A lição do artesanato popular
Nos anos 1960 se produz a radicalização da postura política de Fruto, cujo apoio aos movimentos populares e revolucionários na América Latina será mantido até hoje, na persistência da sua tese de que "criar homens livres é a maior obra de arquitetura do nosso tempo". Realiza múltiplas experiências na habitação popular, tanto na Venezuela quanto em Cuba e Nicarágua, imaginando também que seriam idéias apropriadas para a reconstrução do Vietnã.
A sua tese é a de que a moradia não pode ser desenvolvida com soluções anônimas e burocráticas, identificadas com os blocos inexpressivos e rígidos de apartamentos que não levam em conta a cultura e os hábitos dos usuários. Quando ele fala de uma "arquitetura de massas", imagina o desenho da casa como um ato poético, capaz de criar a "arquiternura" baseada na liberdade formal e espacial do interior, elaboradas em colaboração com o usuário.
Daí a importância outorgada à participação popular na definição dos projetos e na construção dos conjuntos habitacionais. Imagina possíveis combinações entre técnicas avançadas - leves estruturas metálicas básicas - e o uso da madeira, o tijolo, o concreto e a cerâmica em painéis de preenchimento de fácil manipulação pelos usuários, sem a presença de pessoal especializado. Assim, com esses elementos tipificados, seria possível obter uma diversificação de espaços adaptados tanto à organização social da comunidade, quanto à particularidade do terreno e da geografia do sítio. A idéia de "andaimes habitados" foi desenvolvida em alguns projetos venezuelanos promovidos pelo Banco Obrero - bloco experimental El Valle (1961) - como também no conjunto Los Mangos (1981-1983) realizado com o sistema de autoconstrução.
Entre os anos 1965 e 1968 participou em Cuba das pesquisas sobre novas soluções para a habitação popular, baseadas na utilização de elementos pré-fabricados leves. No Ministério da Construção ele desenvolveu o sistema Camilo, com painéis de fibra de cana-de-açúcar, elementos cerâmicos inseridos em moldes de aço ou de concreto que chamou "marcos portantes", assim como componentes sanitários simples para reduzir o custo da construção. Com esses componentes, os usuários poderiam construir facilmente as suas casas, e também pequenos edifícios públicos como escolas e centros de saúde. Essas experiências foram continuadas nos finais dos anos 1970 quando participou da reconstrução de Nicarágua com o governo sandinista, ao finalizar a guerra civil. Foi criada a Brigada "Carlos Aponte" (1980) com equipes de estudantes de arquitetura da Universidade Central de Venezuela, que construíram uma igreja e uma praça no bairro Villa Venezuela em Manágua, e projetaram 1.300 casas em vários povoados do interior do país.
A interpretação imaginativa da natureza
A maturidade conceitual e criativa de Fruto acontece na década de 1970. Produz-se uma síntese entre a sua assimilação das tradições populares da cultura latino-americana - que ele considera a única no mundo baseada na fusão de três componentes raciais: os índios originais, os brancos europeus e os negros africanos -, e a adaptação local da tecnologia avançada. Persistente crítico da inumanidade da cidade contemporânea - selva de concreto, caracterizada pelo escasso espaço verde, e pouco propícia às relações sociais -; inimigo dos abstratos arranha-céus e dos anônimos bairros populares de blocos de apartamentos, ele propõe uma solução para uma nova forma de habitar: as "árvores para viver".
A sua postura é semelhante à de Vitruvio nos Dez livros de arquitetura e de Marc-Antoine Laugier no Essai sur l´architecture, na identificação da cabana primitiva com a definição do espaço cúbico obtido com troncos de árvores. Mas com a tecnologia contemporânea, a cabana tem uma estrutura de aço e pode existir livremente no espaço, numa distribuição semelhante aos ramos das árvores. Em uma malha estrutural de cavos, tubos, vigas e colunas de aço, se distribuem as unidades residenciais unidas entre si por pontes circulatórias, com coberturas verdes que permitiriam o desenvolvimento de uma agricultura urbana de sobrevivência. Assim, integrando uma nova dimensão social com a ecologia e a biologia, cria a bio-arquitetura, expressão de uma solução inédita latino-americana, leve e dinâmica aberta ao mundo exterior.
Fruto Vivas concretizou essa proposta em um conjunto de residências projetadas nas décadas de 1970 e 1980, criativa síntese entre elementos assumidos das tradições construtivas populares e a tecnologia avançada de aço. As casas foram concebidas como volumes suspensos no ar por uma leve estrutura metálica, e aproveitando o declive do terreno para obter um engenhoso sistema de ventilação: no centro do espaço social, ao deixar um quadrado livre com ranhuras que permite a entrada do ar fresco (cria o efeito chaminé) no espaço interno, que esquentado sai pelas aberturas localizadas no teto e nas fachadas. Assim existe uma circulação permanente da brisa, que ao mesmo tempo facilita a presença do verde dentro da casa, colocando as plantas no quadrado central utilizado para a ventilação. O que é admirável nessas casas é a simplicidade formal e volumétrica na sua imagem externa, definida pelos painéis inseridos na estrutura metálica modulada, e a riqueza espacial dos interiores, ao não existir muros de tijolos, substituídos por filtros e painéis de madeira.
Uma primeira experiência foi desenvolvida em 1965 na casa Eduardo Loaiza, em Caracas, com uma estrutura metálica com tensores que suportavam abóbadas de tijolos, e fechamentos externos com filtros e cobogós de madeira. Mas o domínio da linguagem plástica e da solução técnica aparece na casa de Homero Marin, em Caracas (1973). Nela, a frieza do exterior contrasta com a espacialidade aconchegante do interior, definida pela alternância de painéis e filtros de madeira que qualificam a luminosidade e as sombras nos diferentes locais. Valores atmosféricos obtidos também na casa do arquiteto (1975) e na casa Alvarez (1976) em Barquisimeto.
A simplicidade da estrutura leve de aço que caracteriza as obras dos anos de 1970 se transforma na procura de novas expressões plásticas nos anos de 1980. Na casa Werner (1985), em Los Guayabitos, a modulação da estrutura de aço é substituída por grandes troncos de bambu. Na residência Aldo Riccio (1987), em Barquisimeto, pilotis esculturais de concreto - clara referência à Niemeyer - mantém suspensos no ar os volumes que contêm as diferentes funções. E na casa da cantora Soledad Bravo, em Caracas (1987), Fruto Vivas estabeleceu um diálogo entre opacas e grossas paredes de pedra e a transparente estrutura metálica. Pela originalidade dessas soluções habitacionais obteve em 1987, na Venezuela, o Prêmio Nacional de Arquitetura.
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