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| Não existe atualmente uma confrontação entre o local e o global. A diferença está na visão e na forma de aproximação da arquitetura: uma é aberta e propositiva; a outra pousa sobre o lugar como um invasor autista e predador, forçando argumentos para substituir as autênticas definições e possibilidades de progresso. Acima, a Torre Bicentenário, projeto do holandês OMA para a Cidade do México |
Frente a essa sedução pelo globalizado e a concepção oligárquica da figura do arquiteto, deve-se opor a convicção de construir uma arquitetura imbuída de um substrato ideológico não necessariamente politizado mas definitivamente consciente de sua localização. Por essa consciência, o arquiteto deve ser capaz de planejar, a partir da ação local, uma resistência crítica e alternativa à imposição de tendências arquitetônicas e urbanísticas depredadoras globais.
Dentro de sua posição no planisfério contemporâneo, o maior baluarte que se constata na arquitetura latino-americana - e sua maior capacidade de levar a cabo uma ação potencialmente definidora de uma atividade arquitetônica para o século 21 - é o seu potencial criativo hibridado com um forte rigor. O resultado são obras de grande excelência construtiva, riqueza expressiva e sensual e complexidade conceitual de profundo valor, nas quais se interpretam e se reelaboram os fundamentos da linguagem moderna e das dinâmicas contemporâneas.
Arquiteturas regionais que assentem seu trabalho no conhecimento do lugar do qual procedem, fincando o pé num trabalho sério dão frutos e logram o reconhecimento mundial. É o caso, por exemplo, da arquitetura chilena da última década, produzida por uma geração que pelas condições econômicas e culturais favoráveis pôde desenvolver uma arquitetura de marca pessoal. Nessa nova arquitetura chilena, consegue-se um sincretismo e uma sinergia de uma arquitetura concentrada em sua própria razão de ser e que é capaz de fazer persistir seus valores mais além do efêmero e do homogeneizado. Uma arquitetura na qual se constata, particularmente no momento atual, a construção privada - mas que em alguns anos explodiu também na obra pública, época em que se logrou construir, na maioria dos casos, obras cruciais na história da arquitetura moderna.
A escala global nos situa em um momento histórico que parece representar uma ruptura violenta - e quase destrutiva - com os parâmetros da história mais recente, mas que na realidade é o início de um processo que nos torna conscientes da existência e da necessidade de elaborar outros modos de síntese e de relação com o cenário mundial. Diante de um panorama cada vez mais complexo mas também mais tendente a se homogeneizar por causa da globalização, perdendo-se características distintas locais, a arquitetura na América Ibérica se enfrenta com a superação da tentação das superestrelas que impõem uma forma de violência arquitetônica e que podem provocar nas gerações mais jovens a tentação de uma perda de identidade devido a um novo e desmedido estilo internacional, símbolo de uma arquitetura impositiva de objetivos mercantis do mundo hipercapitalizado.
Diante dessa violência falsamente compreendida como progresso, é preciso construir em direção ao futuro a partir da proximidade, enfatizar a arquitetura que mantenha o espírito do tempo e o poder da realidade - e, assim, manter-se longe das diferentes imposturas incapazes de definir a identidade de nossa época. Não categorizar uma arquitetura latino-americana mas buscar todas as arquiteturas latino-americanas possíveis.
Fredy Massad é arquiteto formado pela Universidade de Buenos Aires e Alicia Guerrero Yeste é historiadora da arte formada pela Universidade de Lleida, Espanha. Os dois são sócios do escritório ¿btbW Architecture
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