famosos, aos escritórios de luxo, à sua imagem como membro dos socialites. Afirmo persistentemente que hoje o arquiteto deve ser como o dentista: um especialista tranqüilo, que mora no bairro e resolve os problemas pessoais dos membros da comunidade. Ou seja, deve ser uma pessoa modesta e anônima, que ajuda os outros a morar melhor, a ser mais feliz no seu espaço mínimo, a poder construir com elementos básicos a sua pequena casa. Em Buenos Aires, o arquiteto Rodolfo Livingston criou o consultório do arquiteto da família, para ajudar os moradores do seu bairro a resolver os pequenos problemas de reformas e mudanças na casa. E Jaime Nisnovich desenhou manuais de autoconstrução que venderam mais de cem mil exemplares em todo o país, para ajudar aos moradores suburbanos dos bairros marginais. Não acho criticável que arquitetos morem nas favelas, ou trabalhem nos milhares de pequenos municípios, o que ajudaria a melhorar a qualidade ambiental dos povoados perdidos e abandonados no território.

aU ATÉ QUE PONTO O PASSADO RECENTE INFLUENCIA - PARA O BEM OU PARA O MAL - A ARQUITETURA DESSA NOVA GERAÇÃO LATINO-AMERICANA?
SEGRE A arquitetura moderna latino-americana obteve um reconhecimento internacional quando os jovens profissionais conseguiram abandonar os modelos do racionalismo europeu ou do International Style norte-americano, e achar o próprio caminho expressivo e criativo, assumindo as próprias tradições e inserindo nas suas linguagens a cultura local. Foi a grande contribuição de Amâncio Williams na Argentina, Oscar Niemeyer no Brasil, Luis Barragán no México, Rogelio Salmona na Colômbia e Carlos Raúl Villanueva na Venezuela. Eles abriram o caminho que as novas gerações seguiram ao assumir seus valores. Mas em alguns casos esses jovens não conseguiram se liberar dos códigos arquitetônicos originais, continuaram repetindo esquemas esgotados: é o que acontece com Ricardo Legorreta, que continua o repertório de Barragán, ou os jovens paulistas que mantêm com certa rigidez a lição de Paulo Mendes da Rocha.

aU A NOSSA NOVA ARQUITETURA PAULISTA PODE SER VISTA COMO "FILHOTE DO BRUTALISMO", COMO CHEGARAM A ALEGAR ALGUNS CRÍTICOS SOBRE O LIVRO COLETIVO?
SEGRE
Eles não são "filhotes do brutalismo", mas filhotes de Paulo Mendes da Rocha. Nesse sentido, aparece mais a imagem do filho submetido que do filho rebelde, quando finalmente abandonam a expressividade dos materiais e utilizam códigos arquitetônicos reducionistas que se associam ao silêncio do minimalismo. Que é exatamente o contrário do brutalismo, que mais do que o uso do concreto exposto nasceu de uma reação contra o cansaço do International Style e da liberação das formas regulares cartesianas, como a Capela de Ronchamp de Le Corbusier ou o terminal aéreo TWA de Eero Saarinen.

aU VOCÊ JÁ ESCREVEU (AU 137) QUE O ESCASSO APOIO CULTURAL DA COMUNIDADE E O LIMITADO CONTEÚDO SOCIAL DAS OBRAS DISTANCIAM A ARQUITETURA DA ORIGINALIDADE QUE VIVE O DESIGN. ÁREAS DE DESIGN E CINEMA, POR EXEMPLO, TRILHAM CAMINHOS DIFERENTES DO DA ARQUITETURA NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA?
SEGRE Existe hoje uma defasagem entre a linguagem arquitetônica predominante e as manifestações da cultura contemporânea brasileira. Tanto o minimalismo associado à herança de Paulo Mendes da Rocha quanto as formas geométricas puras utilizadas ainda hoje por Oscar Niemeyer estão relacionados com a cultura brasileira dos anos 1950 e 1960, do Brasil "grande e moderno", da euforia dos 50 anos em cinco propostos por Kubitschek. Era a coincidência com a bossa nova e Tom Jobim na música, o concretismo na pintura e a visão romântica de Orfeu Negro de Marcel Camus. Mas esse ascetismo feliz mudou radicalmente. Vivemos esse início do século com os problemas ecológicos, sociais e econômicos que anunciam um futuro sombrio. As manifestações artísticas e culturais são os filmes de José Padilha, Tropa de Elite, de Walter Salles, Estação do Brasil ou de Fernando Meirelles, Cidade de Deus. Na pintura é a obra de Ducha, Rosângela Rennó ou José Dasmaceno, é o rap na música, expressões dos contrastes, da dinâmica estabelecida pelas mídias, pelo zapping na TV, pelas articulações globais. Esse mundo contraditório está mais perto dos irmãos Campana, de Gringo Candia e das arquiteturas heterodoxas como as de Isay Weinfeld, Ruy Ohtake, João Castro Filho e Rodrigo Azevedo.

aU QUAIS OS RUMOS dA ARQUITETURA NA AMÉRICA LATINA?
SEGRE
Não existe um caminho, mas vários caminhos. A produção identificada com a influência cosmopolita tem forte presença nas grandes metrópoles, nos prédios de escritórios, nos hotéis de luxo, nas construções esportivas e nos centros culturais. Obras sofisticadas com estrutura de aço ou de concreto que dialogam com edifícios semelhantes construídos pelos arquitetos do jet set internacional. Mas tem outros caminhos, mais modestos e referentes às condições ecológicas e climáticas, à utilização dos materiais locais e ao relacionamento com a herança histórica urbana, e o diálogo com a paisagem natural. Bruno Stagno na Costa Rica se preocupa pela criação de uma arquitetura tropical, a mágica da paisagem está presente nos hotéis de Germán del Sol no Chile, a transformação da rusticidade dos materiais naturais aparece na obra de Rafael Iglesia em Rosário, Argentina, a poética da madeira define as obras de José Cruz Ovalle no Chile e o simbolismo ideológico é representado no Centro de Estudos do Che Guevara em Havana, de José Antonio Choy. E existe uma arquitetura desenvolvida com a participação popular comunitária, tanto no tema da moradia quanto no desenho do espaço público urbano: há exemplos significativos em Buenos Aires, Bogotá, Medellín e México DF.

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