Albert Einstein aproveitou um eclipse total do sol para provar visualmente que luz é matéria, ao afirmar que os raios de sol se desviariam nas proximidades da lua, pela atração. "E se isso não acontecer?", perguntaram-lhe. "Então infelizmente teremos de aceitar que o bom Deus estaria errado", respondeu. Assim como ele estava errado ao colocar a falha de San Andrés sob San Francisco e Los Angeles, o anel de fogo do Pacífico embaixo da Indonésia, da Malásia e do Japão e o Pão de Açúcar exatamente no eixo da pista do aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro.
Evidentemente os conglomerados humanos que deram origem às cidades se formaram antes que a humanidade se desse conta de que o planeta é um ser vivo (e muito brabo).
E infelizmente, em grande parte das vezes, o local mais adequado funcionalmente para a localização de uma grande cidade foi exatamente o pior ponto, ou o ponto mais perigoso do ponto de vista geográfico, geológico ou climático (ou climatérico, com diria Vicente Mateus).
O encontro de dois rios é um lugar perfeito para a circulação e o comércio, só que quando enchem, a inundação é exponencial. As encostas de vulcões e planícies ao redor são fertilíssimas, mas de vez em quando cresce uma planta chamada lavas ferventis que é um problema.
E assim vai.
Não se pode naturalmente culpar nossos ante-ante-passados pela escolha do local para amarrar os burros. Mas podemos sim, atualmente, culpar os burros que governam países em manter amarradas populações enormes em locais com nenhuma proteção contra os rompantes da natureza, seja ela agredida ou não. Sabe-se hoje, com bastante precisão, quais os locais mais perigosos para os conglomerados humanos, só não se sabe quando - ainda que em certos casos seja possível prever que aí as lavas, os ventos, as montanhas e as águas vão rolar.
Para variar, as opções técnicas que devem embasar a proteção desses "privilegiados" locais, passam pela mão de geólogos, climatologistas, engenheiros, arquitetos... só que as decisões de ação passam pela mão de políticos.
A França criou há décadas uma Société Centrale pour l'Equipement du Territoire, em bom caipira, uns burocratas para planejar o território da França inteira! O próximo passo desses megalômanos seriam países menores como o Brasil, a Rússia, a Lua...
O desleixo, ou melhor, a prioridade da preocupação econômica sobre a segurança das populações muitas vezes não difere muito entre países ricos e países pobres, muito embora, em todos os casos, as questões a enfrentar sejam de planejamento urbano, regional ou até territorial, como sonharam os franceses.
As questões são a escolha dos locais a serem povoados do ponto de vista exclusivo da segurança, o que é uma utopia e um disparate, porque as variáveis que influenciam para a localização de uma cidade são uma infinidade. Além disso, evidentemente ao longo dos séculos os aglomerados humanos foram se desenvolvendo sem que alguém se preocupasse com todas as influências que o local sofreria, econômica, física ou socialmente.
Enfim, se não dá para alterar a posição das cidades (Stalin tentou mudando cidades, populações e etnias inteiras), há ações de planejamento urbano para protegê-las dos efeitos dos cataclismos, ou para retirar antecipadamente as populações, ou, no caso mais grave, uma vez atingida uma população, atendê-la e remediar os danos imediatos e ao longo do tempo.
Parece simples, se o assunto não dependesse de políticos ou de militares rebaixados à condição de políticos. Apesar de os militares serem os mais qualificados para agir em grande escala nas catástrofes, não dá para transformar defesa civil em defesa militar. São processos similares, mas finalidades diferentes.
Faz parte do planejamento urbano e da administração das cidades a preocupação com acidentes e catástrofes, mas o assunto é sempre deixado para enésimo plano. Aí vão os exemplos:
1) Avalanches: a Suíça e a Áustria, países riquíssimos, deixam que se construam estações de esportes de inverno nos locais melhores para o esqui, que é onde se dão as avalanches. A razão? Lucro com o turismo.
2) Vulcões: toda a enorme população da Indonésia e subúrbios vive onde explodiu o Krakatoa, a maior catástrofe da história da humanidade. Só estão esperando a próxima explosão. Em Montserrat, no Caribe, a população inteira da ilha foi evacuada para sempre. E no Monte Pinatubo, Filipinas, não saíram a tempo e houve centenas de mortes. Nevado Del Ruiz/Colômbia: a erupção prevista do vulcão derreteu a neve e um mar de lama sepultou várias aldeias, 20 mil pessoas e alguns vulcanólogos curiosos. Loucura: em Nápoles estão construindo um hospital na rota do Vesúvio!
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