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As árvores para viver
Comemorando os 80 anos de idade, fruto vivas é um dos mais reconhecidos arquitetos venezuelanos, ainda em plena atividade. teve o privilégio de colaborar com Oscar Niemeyer no projeto do museu de arte moderna de caracas (1955) e realizou o pavilhão de venezuela na expo 2000 de Hannover, Alemanha

POR ROBERTO SEGRE



O domínio das tecnologias avançadas
Fruto defendeu persistentemente a idéia de que cada época tem a sua linguagem própria baseada nas transformações econômicas, culturais e científicas da sociedade. Na América Latina, as tradições vernáculas não podem se conservar na persistência da pobreza da população de indígenas, camponeses e operários urbanos, espalhados em um campo inóspito e nas duras periferias urbanas. A possibilidade de humanizar o ambiente construído seria possível em uma escala massiva com as novas técnicas que permitiram concretizar a integração entre tradição e modernidade na "bio-arquitetura", que resgataria tanto os valores culturais da sociedade quanto a dimensão ecológica da natureza. Constitui uma postura a meio caminho entre o conservadorismo regionalista e o cosmopolitismo tecnocrático, o que o faz ser rejeitado pelos membros das duas ideologias extremas.

Fruto nunca desistiu de concretizar o seu sonho das árvores para viver. Um fragmento desse sonho conseguiu ser edificado em 1982 na cidade de Mérida por iniciativa de um discípulo seu, o arquiteto Salvatore Spina. O Hábitat Zumba é um edifício de apartamentos baseado em uma estrutura metálica com tensores que suportam elementos volumétricos que se espalham desde um núcleo central, criando varandas e espaços abertos em diferentes níveis. Mas o clímax foi obtido no conjunto residencial para trabalhadores da empresa do petróleo PDUSA em Lecherías, Puerto La Cruz, Estado de Anzoátegui (1994), que resume as citações de Oscar Niemeyer, o "ferro de engomar nuvens" do arquiteto russo El Lissitzky (1927) e as fantasias do grupo inglês Archigram elaboradas nos anos de 1960. Altas estruturas esculturais tetrápodes de concreto armado suportam dois grandes volumes paralelepípedos de estrutura metálica tridimensional de 81 m de extensão com balanços que se cruzam com outros quatro de 72 m. Todos suspensos no ar, que contêm as células de apartamentos.

Segundo o crítico Juan Pedro Posani, o conjunto cria uma imagem de ficção científica, quase um castelo de cartas varado na beira do mar. É a presença da utopia realizada, constituindo um modelo inédito na América Latina, imaginando a possibilidade de um novo relacionamento social no espaço urbano, contraposto ao existente no hábitat tradicional individual e nos isoladores blocos modernistas de apartamentos. 

A mais recente contribuição de Fruto é o projeto do Pavilhão da Venezuela na Exposição Universal (Expo 2000) de Hannover, Alemanha, dedicada ao tema da sustentabilidade como expressão do relacionamento entre humanidade, natureza e tecnologia. Aqui tentou de resumir esteticamente o encontro entre tradição e modernidade, integrando uma representação da identidade venezuelana com o domínio da tecnologia avançada. A síntese foi obtida na imagem de uma gigantesca flor exótica tropical - o "tepuy" - cujas 16 pétalas móveis brancas e roxas de plástico translúcido cobrem o espaço circular do pavilhão. Para a movimentação das peças foi criado um complexo mecanismo técnico colocado no interior de um capitel de 6 m de diâmetro, no topo de uma coluna de 18 m de altura. O desenho da complexa estrutura e das pétalas foi realizado em colaboração com o engenheiro-arquiteto Frei Otto, que desenhou as estruturas leves dos Jogos Olímpicos de Munique em 1972. O interior está definido por circulações abertas e a exibição da flora e fauna venezuelana, representando a importância da natureza e das preocupações ecológicas existentes no país. Na feira, foi o único pavilhão com uma estrutura dinâmica, expressivo da síntese entre a metáfora da natureza e a sua representação com instrumentos tecnológicos. Nesse sentido, ao chegar aos 80 anos de idade, Fruto continua fervendo idéias, promovendo a concretização de ideais e utopias sociais e afirmando com júbilo a sua esperança na redenção da espécie humana.

Roberto Segre é professor do Prourb da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em planejamento regional e urbano do IPPUR da UFRJ. É autor de diversos livros, como Arquitetura brasileira contemporânea, Brasil: jovens arquitetos e Casas brasileiras (Viana & Mosley Editora), além de Oscar Niemeyer 100 anos-100 obras (Instituto Tomie Ohtake).

BIBLIOGRAFIA
CASTRO, Raquel. Fruto Vivas, del barro al metal. Caracas: CGV, Siderúrgica del Orinoco, 1989.
GONZÁLEZ LOBO, Carlos. "Fruto Vivas. A construção da utopia". Em: Louise Noelle (Edit.), Arquitetos Ibero-americanos, Século 21. México DF: Fomento Cultural Banamex, pp. 582-593, 2006.
POSANI, Juan Pedro. "Fruto Vivas. Una hipótesis explicativa". Em: Dada, De Arquitectura, Diseño & Autores, Caracas: julho-agosto, pp. 12-17, 2000.
SEGRE, Roberto. América Latina, fim do milênio. Raízes e perspectivas da sua arquitetura. São Paulo: Studio Nobel, 1991.
SEGRE, Roberto. "Fruto Vivas". Em: Enciclopédia contemporânea de América Latina e de Caribe. Latinoamericana. São Paulo: Laboratório de Políticas Públicas, UERJ, Editorial Boitempo, pág. 555, 2006.
VIVAS, Fruto. Reflexiones para un mundo mejor. Caracas: Edição do Autor, 1983.
VIVAS, Fruto. Arquitectura como cultura. Barinas: Colégio de Sociólogos y Antropólogos del Estado de Barinas, 1984.

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