Propomos deixar de pensar
na moradia como um gasto, mas como um investimento social." A frase do arquiteto
chileno Alejandro Aravena explica bem os conceitos da arquitetura colocada em
prática em seus projetos para a Elemental. A empresa - na verdade, um "do tank"
com projetos para as cidades, associada à Pontifícia Universidade Católica do
Chile e à Copec (Companhia de Petróleo do Chile) - trabalha na busca de soluções
para resolver tanto o problema da habitação quanto o da integração da população
à cidade.
Dentro de um programa do Ministério da Habitação Social chileno que concede
um subsídio de 7.500 dólares por família carente para financiar a construção de
suas casas, os projetos da Elemental buscam transformar o gasto social em
investimento. "O problema é desenhar de tal forma que a residência aumente de
valor no decorrer do tempo. É algo desejável do ponto de vista do patrimônio
familiar e é um indicador de que essa família está menos pobre, porque pode
investir em sua casa e não gasta toda sua renda para sobreviver", afirma.
A verba disponibilizada para a compra de terreno, trabalhos de urbanização e
arquitetura, segundo cálculos da Elemental, só permite a construção de cerca de
30 m², conta que gera limitações ao projeto. "Mais do que uma idéia, é uma
restrição. O dinheiro não é suficiente para construir toda a casa, apenas para a
metade. Então, a pergunta-chave para essa questão é: que metade fazemos?",
questiona Aravena.
A resposta encontrada pela Elemental consiste na construção da parte mais
difícil da casa, aquela que a família nunca poderá fazer sozinha, nas palavras
de Aravena. Isso engloba banheiros, cozinha, escadas e muros intermediários. A
outra metade fica a cargo das famílias que, segundo o planejamento, podem
ampliar sua moradia até chegar a cerca de 72 m². "Fazer uma estrutura inicial
que pense no tamanho final da casa é o uso estratégico do projeto. A idéia é
fazer bem o que uma família não pode fazer individualmente e fazê-la crescer e
dispor de melhores meios para a conclusão do projeto", define o arquiteto.
Qualidade sem monotonia
Do problema da falta de recursos
acabou surgindo uma solução à monotonia e à repetição, resultados normalmente
adotados pela necessidade de baixar custos. "A segunda metade, construída pelas
famílias, customiza e personaliza a resposta, de forma que a monotonia inicial
pode ser a única maneira de fazer com que a diversidade não signifique
deterioração", avalia Aravena.
A qualidade das habitações é a grande preocupação da Elemental,
principalmente porque o projeto trabalha com várias realidades dentro do
território chileno. Como explica o arquiteto, não se trata de fazer um só
protótipo: cada conjunto teria de ter uma escala que cobrisse uma grande
quantidade de casos e realidades próprias. "As necessidades são enormes, e as
respostas têm de ser massivas. Ser capaz de manter a qualidade em grande escala
é o nosso maior desafio", afirma. Nesse sentido, a estratégia de crescimento da
moradia exigiu dos projetistas um cuidado especial na hora de pensar a forma
arquitetônica do conjunto.
Iquique
O primeiro projeto do programa foi concluído em
2004, e está localizado na cidade de Iquique, no deserto chileno. A intervenção
aconteceu a pedido do governo: era preciso radicar 100 famílias que nos últimos
30 anos haviam ocupado ilegalmente um terreno de 4 mil m², cujo preço era três
vezes maior do que um programa para habitação social normalmente pode pagar.
Decidiu-se primeiramente pela não construção de casas isoladas, pois esse
tipo de moradia beneficiaria um número reduzido de famílias - o que diminuiria o
poder de compra para adquirir o terreno, e, conseqüentemente, levaria a
população a áreas periféricas, regiões marginalizadas da rede de oportunidades
que a cidade oferece.
"Uma pergunta que temos de nos fazer bastante é onde serão construídas essas
casas. Se as habitações sociais estão integradas às redes de oportunidades das
cidades (trabalho, educação, saúde, transporte etc.) então já resolvemos um
problema sério. Modificar sua localização na cidade é algo que nunca poderá ser
melhorado por uma família", afirma o arquiteto, que considera a boa localização
um fator-chave para a valorização da moradia e a conservação da economia de cada
família.
A tipologia adotada em Iquique foi então pensada de forma a atingir uma
densidade suficiente para que se pudesse comprar o terreno. Em vez de desenhar a
melhor unidade possível dentro de 7.500 dólares multiplicados por 100, a equipe
da Elemental se perguntou qual seria o melhor edifício de 750 mil dólares capaz
de abrigar 100 famílias.
Se investissem em edifícios altos, não seria possível aumentar a superfície
original da moradia, com exceção do primeiro e último piso, que pode crescer
verticalmente enquanto o outro sempre pode ser ampliado horizontalmente sobre o
solo. A solução foi a construção de edifícios com dois andares, divididos em
quatro grupos, já estruturados para sua futura ampliação. Cada edifício é
composto de duas casas, uma no primeiro nível - ampliável em um quintal aos
fundos e no espaço abaixo da laje que separa os dois níveis - e um apartamento
dúplex com espaço para crescer ao lado.
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