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Especial Pini 60 anos

Clarear e expandir
Investimentos tecnológicos do vidro nas últimas décadas o transformaram em boa opção para transmitir leveza, favorecer a iluminação natural e economizar na manutenção

POR VINíCIUS SEGALLA


Os ares que renovaram os tempos e as idéias da primeira metade do século 20 na Europa e na América do Norte sopraram em terras brasileiras como uma lufada modernizadora em todos os campos culturais. Enquanto o País solidificava suas instituições políticas e fortalecia sua faceta econômica industrial, na arquitetura e na engenharia civil as novas idéias vinham na forma da adoção das recentes inovações européias e norte-americanas de conceito, técnica e estilo de construção. Novas tecnologias, que permitiam a união em um mesmo projeto de ferro, aço, cimento, vidro e outros materiais, permitiram obras como estações ferroviárias, pontes, estádios e edifícios - todos cada vez maiores. A busca pela funcionalidade, com melhor distribuição e iluminação dos espaços em busca de fins específicos, estimulou especialmente o uso de um material: o vidro.

A partir das décadas de 1940 e 1950, o uso do vidro na edificação se intensifica, na esteira das principais escolas da arquitetura mundial e sob pressão interna da modernização urbano-industrial do Brasil. Para muitos, esse foi um período de pouco desenvolvimento do vidro na arquitetura brasileira, tendo os modelos internacionais sido incorporados de forma mimética. "À exceção de Oscar Niemeyer e outros poucos nomes, houve mínima inovação no País", dispara o arquiteto Soriedem Rodrigues, professor no curso de arquitetura da Faculdade de Belas Artes.

De uma forma ou de outra, o uso do vidro além das janelas dava seus primeiros passos na metade do século. É o caso do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, de Lucio Costa e Oscar Niemeyer (1936-1943). O prédio, com fachada de vidro e brises-soleil, foi um marco inédito no Brasil. Um ano depois, foi entregue o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte: na igreja, a luz do sol atravessa a ampla fachada de vidro, iluminando um mural de Cândido Portinari.

Já na década seguinte, em 1951, Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi apresentavam sua residência no bairro do Morumbi em São Paulo, a Casa de Vidro. Com paredes inteiras de vidro, a casa expande seu espaço visual além de suas fronteiras, integrando a paisagem de um bosque de sete mil metros quadrados à vista interna da edificação.

Brasília e a evolução tecnológica
A Catedral de Brasília é um dos exemplos mais emblemáticos na nova capital quando se trata da adoção do vidro como material externo para proporcionar luminosidade nos ambientes - isso sem contar na delimitação dos espaços internos por paredes inteiramente de vidro em prédios como o do Parlamento, do Supremo Tribunal Federal e do Itamaraty.

Já inserido como personagem central na arquitetura brasileira, o vidro foi ganhando inovações tecnológicas nas décadas seguintes, até a década de 1980, quando o consumo finalmente se intensificou. "Foi quando chegou ao Brasil o primeiro vidro tipo float (cristal). Nessas alturas, o consumo anual per capita de vidro no País ficava em torno de três quilos. Hoje, está em 12 quilos, graças ao aumento da oferta e dos ganhos tecnológicos", conta o arquiteto Soriedem Rodrigues.

Mas, em um país tropical como o Brasil, a atenção deve ser redobrada quanto à especificação do tipo mais adequado. A entrada de luz e a abertura de vistas para o exterior vêm acompanhadas do excesso de energia térmica por radiação, que aquece os ambientes internos.

Técnicas como têmpera, uso de venezianas, laminação, metalização e fabricação de insulados, entre outras, deram força ao uso arquitetônico do vidro - além, claro, do mais recente tipo low-E, que reflete o calor de volta para a fonte.

No edifício que hoje é a sede da Editora Abril, na Marginal do Pinheiros, por exemplo, vidros diferentes foram utilizados em cada uma das laterais pelos arquitetos da norte-americana SOM (Skidmore, Owings & Merrill). A qualificação do material foi feita separadamente para cada lado, após estudo sobre insolação incidente nas fachadas. Quanto maior a incidência, maior a refletividade do vidro.

Unindo leveza, entrada para a luz natural e expansão dos espaços, o vidro ganhou em importância na medida em que o seu ponto fraco - o aquecimento além da conta - foi contornado com avanços tecnológicos. O vidro low-E, utilizado nas principais construções contemporâneas, dá conta de resolver o problema, tornando as edificações ecologicamente sustentáveis, com menor utilização de iluminação artificial sem a necessidade do uso excessivo de ar-condicionado para controlar as altas temperaturas.

Um passo além do progresso tecnológico estão outras preocupações de caráter social. Programas de reciclagem de vidro envolvendo toda a cadeia produtiva e sistemas de tratamento de efluentes nas fábricas são ações que já estão em prática e cujo desenvolvimento constante faz-se necessário para que o vidro permaneça como opção arquitetônica sustentável e de bom gosto.

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