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Crônicas Agudas

Escritórios: alto, mais aalto, muito
Uma longa história do tempo

POR SERGIO TEPERMAN


Os acadêmicos, quando solicitados a escrever sobre escritórios, consideram um crime de lesa majestade arquitetônica não começar com a velha história dos primeiros prédios de Chicago, a estrutura de aço, Sullivan, os Chicago Bulls e Michael Jordan. Já nesse momento não notavam nem citavam os aspectos mais interessantes da cidade: o jazz e os gangsters. Além disso, ao mencionarem sempre a escola de Chicago como o início do mundo, são repetitivos e esquecem o real começo de tudo. Os primeiros "escritórios" eram, acredito, dos fenícios, que muito antes dos bancos drive-in inventaram as vendas e negócios "sail-in" com seus barcos que giravam pelo Mediterrâneo.

E foi do Mediterrâneo que os escritórios, digamos, "estáveis" começaram, na querida e linda Firenze. Há uma famosa história dos financistas Strozzi, que construíram um palazzo com imensas e altíssimas portas de entrada. Seus rivais, os Pitti, para "competir com os vizinhos", construíram um palazzo muitíssimo maior, com os melhores jardins do mundo para namorar (I Giardini di Boboli) e com um número incrível de janelas, cujas dimensões eram superiores às da monumental porta dos Strozzi. Naturalmente foram à falência, ocasião em que os Strozzi, com a fineza e gentileza típica dos banqueiros, os convidaram para jantar e os fizeram sentar em sacos cheios de moedas de ouro.

Os edifícios de escritório do nosso século refletem essa história. Nada comparável aos riquíssimos mercadores neerlandeses, retratados em lindos e singelos quadros de fundo marrom, com uma maravilhosa réstia de luz e sentados em pequenos ambientes contando moedas. O inventor dos modernos prédios de escritórios, Mies van der Rohe, tentou repetir essa modéstia eliminando todos os enfeites e elementos de pedra que revestiam as primeiras estruturas metálicas dos edifícios de Chicago.

Thomas Barrat/Shutterstock
Skyline de Chicago

A estrutura metálica com paredes leves e vidro foi criada em Chicago para substituir as pesadas paredes portantes de alvenaria, dos quais o edifício recordista em altura, com incríveis 16 andares, é o famoso Monadnock, que também detém o recorde de espessura de paredes.

Mas a combinação metal-vidro era pouco aceita pela população, que desconfiava da sua solidez. Em Nova York, a resposta para disfarçar a leveza da estrutura metálica foi o Woolworth Tower, com revestimento total de granito. A pedra passou a ser a norma de solução de fachadas do historical style, que na verdade reproduzia elementos quase góticos.

Assim, curiosamente, a arquitetura abandonada dos edifícios de alvenaria foi substituída pela "arquitetura moderna" de aço e vidro inventada em Chicago. E esta, alguns anos depois, perdeu seu lugar para a estranha arquitetura "com cara de alvenaria", mas de estrutura metálica, inventada em Nova York, cidade que rapidamente percebeu o interesse comercial dos incipientes developers para atender a um público ainda conservador em relação à arquitetura (ou seja, pedra por fora), mas preparado para aceitar edifícios altos. Na época, ainda que levando em conta o valor do terreno, o elemento mais importante era a imagem do construir alto, mas não apenas alto: mas mais alto que os outros, a repetição da famosa disputa renascentista entre Strozzi ou Medici x Pitti, ou entre as famosas torres também toscanas de San Gimignano.

Donald R. Swartz/Shutterstock
Skyline de Nova York

Que arquitetura se prestava a isso na época? Ora, nada como voltar à Paris da Tour Eiffel 35 anos depois. O estilo Art Déco, a grande estrela da exposição internacional de artes decorativas de 1925 em Paris, trouxe a resposta ideal. O símbolo maior desse estilo em Nova York foi o Chrysler Building, uma maravilha ainda não atingida por nenhum edifício de escritórios até hoje.

Como todo ícone real, criou lendas, mas que são verdadeiras. As principais:
1) A agulha foi escondida até os 45 minutos do 2º tempo e erguida na prorrogação para surpreender o concorrente que pensava estar construindo o edifício mais alto do mundo.
2) O arquiteto acionou o incorporador por maiores honorários, ganhou e levou o incorporador à falência. Bons tempos em que os honorários conseguiam essa proeza.

Essa história parece um filme. Capítulo 2: A vingança. Pouco tempo após a finalização do Chrysler Building, sem ter de longe a mesma qualidade arquitetônica, um novo ícone surgiu: o Empire State Building. Construído em tempo recorde em plena depressão (da economia, dos americanos e, acredito, dos incorporadores!), o Empire State chamou a atenção por ser o mais alto, mas também pelo seu terraço acessível a todos, coisa que os outros edifícios não tinham. Palco de inúmeros filmes e de uma corrida anual pelas escadas, foi precursor do World Trade Center quando, durante um dia de neblina, um aprendiz de muçulmano fundamentalista ou melhor, de piloto, acertou o prédio com um B-25. O Empire State permanece como um ícone até hoje, porque outros pilotos, com aviões um pouco maiores derrubaram os seus concorrentes, ou seja, o World Trade Center.

Tom Jobim, uma das poucas unanimidades e glórias nacionais, disse que Nova York deveria ser visitada de maca e tragicamente foi o que lhe aconteceu.

Na disputa Nova York x Chicago, os Chicago Bulls venceram os Knicks graças a um treinador alemão, Mies van der Rohe, e o historical style perdeu a parada.

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