A América foi cindida pela ação colonizadora que dividiu o território único
em duas porções: a espanhola e a portuguesa. Fomos separados pelo passado.
Na partição do Novo Mundo, promovido pelo Tratado de Tordesilhas no século
15, o meridiano imaginário reservou a Portugal fundamentalmente o Atlântico,
enquanto a Espanha permaneceu com o Pacífico. Essa proximidade com os oceanos,
os vastos territórios, os horizontes intermináveis sempre nos fizeram sonhar com
o além-mar, como se fosse possível não imaginar o outro lado, mas o mesmo lado
do outro lado do Equador.
Como já insinuou Jorge Luis Borges: "Creio que somos todos europeus
desterrados, nossa cultura é a cultura ocidental e não a indígena. Não sei se a
América Latina existe como comunidade, acho que ninguém se sente
latino-americano. As pessoas podem ser mexicanas, argentinas, brasileiras, mas
latino-americano acho que ninguém se sente, eu acho".
Esse comportamento
atávico nos afastou por todos os séculos de nossa existência. A despeito de
todos os esforços contrários, a forca centrífuga provocada pela colonização nos
condenou as guerras, desavenças, diferenças, fronteiras físicas e emocionais.
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| Rafael Iglesia é um arquiteto intenso e cerebral
de Rosário, Argentina. Mais que espaços: conceitos. Não apenas idéias: uma
arquitetura forte. No alto, edifício Altamira (AU 169) e, acima, parque em
Yrigoyen, ambos em Rosário |
Sempre foi mais sedutor olhar para as respectivas e sucessivas metrópoles.
Como destaca Roberto Schwarz em sua teoria das idéias fora do lugar, onde
descreve o mecanismo singular da vida das idéias no Brasil: "Ao longo de sua
reprodução social, incansavelmente o Brasil põe e repõe idéias européias, sempre
em sentido impróprio". A partir dessa contradição típica em nossos países
formaram-se nossas culturas nacionais.
Após um período de relativa democracia nos meados do século 20, influenciados
em diferentes intensidades pela arquitetura moderna européia, vimos o surgimento
e fortalecimento de uma arquitetura moderna local, com valores universais. Essas
experiências, contudo, foram abruptamente interrompidas.
Como nos lembra Artigas, durante vinte anos os arquitetos velaram - "Do
sofrimento do nosso povo, posso dizer que participei profundamente. Alguém terá
olhos para, um dia, ler nas formas que projetei, todo esse sofrimento. Se verá
uma poética traduzida. Enfim, os arquitetos não dormiram, eles velaram".
Cassados, censurados, cindidos politicamente, profundamente enfraquecidos, era
difícil afirmarmos as posições. Talvez fosse mais conveniente assimilar os
influxos externos.
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| O escritório BAK Arquitectos (Besonías, Almeida e
Kruk), de Buenos Aires, tem uma obra marcada pelo rigor e obras primorosas como
esta pequena casa de veraneio no bosque de Mar Azul,
Argentina |
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