Para entender e propor um estado para a questão da arquitetura latino-americana hoje, devemos enfrentar o conceito e a realidade da globalização. Diante dela, distinguir qual é a arquitetura que se pode considerar realmente identificadora da America Ibérica torna-se uma tarefa complexa (talvez por ser desnecessária). Mas é importante e positivo examinar as diferentes variáveis ou dinâmicas que marcam sua situação atual.
Essa tarefa se torna indispensável diante do transtorno derivado da aceleração e da futilidade da informação que se produz e que circula no território global - informação que originou uma visão deslocada da arquitetura, ensimesmada na sua própria capacidade de simbolização hegemônica na época do hipercapitalismo.
Uma das causas determinantes é a compreensão errônea do significado da era da informação e dos meios que estão à nossa disposição - dois fatores que fazem com que alguns arquitetos estejam mais obstinados na criação de sua imagem pessoal do que na criação de teorias para o desenvolvimento e adaptação da arquitetura a uma nova situação.
Em 1998, o ensaio de Hans Ibeling, Supermodernism, analisava como a internacionalização da arquitetura - entendida como um processo que é resultado do desejo de projetar edificações que se distinguem ao portar reconhecidamente sua autoria - estava abocanhando uma situação na qual a "neutralidade e a superficialidade adquiriam um significado especial". Uma década depois, esse processo se intensificou e se aproximou de situações de atividade construtiva predatória, que se sustenta na sacralização da figura do arquiteto que alcançar níveis dogmáticos - como nos projetos que se realizam atualmente na China e nos Emirados Árabes, cuja influência se estende e permeia os conceitos do significado e das formas de uma arquitetura da era da globalização.
Impostadas argumentações falam sobre o desejo de construção de visões arquitetônicas que constituam "novas possibilidades de início" para a civilização global. O peso dessas argumentações deveria incitar a uma reação que desde a sua própria razão de ser se manifestasse profundamente crítica e planejasse alternativas consistentes diante do paulatino esgotamento da idéia de modernidade. Pois, na realidade, aquelas argumentações são pretextos que legitimam a megalomania infinita que permitiu a certas figuras ascender mediante edifícios de questionável valor arquitetônico e fundo ideológico.
A arquitetura mundial se encontra submersa em uma crise de idéias, em uma incapacidade de gerar um projeto que encarne um ideal de progresso. E assumir essa incapacidade é o recurso necessário para poder começar a rechaçar e a fugir dessas teogonías arquitetônicas, para construir - com o pleno sentido metafórico e literal do termo - uma arquitetura que evidencie uma compreensão transformada, ampla e coerente, não impostada nem fictícia, de uma realidade baseada em uma consciência inspirada por fundamentos trans-temporais.
Em um momento em que se ensaia a acomodação da arquitetura à realidade atual, cai sobre ela o risco de que seja manipulada pelas perspectivas esquematizadoras e paternalistas de certa visão primeiromundista, proporcionada ou inspirada pelo oportunismo e por certo ar colonizador dos arquitetos da metrópole.
O projeto moderno vai chegando ao seu final, pelo avanço da tecnologia digital e pelos fatores que definem num nível amplo o contexto presente. Deve-se, então, colocar em debate a maneira com que os países ibero-americanos assumem o desafio de fazer arquitetura neste mundo em processo de transição e arquitetonicamente regido pelos ditames de certas estrelas - estrelas que desembarcam em qualquer geografia tentando vender seus produtos sem levar em conta a realidade do lugar. E levam isso a cabo tentando mascarar sua ignorância e indiferença por ações pseudo-contextualizantes, caso da Torre Bicentenário, que Rem Koolhaas está construindo na Cidade do México. Esse é um exemplo nítido da atitude arquitetônica primeiromundista que opera do interior, auspiciada pela cooperação de jovens arquitetos que enfatuados pela aura poderosa do "papa" entregam sua integridade e renegam o compromisso social e ético que o arquiteto deve assumir.
Jovens arquitetos que compreendem seu trabalho como um pretexto para formar parte do olimpo global, e que vêem a realidade de seus próprios países a partir de uma visão deformada e elitista, pouco podem trazer ao desenvolvimento real se não propuserem a busca de linguagens próprias. Não por uma questão chauvinista, mas por sensatez pragmática e por coerência. Devem operar a partir do social e público, que articulem respostas a situações locais e não se deixem enfatuar pela vontade de emular modelos globalizantes.
O protagonismo e a transcendência que a América Ibérica tem capacidade de adquirir no atual contexto mundial podem resultar cruciais. Sua bagagem está composta da intensidade de sua história arquitetônica mais recente, um substrato da multiculturalidade e da intensidade dos avatares econômicos, políticos e sociais que incidiram sobre os países do continente que lhes permitiu gerar não só expressões mas também dinâmicas arquitetônicas muito específicas.
Se o Movimento Moderno teve na América seu grande apogeu, cobrou vida própria e posteriormente deu lições à Europa foi precisamente pela energia e ideais com os quais dotou a concepção de uma nova arquitetura. Hoje os profetas da arquitetura com uma visão cosmológica mais equivocada tentam doutrinar sobre modelos que aportam pouco ao desenvolvimento em certas latitudes e realidades.
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